Onde está Geraldo?

Ausente no instante maior da Conveno do PSDB, governador de So Paulo passou a mensagem de que o resultado no foi nada bom para ele; para voltar a brilhar no plano nacional, um voo para outro ninho partidrio pode ser a soluo

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Marco Damiani, Brasil 247 _ Ué, não está faltando alguém na foto principal da Convenção do PSDB, realizada no sábado 28, em Brasília? Ou será que o chefe do maior orçamento público entre os tucanos, líder político do Estado mais populoso do País e ex-candidato a presidente pelo próprio partido não merecia estar lá em cima, brilhando para a claque arregimentada pelo governador de Goiás, Marconi Perillo, e ocupando espaços na mídia de todo o Brasil?

Por que Geraldo Alckmin não está na foto?

O governador de São Paulo, sabe-se, é homem de falar pouco, reservado e discreto. E com essa ausência no instante maior da Convenção, a verdade é que ele disse muito. Enquanto Serra saiu como o grande derrotado do encontro – e o senador Aécio Neves, de Minas, na prática empalmou o partido dos tucanos, fazendo todos os principais cargos --, Alckmin não pode, nem de longe, ser visto como vitorioso. Ele também perdeu. Após sábado, o PSDB passará a assumir um sotaque mineiro acentuado demais até para o jeitão interiorano de Alckmin. O contraponto será dado pelos nordestinos do presidente reeleito Sérgio Guerra (PE) e do presidente do ITV Tasso Jereissati (CE). Os paulistas ficaram, num passe político, para trás, apenas com a vice-presidência, para o, neste momento acamado, ex-governador Alberto Goldman.

Nessa configuração, se Alckmin ainda pretende tentar ser presidente da República – e pretende --, o partido que ele ajudou a fundar, ficha 007, ficou diferente demais das feições que ele gostaria de ver. É por isso que, à solta, correm em São Paulo as especulações de que Geraldo, como é chamado nos meios políticos, já estaria afivelando as malas para uma migração para o PTB. Dizem esses rumores que uma mudança de partido seria a única forma de o governador paulista voltar a encontrar espaço para não somente voltar a despontar no plano nacional – em paralelo à figura de Aécio --, mas igualmente para tornar-se, efetivamente, um chefe político regional forte. Sendo que essa região é nada menos que São Paulo.

Hoje, se olhar tanto para o quadro tucano em São Paulo como no Brasil, Alckmin tende a se sentir emparedado. Tanto assim que, para abrir mais espaço para si mesmo e os seus – os líderes políticos conservadores e de centro do interior paulista simplesmente amam Alckmin --, o governador não hesitou em chutar metade da bancada de vereadores paulistanos do PSDB para fora do partido e, ao mesmo tempo, fazer todos os quadros da direção estadual. Não houve nenhuma composição com as turmas de Serra e do ex-presidente Fernando Henrique. Nada. Foi como ganhar por 10 a zero. Ficou claro que, em SP, quem manda no PSDB é Geraldo. Num estalar de dedos, o governador pode fazer essa estrutura acompanhá-lo para onde for ou, ao menos, dentro partido, usá-la como contraponto a Aécio, que vai ganhando ares de candidato “natural” dos tucanos à sucessão da presidente Dilma Rousseff. É sobre esse movimento que ele, neste momento, reflete

Uma mostra do que Geraldo pretende fazer terá de ser dada no processo de escolha do candidato a prefeito do partido, para as eleições da capital paulista e de todas as cidades do interior. O resultado da Convenção tem tudo para mudar a sua postura inicial de apoiar o nome de José Serra em São Paulo. Além de Serra afirmar que não quer – o que levaria Alckmin à inadmissível postura de ter suplicar publica e politicamente para que ele venha a aceitar --, o próprio Alckmin tem em Gabriel Chalita, recém-filiado ao PMDB, um amigo pessoal e um quadro que quer muito disputar e testar seu cacife eleitoral, que, de resto, se mostrou eficiente em todas as eleições que disputou. Pensando nacional e regionalmente, Alckmin chega a concluir que sua vida pode ser muito mais confortável e ainda mais poderosa se, no tempo certo e para a legenda certa, ele bater asas do ninho tucano que, a partir de agora, tem outros inquilinos.

