Palocci é indefensável

Lula, o maior líder político do País, deveria se dedicar a causas mais nobres

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Já me perguntaram se não tenho outro assunto que não Palocci. Meus últimos cinco artigos falaram do ministro-chefe da Casa Civil e de seu enriquecimento súbito e não explicado. Reconheço que pode ser um pouco demais e que há mais coisas acontecendo no país e no mundo. Mas abandonar Palocci agora me passa a impressão de estar fazendo o jogo daqueles que apostam no esquecimento, na superação de um escândalo por outro, para que tudo continue como está e o ex-vereador de Ribeirão Preto que ficou milionário só ocupando cargos públicos fique em paz.

O problema é que o caso Palocci tornou-se emblemático. Episódios de corrupção temos todos os dias, em todos os cantos do país – e, se lermos a imprensa de outros países, também lá fora. A corrupção, envolvendo pequena, média ou grande quantia, é distrital, municipal, estadual e nacional. Então, por que Palocci é especial? Simples: porque Palocci está no coração do poder, com gabinete próximo ao da presidente Dilma Rousseff e poderes de um primeiro-ministro. Sua permanência ali é uma ofensa ao povo brasileiro e aos que, como eu, votaram em Dilma e se consideram de esquerda.

Se estivesse tudo certo, Palocci já teria se explicado no primeiro dia e não fugiria da imprensa e do Congresso. O caso teria morrido, como tantos outros, e eu estaria aqui falando de Código Florestal, reforma política, kit anti-homofobia, assassinato de ambientalistas no Pará, Pimenta Neves e a lerdeza da Justiça. Assuntos não faltam. Mas Palocci continua se escondendo e negando às brasileiras e aos brasileiros as explicações que nos deve.

A afirmação da presidente de que Palocci está se explicando aos “órgãos de controle” só reforça as suspeitas. Que explicações? Que órgãos? A fala do ministro aos senadores do PT só mostrou que ele continua tão arrogante quanto antes desse último episódio dentre tantos que o deixam mal. Sim, porque há vários episódios anteriores, desde os tempos de Ribeirão Preto, que deixam o ministro muito mal perante os que nada lhe devem nem lhe admiram. Mas sempre passaram a mão em sua cabeça, aí se incluindo até mesmo ministros do Supremo Tribunal Federal que o absolveram de um crime testemunhado pelo jornalista Paulo Nogueira e pela Caixa Econômica Federal.

Advogados, contadores, jornalistas, amigos, assessores, uma turma grande passou os últimos dias trabalhando na explicação que Palocci encaminhou nesta sexta, finalmente, ao procurador-geral da República. É nisso que Palocci aposta: na aceitação, pelo procurador-geral, de suas justificativas. Aí, dará o caso como transitado em julgado e esperaremos o próximo episódio de corrupção em algum lugar do país.

O que Palocci não esperava era que o Ministério Público Federal no Distrito Federal abrisse um procedimento para investigar a evolução do patrimônio do ministro e as atividades de sua empresa, a Projeto. Dependendo dessas investigações, sob a responsabilidade do procurador Paulo José Rocha, poderá ser aberto um processo cível contra Palocci.

Voltamos ao óbvio: se há explicações, por que não dá-las à imprensa, ao Congresso, à sociedade? E porque foram precisos tantos dias para prepará-las? Ora, porque podem até atender às exigências do formalismo enganador, mas não explicarão o básico: o que o ministro fez, quando era deputado federal, para ganhar tanto dinheiro? Não adianta insistir em dizer que foram consultorias legais. Ninguém, mas ninguém mesmo, acredita – nem os que fingem e fingirão acreditar por conveniência, interesse ou ingenuidade.

Palocci hoje só faz mal ao governo e à presidente Dilma. Se continuar no poder, será ainda pior. A luta política com a oposição não pode ser pretexto para que seja defendido a todo custo, até mesmo com a competente intervenção pessoal do ex-presidente Lula. Palocci demitido do governo é que será um enorme golpe para a oposição, que perderá uma bandeira que desfralda graças à desastrada “blindagem” que o ministro está recebendo. E os “aliados” do governo que chantageiam o governo para proteger o ministro ainda perderão mais esta mina de ouro político.

O ex-presidente Lula deveria, pelo bem do país, dedicar-se a outras causas mais nobres. É, sem dúvida, o maior líder político do Brasil e não ajuda à presidente Dilma, ao governo, ao PT e a si próprio expondo-se como defensor de Palocci. Palocci é indefensável.

15-M aqui também

Lula deveria dedicar-se mais à reforma política e eleitoral que o Brasil precisa. Ele tem condições de liderar um movimento para que as mudanças realmente aconteçam. Diante das dificuldades que tem o Congresso em chegar a um consenso sobre quase todos os pontos de uma reforma, o ex-presidente voltou a levantar a possibilidade de ser convocada uma constituinte exclusiva para votar o tema. Tem razão, porque deputados e senadores darão prioridade a seus interesses e nada mudará de fato.

Não é por nada, mas não custa observar que o movimento de contestação que empolga a Espanha e outros países europeus, o 15-M, tem como bandeiras a reforma política, a democracia participativa, a transparência dos governos e o combate à corrupção.

Nada a ver com Brasil, né?

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