Presidente do PV defende legalização da maconha

Livre da sombra de Marina Silva, Jos Lus Penna defende liberao de drogas leves e critica "caretice" do Congresso em relaoaos homossexuaisem entrevista exclusiva ao Bahia 247

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Romulo Faro_Bahia 247 - Como todo bom capricorniano, José Luis Penna, presidente do Partido Verde (PV) desde 1999, é osso duro de roer. Baiano nascido no Rio Grande do Norte, Penna na verdade é potiguar. Dono de um senso de humor às vezes cortante, o político de 65 anos não tem papas na língua. Na semana passada, de passagem por Salvador, ele conversou por quase duas horas com o Bahia 247. E falou de tudo. Metralhadora giratória em punho, não poupou a ninguém: do governador Jaques Wagner à presidente Dilma Rousseff, passando pela ex-correligionária Marina Silva, sobrou espinafrada pra todo o mundo. E para marcar o início da era PV pós-Marina, teve espaço também pra defender o combate à homofobia e a legalização da maconha. E pra não dizer que ele não falou do tema da moda, a mobilidade urbana, segure essa: "Rapaz, o metrô lembra a história da Avenida Contorno, Tom Zé dizia: 'Vai contornar os séculos...'". Confira agora o bate-papo.

247 – Como é o PV hoje sem Marina Silva?
Penna
– É uma coisa muito difícil. Não era o que sonhávamos, mas a vida continua. O partido está se reorganizando para as eleições municipais de 2012, uma eleição importante. Nós temos chance de ocupar a prefeitura de municípios estratégicos. Estamos trabalhando duramente para eleger Eduardo Jorge em São Paulo.

247 – O brasileiro em grande maioria via na ex-senadora Marina Silva o rótulo do PV. Ela leva um pedaço do PV consigo?
Penna
– Acho que não, porque ela nunca foi um ícone isolado. Nós temos várias pessoas interessantes no PV e é preciso entender isso. Houve um casamento entre essa figura emblemática que é a Marina e o Partido Verde, mas temos outras pessoas importantes. Temos uma bancada de 14 deputados federais, até agora não houve explicitamente nenhuma defecção e eu acho que temos plena condição de continuar caminhando e de suprir a lacuna que ela deixa.

247 – Existiu crise entre Marina e seus seguidores versus outras correntes do PV? Faltou à direção do PV acreditar mais na possibilidade de ela deixar o partido?
Penna
– Eu acho que poderíamos ter feito maior esforço para ela não deixar o PV. Agora, a verdade é que em ambas as posições tinha radicalidade. São pessoas do grupo da Marina que desde que entraram no partido lutaram para comprovar a teoria de que não era possível caminharmos juntos. Desde o começo, muita gente nossa via com maus olhos a entrada dela na legenda, embora tenhamos criado a cláusula da consciência para deixar Marina numa situação confortável em relação aos seus pontos de vista ligados à religião, à sua dificuldade com a homoafetividade, ao aborto, às drogas... Mas a campanha de 2010 foi importante para colocar a questão ecológica na pauta das eleições.

247 – O senhor, pessoalmente, conversou com Marina e pediu que ela não saísse do PV?
Penna
– Conversei. Agora, nunca consegui conversar sozinho com Marina.

247 – Por quê?
Penna
– Acho que é um pouco o problema de perfil. O jeito de fazer política da Marina é assim. Ela confia muito no grupo dela. Ela sempre achou que essas pessoas deveriam ser seus interlocutores mesmo diante de um humilde porta-voz eleito do partido (o próprio Penna).