Abaixo, as reportagens de Brasil 247 sobre a Convenção do PSDB:

Na mosca! As mais corretas previsões sobre o que iria acontecer na Convenção Nacional do PSDB, neste sábado 28, em Brasília, se confirmaram. O ex-governador José Serra sai do encontro derrotado pelo seu maior adversário, o senador mineiro Aécio Neves. Tudo o que Serra quis, não conseguiu. Além de o partido continuar sob a presidência de Sérgio Guerra, o que já estava acertado há muito tempo, a Secretaria-geral da agremiação continuará nas mãos de Minas Gerais, com o deputado Rodrigo Castro. A intenção de colocar no cargo o ex-governador Alberto Goldman, hoje se recuperando da colocação de duas pontes de safena, fracassou – ele será vice-presidente, com funções menores na máquina.

O que restava de importante para Serra – a presidência do Instituto Teotônio Vilela, que atualmente administra um caixa de R$ 6,2 milhões e tem a capacidade de promover encontros de formulação política – foi parar sob o domínio do ex-governador do Ceará, Tasso Jereissati. Serra e Tasso são adversários a ponto de não trocarem palavras entre si.

Comandados por Aécio, os tucanos que determinaram o desfecho da Convenção Nacional do partido quiseram humilhar Serra, buscando deixá-lo sem qualquer posição de expressão. As posições para que ele ficasse fora da cúpula prevaleceram durante uma reunião na noite de ontem, mas, neste sábado pela manhã, pouco antes do meio-dia, vingou o posicionamento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Indicado para a presidência do Conselho Político do partido, FH abriu mão para dar o lugar a Serra. Este Conselho será composto, além deles dois, por Guerra, Aécio, Tasso e os governadores Geraldo Alckmin, de São Paulo, e Marcone Perillo, de Goiás. Serra não terá, nem perto, qualquer chance de constituir maioria. Além disso, dentro do partido pouco se sabe, ao certo, para o que serve exatamente esse Conselho, sem datas pré-definidas para se reunir. O importante mesmo são a Comissão Executiva e, pela capacidade de repercutir, o ITV.

Leia abaixo, a reportagem de Brasil 247 publicada pouco depois da zero hora do sábado, com um panorama prévio do que viria a ser o encontro tucano:

O PSDB vai armar uma festa a partir das 9 horas, em Brasília, para embalar a Convenção Nacional do partido, mas o pano de fundo é o velório político, de corpo presente, do ex-governador e duas vezes candidato derrotado à Presidência da República José Serra.

“Quem cultiva rancor morre envenenado por si mesmo”, disparou o presidente do PSDB de Minas Gerais, Marcus Pestana, na véspera da Convenção. Com requintes de crueldade, a frase é um indicador mais que claro, alguém duvida?, da desforra que está sendo preparada pelos mineiros e anti-serristas tucanos de todo Brasil contra o correligionário paulista. No início do ano passado, eles foram batidos, impiedosamente, por Serra e sua então maioria, nas pretensões defendidas pelo senador Aécio Neves de realizar prévias partidárias para a escolha do candidato presidencial do partido. Agora, o tamanho do troco, igualmente sem dó, já foi dimensionado até mesmo pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, chamado para tentar salvar Serra da humilhação, mas que, pelo que ele mesmo disse, pouco poderá fazer. “Aécio tem hoje uma posição de vantagem”, reconheceu FHC.

Dos dois altos cargos que Serra lutou para ocupar na máquina partidária, um já lhe foi negado na primeira hora, e para o outro sofreu, nas negociações anteriores à Convenção, o veto da nova maioria tucana.

