Pesquisa Datafolha e os cenários em SP

A primeira conclusão que a pesquisa de intenção de voto nos dá é a de que a campanha de fato não começou para a maioria da população

O cenário eleitoral da maior cidade do país continua indefinido, a julgar pelos resultados da última pesquisa divulgada pelo instituto Datafolha. Logo, a primeira conclusão que a pesquisa de intenção de voto para a Prefeitura de São Paulo nos dá é a de que a campanha de fato não começou para a grande maioria da população, o que deve mudar a partir do início da propaganda eleitoral no rádio e na TV.

Mas há sinalizações importantes que os dados revelam. Inicialmente, o alto índice de desinformação dos eleitores sobre os candidatos Fernando Haddad (PT) e Gabriel Chalita (PMDB). Isso talvez explique o elevado número de eleitores indecisos (61%).

A trajetória ascendente do candidato do PRB, Celso Russomanno, que aparece com 26% das intenções de voto, contra 24% na última pesquisa, e empata tecnicamente com o tucano José Serra (PSDB), ao que tudo indica, tem como fundo um efeito recall —o mesmo, aliás, parece acontecer com Serra.

Russomanno já disputou eleições majoritárias —foi candidato ao governo do Estado de São Paulo em 2010— e até pouco tempo tinha grande exposição na mídia, pois comandava o quadro fixo de um programa na TV aberta, abordando problemas de consumidores, portanto, de forte apelo popular. Assim, é o caso de aguardarmos a próxima pesquisa para saber se esse efeito na campanha de Russommanno é realmente temporário.

Já o ex-governador José Serra estagnou na margem dos 30% —percentual baixo se considerarmos que o candidato é conhecido por 99% dos entrevistados! Afinal, Serra já governou a cidade (renunciou um ano e meio depois), o Estado de São Paulo e concorreu duas vezes à Presidência da República —perdendo para Lula em 2002 e para a presidenta, Dilma Rousseff, em 2010. O tucano parece, portanto, ter esgotado seu potencial de crescimento.

Por outro lado, não esgotou seu potencial de rejeição: o índice de pessoas que não votariam em Serra, em hipótese alguma, foi de 35% para 37%, o mais alto entre todos os candidatos —para se ter ideia, o segundo mais rejeitado é Paulinho (PDT), com 21%. Este fator acende a luz amarela para a candidatura tucana, pois delineia um teto sólido para sua capacidade de crescimento.

Para piorar a situação de alta rejeição e limitação da capacidade de obtenção de voto do tucano, sua candidatura está altamente vinculada ao atual prefeito Gilberto Kassab (PSD), já que este chegou à prefeitura pelas mãos de Serra. O tucano representa nestas eleições a continuidade da gestão Kassab, que é mal avaliada por nada menos que 80% dos paulistanos —também conforme o Datafolha— e segue conduzindo uma administração errática, incapaz de solucionar os problemas da cidade, marcada pela falta de diálogo com a população, pela ausência de políticas públicas estruturadas e pelo desmonte de tudo o que foi feito de bom na gestão da prefeita Marta Suplicy (PT).

Segundo a mesma pesquisa, Kassab foi o pior avaliado entre os prefeitos das principais capitais do país: numa escala de avaliação de 1 a 10, a população paulistana lhe atribuiu nota 4,4. O levantamento apontou ainda que o prefeito cumpriu apenas 16% de suas promessas para a área de mobilidade urbana, uma das mais críticas para a cidade.

Já o candidato petista, Fernando Haddad, manteve-se no mesmo patamar, indo de 6% para 7% das intenções de voto, tecnicamente empatado com a ex-vereadora Soninha Francine (PPS), que tem 7%, e o deputado Gabriel Chalita (PMDB), com 6%. Mas a campanha de Haddad começa a ganhar as ruas, em diálogo franco com a população e construindo coletivamente um programa de governo que possa enfrentar os principais problemas da cidade em Educação, Saúde, Habitação, Cultura, Lazer, mobilidade urbana e também nas necessidades concretas de seus habitantes.

As alianças já consolidadas em torno de Haddad também serão cruciais para a realização de seu futuro governo, pois não podemos nos esquecer de que a cidade de São Paulo precisa reunir forças para sair o mais rapidamente possível do atraso em que foi colocada pelas péssimas administrações a que esteve e está submetida, idealizadas por Serra e o PSDB.

Além disso, é sintomático que Haddad tenha crescido justamente entre os eleitores que passaram a saber que ele é candidato, ou seja, a tendência é que, conforme fique conhecido, passe a subir nas pesquisa. Tal movimento deve ser alavancado com a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV, a partir de agosto. Mas, principalmente, com a participação da militância e do diálogo aberto com a sociedade.

Há muita campanha pela frente e as pesquisas desse início de eleição ajudam a traçar cenários, alimentar a disputa, fortalecer o debate político e sinalizar tendências. Mas, a depender da pesquisa Datafolha, os próximos meses serão de dificuldades para a campanha de Serra.

José Dirceu, 66, é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT

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