247 – Esse grupo questiona o fato de o senhor já estar há mais de doze anos à frente do partido. Já chegaram a dizer que é uma ditadura amaciada. Como o senhor vê isso?
Penna
– É tudo besteira. Inimigo político inventa loucuras. Outro dia disseram que minha mulher estava num avião indo para a Amazônia. Minha mulher nunca voou para a Amazônia em avião do partido. Outro dia disseram que eu cancelo comissões. Isso não existe no PV. Agora, eu fico tranquilo porque isso é sinal de que é possível alguém querer me substituir. Isso é uma coisa espetacular porque antigamente ninguém queria. Quando viraram as costas para o partido, inclusive alguns desses que hoje falam de mim, não acreditaram no projeto. Essa é que é a dura verdade. Agora observe o seguinte, o partido é uma organização absolutamente original e única na vida política brasileira.

247 – O que é o PV?
Penna
- O PV não vem de sindicato, não vem de associações comerciais, industriais ou agrícolas, não vem das igrejas, não vem das forças militares nem vem das forças tradicionais de esquerda. Então, nós primeiro tivemos que amassar o nosso próprio barro. Fomos crescendo a partir da ampliação da inteligência da sociedade brasileira no sentido de compreender os nossos postulares. Nós não tínhamos quadros políticos. Somos o único partido com uma orientação parlamentarista.

247 – O PV é considerado hoje um partido fragilizado com a saída de Marina?
Penna
– Não, porque as pessoas não se interessam por isso. Quando tem escândalo, por exemplo, com o Ministério dos Transportes, aí as pessoas se interessam porque tem gasto irregular de dinheiro público, interfere na vida das pessoas, coisa que dá confusão, fatos concretos que influenciam a vida das pessoas. Agora, esse disse-me-disse interno de partido não tem nada a ver.

247 – Marina de um lado e PV do outro. Os eleitores foram com ela ou ficaram com o partido?
Penna
– É difícil. Os setores mais organizados, religiosos, organizações ambientais, poderão segui-la. Agora, os eleitores do partido que compreendem muito além disso, nossa visão crítica, que sabem que nós estamos antenados com a caretice de quem tenta reprimir as marchas, a Marcha das Vadias, a Parada Gay, todos esses movimentos que começam a aparecer espontaneamente na sociedade, esse setores não vão com a Marina. Esses vão procurar uma organização que tenha sensibilidade.

247 – A gente percebe que o combate à homofobia deixou de ser uma bandeira exclusiva do segmento LGBT para se tornar uma luta que envolve diversos setores da população. Isso demonstra o amadurecimento da sociedade brasileira?
Penna
– Eu acho que vai se confirmando a profecia do profeta: "Qualquer forma de amor vale a pena". É muito triste você ver a caretice se reorganizar. Eu ando preocupado com isso. Outro dia vi a entrevista do cantor Marcelo D2 dizendo que os babacas estão dominando o mundo. Isso é muito triste porque liberdade tem que ser em doses cavalares. Não é possível o mundo de hoje conviver com repressões. A homoafetividade existe desde que o mundo é mundo e a sociedade não pode mais viver com a hipocrisia, nós precisamos abrir o jogo. A prostituta é um negócio louco, mas a gueixa no Japão, não. Veja como as coisas são doidas.

247 – Como o senhor vê o comportamento dos políticos no Congresso sobre a homoafetividade?
Penna
– O Congresso tem um cenário difícil. Acho que vai ser o último lugar a mudar, não só nesta área, mas como nas outras também. Não se consegue fazer reforma política no Brasil. Os caras foram eleitos com esse sistema que está aí, então porque eles vão querer mudar? Eu acho que primeiro a sociedade muda para depois sua representação mudar.

247 – Como enxerga a postura do deputado Bolsonaro?
Penna
– Bolsonaro é um fascista explícito. O que eu não aguento é a maioria silenciosa. Na hora de votar, por exemplo, o Código Florestal, a gente tomou uma surra daquela, quatrocentos e tantos a sessenta e poucos (votos). Isso é que é problemático. Você está lá e na hora de votar, vota contra qualquer mudança importante e a favor de qualquer coisa que seja retrógrada. A democracia ainda está muito longe no Brasil. Não vejo que qualquer coisa de avanço possa sair daquele lugar (do Congresso), mas a pressão das ruas tem me entusiasmado muito. A discussão das drogas vai ganhando a rua, a discussão das questões femininas vai avançando, isso é que é importante.