A possibilidade de presidir o PSDB, com o decorrente benefício da visibilidade do cargo, Serra perdeu logo depois de ser derrotado, em outubro, pela adversária petista Dilma Rousseff. Ele acreditou que o atual presidente tucano, Sérgio Guerra, sempre tratado como auxiliar, abriria mão da reeleição na chefia da máquina partidária para dar passagem aos seus planos. Uma vez sem perspectiva de poder, no entanto, o ex-candidato viu Guerra, apoiado pelo então senador eleito Aécio Neves, botar a candidatura à reeleição na rua. Não adiantou para Serra ficar fulo nem chamar Guerra à sua própria casa, em São Paulo, para exigir um recuo. A vingança já estava em curso.

Para este sábado, um segundo prego no caixão será batido. Serra quer porque quer sair da Convenção como presidente do Instituto Teotônio Vilela, o ITV com caixa de R$ 6,2 milhões. Mas também ai, de acordo com a correlação de forças atual, está tudo acertado para que seu sonho seja fulminado. O grupo mineiro estará aliado ao bloco nordestino para fazer de Tasso Jeiressati, certamente o político ao qual Serra tem maior aversão no PSDB, o coronel desse rico quinhão. Coube outra vez ao mineiro Marcus Pestana vocalizar as intenções da turma que não irá verter uma lágrima sequer durante o féretro serrista, engalanado por bandeirinhas azuis e amarelas, as cores do partido. “O Instituto e a Executiva têm de remar para o mesmo lado”, apontou Pestana. “Com Serra, isso não aconteceria”. A certeza é tanta que o verbo já foi para o futuro do pretérito, reparou?

Restará a Serra, confirmado o prognóstico, uma poltrona de espaldar baixo no conselho político da agremiação, organismo, como diz o nome, para dar aquilo que, segundo o dito popular, se fosse bom, seria vendido. Mas ai ele manda avisar que 'não, quero não'. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o próprio FHC entraram em campo para tentar convencer os tucanos liderados por Aécio a entregar a presidência do Conselho a Serra. A parada, porém, leva jeito de ter sido resolvida de outra forma. De acordo com as negociações feitas em Brasília, será FHC, e não Serra, o nome escolhido. Seus integrantes seriam Alckmin, Aécio, Guerra, Tasso, o governador de Goiás, Marcone Perillo, e, ufa!, finalmente Serra.

Uma única concessão poderá ser feita pelos que acreditam ter a maioria da Convenção: numa saída tipicamente tucana, deixariam a questão da presidência do ITV ser dirimida durante a semana, por um grupo restrito. Mas, se Serra atuar em seu velho estilo, desprezando capacidades alheias, poderá sair sem ter nenhum ‘carguinho’ para se apoiar. A verdade é que os tucanos que ele se acostumou a sovar – a ponto de ter sido uma segunda vez candidato a presidente da República – na permanente luta interna, não o perdoam por diversos gestos. Pegou mal Serra dizer, no discurso em que admitiu a derrota para Dilma, seu famoso “até breve”, precedido pela avaliação de que “o povo não quis que fosse agora”. Em São Paulo, o ex-governador igualmente perdeu aliados ao recusar, sem dizer palavras, mas apenas mandando recados cifrados, a possibilidade de ser candidato a prefeito da capital em 2012. Esse é o desejo do governador Alckmin, que assim, com Serra direcionado ao objetivo municipal, teria campo livre para medir forças com Aécio para ver quem será o candidato tucano a presidente da República em 2014. O beicinho de Serra contrariou Alckmin, que agora até tentará defender uma saída honrosa, na Convenção, para o próprio Serra, mas sem forçar a barra.

De tudo o que se fala sobre as negociações dos tucanos para não expor, ainda mais, em público, suas diferenças, o máximo que se diz é que Serra poderá ter um aliado como tesoureiro do partido. A poderosa Secretaria-Geral, esta tende a ficar nas mãos de Aécio por meio de um mineiro. A conferir, no final deste sábado, quem matou e quem morreu, politicamente, nesta guerra em que se transformou a Convenção tucana.

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