Por que, afinal, o Brasil não tem indignados?

Carta aberta ao correspondente do jornal El País, da Espanha, no Brasil

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Caro Juan Arias,

reli, há pouco, seu artigo “Por que o Brasil não tem indignados?”, publicado a 7 de julho no jornal El País. Tinha de ser você, com sua argúcia espanhola e a língua afiada que o tornam um dos melhores correspondentes estrangeiros nestas terras tupiniquins, para vir cutucar nossa ferida mais incurável – a lassidão moral/política – e esfregar em nossas caras perguntas que nós mesmos, brasileiros, há muito nos perguntamos sem encontrar (ou sem querer encontrar) respostas. À guisa de pró memória, repito algumas das perguntas que você formula: Será que os brasileiros não sabem reagir à hipocrisia e à falta de ética dos políticos? Será que não se importam com os ladrões e sabotadores que estão nas três esferas de governo? Será mesmo esse povo naturalmente pacífico, contentando-se com o pouco que tem? Por que estudantes e trabalhadores não vão às ruas contra a corrupção? Será que não cabe aos jovens exigir um país menos corrupto? Que país é este que junta milhões numa marcha gay, outros milhões numa marcha evangélica, muitas centenas numa marcha a favor da maconha, mas que não se mobiliza contra a corrupção?

Para começar, um parêntese: sei perfeitamente que você não escreveu esse artigo, nem fez essas perguntas, com o intuito de nos insultar e de ferir os nossos brios, como pretenderam alguns comentaristas. Certamente não seria você, bom conhecedor de nossas histórias e índoles, a brasileira e a espanhola, originário de um continente que, no século passado, e para citar apenas esse século, foi capaz de produzir um Franco, um Salazar, um Mussolini e um Hitler, sem falar nos Ceaucescus, Stalins, Milosevics e outros doidos surgidos nos países do Leste, que nos iria atirar a primeira pedra. Não, suas indagações com certeza foram formuladas com um outro propósito, muito mais digno do seu caráter e inteligência: a provocação.

Meu caro Juan Arias, como dar resposta às suas perguntas? Como dar vazão à enxurrada de memórias existenciais que elas fazem brotar nas cabeças brasileiras como a minha, ainda não totalmente narcotizadas pelas seduções mefistofélicas da Lei de Gérson – aquela que nos aconselha a levar vantagem em tudo e que virou apanágio-mor da moderna cultura verde-amarela? Mário de Andrade, na primeira metade do século 20, tentou até inventar um personagem que pudesse funcionar como metáfora dessa moralidade corrupta: Macunaíma, o herói sem caráter. Só funcionou para a elite mais esperta e mais intelectualizada. Para o povão, passou em brancas nuvens. Macunaíma se encontra excessivamente próximo de todos nós para que possamos percebê-lo com clareza.

Para tentar lhe responder, poderia trilhar a linha que vários sociólogos, historiadores e antropólogos já trilharam, e desenvolver a tese de que a corrupção aqui é endêmica porque está assentada na nossa histórica amoralidade. Dizer que ela vem do berço, da massa de degredados que Portugal mandou para cá quando quis esvaziar as prisões de Lisboa, nos primeiros tempos da colônia, e que constituiu boa parte da base de nossa sociedade. Prosseguir dizendo que essa mania de corrupção foi amamentada e bem nutrida ao longo dos séculos de escravidão, quando até a Igreja Católica discutia se negros e índios, que constituíam parcela substancial da população, eram seres dotados de alma ou se eram simplesmente bichos semi-racionais destinados ao serviço e ao prazer dos brancos.

Indo mais além na mesma trilha, poderia ainda comentar que essa mania foi consagrada nos anos do Império e da República, sob a influência de elites nacionais moralmente retrógradas e da mão forte de potências estrangeiras, européias e americanas, que nunca pararam de agir nos bastidores, fazendo a cabeça (e enchendo os bolsos) dos nossos governantes.

Poderia, enfim, teorizar ad infinitum na tentativa de encontrar explicações filosóficas e psicológicas para a nossa fragilidade moral. A esses exercícios intelectuais, no entanto, que ficam bem para os especialistas, prefiro simplesmente lhe narrar um ou dois exemplos de como tudo isso está entranhado até a medula no nosso povo. Mais que teorias frias, creio que eles lhe ajudarão a tirar suas próprias conclusões.