247 – A população brasileira está preparada hoje para conviver com a liberação da maconha?
Penna
– Anos e anos de repressão beneficiaram os traficantes e ampliaram o uso. Nós precisamos ter uma outra política e essa outra política, possivelmente, deve passar pela liberação das drogas leves. Nós (o PV) somos pela liberação da maconha porque sem termos inclusive o controle da qualidade do que a juventude está fumando, e a juventude inteira fuma, nós não vamos estar agindo, nem em termos de saúde pública, coerentemente.

247 – O senhor diz que o PT não respeita a opinião dos aliados e dos partidos como um todo. O PT quer ser o maior e ter mais poder do que o PMDB?
Penna
– Quanto a isso, não resta dúvida. O PT tem uma habilidade para negociação muito grande e tem uma bancada militarizada, no sentido de votar fechado. Aquele Henrique Alves (deputado federal pelo PMDB e líder do governo no Congresso) tem o controle absoluto da situação. No Senado, tem o Sarney, que todo mundo avalia como o ocaso. Ele saiu de uma eleição com 70 votos dos 83 senadores (para presidente do Senado). O Brasil é assim, tem eleição e tudo, mas tem diretoria também (risos). Dilma, no entanto, tem dado sinais de querer conversar – sobre a questão do Código Florestal, por exemplo. Mas o grande drama de quem é sucessor é tentar superar seu antecessor e fazer governo com cara própria. Dilma tem um ministério composto quase todo por indicações de Lula, o que dificulta mais. Estamos vivento um longo ritual de passagem de um governo para o outro. Se ela souber mudar, terá grande sucesso, se não tiver muito pulso para conduzir, vai ficar confuso.

247 – E o PSDB?
Penna
– Eu acredito que o PT, e o PSDB também, são invenções paulistas complicadas. Eles abandonaram qualquer ideia de país e trocaram isso por assalto ao poder. Então, são partidos-frente. O PSDB usa democratas cristãos, socialistas, sociais democratas e os mais à direita também. Aí você vai para o PT tem a esquerda cristã, os liberais, os comunistas, enfim. São dois sacos de gatos inventados em São Paulo com prejuízo para o país. Há uma grande diferença com velhos símbolos políticos, como Brizola e o PDT – ali você tinha uma visão de Brasil futuro. Como esses partidos não têm condição de parir um projeto de país, eles se tornam grupo de assalto ao poder. Quando eles chegam ao poder, a única função, ou a função estratégica, é permanecer no poder. Palocci não é Zé Dirceu, que não é Lula, que não é Dilma. Cada um constrói um grupo político internamente. E ainda tem essas forças notadamente conservadoras que compõem a maioria do governo.

247 – Como avalia o governo Wagner?
Penna
– Olha, na parte do meio ambiente e da cultura, eu tenho notícias difíceis. As mudanças que ele fez nas secretarias e no equipamento ambiental foram coisas complicadas. Quando vejo o Pelourinho deteriorando, acho uma coisa triste. É uma coisa até preconceituosa, dizer: 'como foi Antonio Carlos Magalhães que dinamizou aquilo, a gente não deve ajudar'. Teve aquela grave crise com a Fundação Jorge Amado, que chegou a ver a dramática possibilidade de ir para uma universidade nos Estados Unidos (da América), um negócio completamente maluco. É inacreditável que o governo não tenha conseguido aprovar um projeto de financiamento para reforma da Fundação Casa de Jorge Amado, lugar que marcou minha juventude!

247 – E Wagner na área ambiental?
Penna
– O Porto Sul é uma loucura. A usina nuclear, as termelétricas, que o governo quer até usar tecnologia chinesa... Deus me livre! O governo não tem uma política para o semi-árido, não se posicionou claramente sobre a transposição do Rio São Francisco. É um momento difícil, mas temos um tempo para recuperar.

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