Na década de 70, na região de Porto Seguro, sul da Bahia, trabalhei como assistente de direção no filme dinamarquês Erasmus Montanus, dirigido pelo cineasta e escritor Henrik Stangerup. Entre minhas obrigações estava a de contratar figurantes para as cenas de rua e de multidão. O filme se passava no Brasil, nos primórdios da colonização portuguesa. Havia uma cena em que meninas e adolescentes índias tomavam banho, nuas, numa lagoa. Uma cena inocente, que retratava os folguedos das jovens indígenas. Mas onde encontrar, em Porto Seguro, famílias dispostas a autorizar que suas filhas com carinhas de índia se deixassem filmar nuas? “Não tem jeito”, disse-me alguém, “você vai ter de procurar nos bregas”. Ou seja, nos prostíbulos da região. Foi fácil. Em todos eles a média das profissionais variava entre os 12 e os 16 anos. Fechei negócio com uma das cafetinas locais e, no dia seguinte, a cena foi rodada sem maiores problemas. Dentre as garotas, uma se destacava pela beleza e vivacidade. Num intervalo da filmagem puxei papo com ela. “Há quanto tempo você está nessa vida?” “Há quase 3 anos. Tinha doze quando meu pai me vendeu pra cafetina. No começou foi muito duro, ter de aguentar esses homens todos. Mas agora estou numa boa, pois sou mulher de um homem só. Ele acertou com a dona da casa para que eu fique só com ele”. “E ele vem lhe ver todas as noites?” “Não, só uma vez por semana. É o prefeito”.

E já que estamos no território da lassidão moral voltada à prostituição infanto-juvenil, conto-lhe mais uma. Há 5 ou 6 anos, eu estava em Fortaleza, acompanhando o trabalho da ONG Greenpeace que organizara uma exposição de tecnologias verdes num grande estande instalado no calçadão da praia de Iracema. Ao cair da noite, o calçadão lotado de passeantes que circulavam entre as centenas de barracas da feira de artesanatos que ali funciona, fui atraído por um alarido de muitas vozes. Um barraco fora armado por uma jovem prostituta contra um turista italiano. Simples: o turista acabara de sair de um hoteleco das imediações com a garota que, como tantas outras suas colegas, não devia ter mais de 14 anos. O programa fora realizado, e ele tinha pago o que fora combinado. Mas a jovem profissional não ficou satisfeita e pediu mais dinheiro. Diante da negativa do freguês, quando estavam no meio da multidão e próximos a uma viatura da polícia, ela resolveu ter um pití federal, acusando o italiano de pedófilo. Não deu outra: os guardas vieram e levaram o italiano. Alguém a meu lado comentou: “Não quis dar mais grana para a menina, vai ter de dar pros policiais”.

Tudo poderia ter morrido ali, num simples entrevero de meretrício. Mas não. O que presenciei a seguir até hoje está ecoando nos meus olhos e ouvidos. Assim que o turista foi levado pelos guardas, a dona da barraca de artesanatos onde eu estava fazendo umas comprinhas, uma senhora gorducha de uns 50 anos, aliança de casada no dedo anular esquerdo, certamente mãe de vários filhos e avó de muitos netos, saiu detrás do balcão e foi tirar satisfação com a jovem profissional do sexo. “Você é uma péssima prostituta”, vociferou a comerciante. “Combinou uma coisa com o cliente e não respeitou o trato, preferiu botar o freguês nas mãos da polícia. São profissionais desonestas como você que estragam o mercado!”

Quando as coisas se acalmaram e a mulher voltou para o outro lado do balcão, eu ainda tive a ingenuidade de comentar: “Mas minha senhora, trata-se de uma menina. Acha normal que ela fique se prostituindo dessa forma?” A reação da comerciante foi imediata: “Essa aí? Ora, meu amigo, ela já está na vida há uns três anos. Tem mania de dar golpe nos turistas. Está prejudicando as colegas que trabalham direito. Você não sabe que muitas delas sustentam a família inteira, inclusive os irmãos mais jovens?”

É assim, caro Juan Arias, em plena Fortaleza contemporânea. Para aquela digna mãe brasileira, o que importa não é prostituir-se ou deixar de fazê-lo. O que importa é respeitar as regras do jogo, e sustentar a própria família, é claro. Acontecia também na Itália, em Nápoles, durante a guerra, como conta Curzio Malaparte em seu livro “A Pele”, quando as avós levavam os netos homens, ainda imberbes, para servirem aos apetites sexuais pouco ortodoxos dos soldados marroquinos estacionados na região. E parece que há, hoje, um processo correndo contra o primeiro ministro Silvio Berlusconi que andou fazendo a festa com uma prostituta marroquina menor de idade.

A garota da praia de Iracema era “uma péssima prostituta”, como a definiu aquela mãe cearense. Nossos políticos corruptos têm de quem puxar...

 

• Juan Arias é correspondente no Brasil do jornal espanhol “El País”.

 

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