Quem será o novo Jânio?

Tragédia de Santa Maria ressaltou, da pior maneira, o quanto pode ser nocivo um prefeito que governa por omissão; na mesma medida, sublinhou o papel estratégico do titular que sai em campo, conhece a cidade de perto e adota medidas típicas de um xerife; exatamente como fazia Jânio Quadros na São Paulo dos anos 1980, onde ele aplicava multas de trânsito e chegou a fechar boates, teatros e cinemas que operavam sem condições mínimas de segurança; na nova geração de ACM Neto (Salvador), Arthur Virgílio (Manaus), Gustavo Fruet (Curitiba) e Fernando Haddad (São Paulo), quem vai segurar aquela vassoura?

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Marco Damiani _247 – Jânio Quadros era um louco? O conheci de perto, tive com ele duas longas conversas de mais de duas horas cada uma e, ao final, fiquei na dúvida. Bem humorado, muitas vezes, e tantas outras irritadiço, isso com certeza. Histriônico, populista? Todos sabem, ou por terem estado com ele, por registros de mídia ou pelos livros de história que sim.

Mas Jânio foi um bom prefeito da maior cidade do País? Para muitos, o mais efetivo do período da redemocratização, sem dúvida. Até mesmo à frente do seu tempo.

Munido de uma autoridade conquistada pela eleição popular, em 1985, sobre o favoritíssimo Fernando Henrique Cardoso, Jânio deitou e rolou. Com seu estilo personalíssimo de administrar, chegava a aplicar multas de trânsito sobre motoristas que praticavam irregularidade. Com o intuito de proteger prédios públicos, criou a Guarda Civil Metropolitana, quando foi chamado, por semanas a fio, de autoritário pelo PT. O partido, que chegou ao poder na cidade imediatamente após o encerramento do mandato dele, passou, então, a utilizar os serviços da corporação sem jamais pensar em extinguí-la ou considerar-se, por isso, fora das lides democráticas.

Uma das atitudes mais famosas do Jânio prefeito, e de maior repercussão, foi a de percorrer pessoalmente casas noturnas, cinemas e teatros verificando instalações de segurança e determinando, muitas vezes, lacrações até o atendimento de normas. Foi assim com o histórico cinema Belas Artes e o famoso teatro Sérgio Cardoso.

Sabe-se agora, de maneira dura e cruel, que se, mesmo com todos os seus defeitos, o estilo xerife de Jânio Quadros tivesse proliferado, prefeitos como o de Santa Maria, Cezar Schirmer, do PMDB, jamais permitiriam que uma boate do tipo da Kiss, onde morreram sob chamas e fumaça 235 jovens, na madrugada do domingo 27, funcionasse sem alvará do Corpo de Bombeiros. Ou superlotada: com capacidade para 600 pessoas, tinha na noite da tragédia 1,2 mil clientes. E, ainda, sem saída de emergência, o que para Jânio já soava como um crime de per si.

Caricatural e resvalando para o autoritarismo, também é certo que Jânio, mesmo com a saúde abalada, encerrou seu mandato ostentando o asfaltamento de 700 quilômetros de ruas e com a cidade atingindo o índice de 91% de iluminação pública.

Em meio a nuvem de tristeza e consternação nacional pela tragédia de Santa Maria, os prefeitos passaram a ter, subitamente, seu papel estratégico ressaltado. A presidente Dilma Rousseff pediu a eles para que zelem mais de perto pela segurança das áreas de aglomerações. Logo no dia seguinte à morte dos jovens, o prefeito de Salvador, ACM Neto, anunciou uma varredura na situação cadastral de todas as boates e casas de espetáculos na capital baiana. "Quem não estiver enquadrado nos padrões e normas técnicas será interditado", disse Neto. "A tragédia de Santa Maria, que ganhou repercussão mundial, serve de alerta para todos nós". Em São Paulo, o petista Fernando Haddad (PT) pediu a secretários a revisão do decreto baixado pelo ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD) após o desabamento de uma unidade da Igreja Renascer. O decreto aumentou o rigor de alvarás para imóveis que abriguem eventos com aglomerações de público.  Em Manaus, fiscalizações realizadas por ordem do prefeito tucano Arthur Virgílio resultaram em fechamentos imediatos de casas noturnas. O prefeito do Recife, socialista Geraldo Julio, reuniu-se com representantes do Corpo de Bombeiros, da Coordenadoria de Defesa Civil do Recife (Codecir) e da Diretoria de Controle Urbano (Dircon) para definir detalhes sobre uma vistoria nas casas noturnas da cidade. Em Curitiba, onde três adolescentes morreram pisoteados, em 2003, após tumulto no Jockey Club da cidade, o pedetista Gustavo Fruet mandou rever todos os alvarás de bares, restaurantes e casas de shows. "É preciso um esforço redobrado com relação à segurança. Não adianta agir depois que uma tragédia acontecer", defendeu.

Cada um ao seu modo, os prefeitos recém-eleitos estão fazendo lembrar de Jânio Quadros. Não na cópia ao estilo, único, mas na atenção sobre questões que só passaram a ser prioritárias depois que uma grande tragédia aconteceu. Houve, goste-se ou não, uma mudança de rotas sobre o que estava inicialmente programado por eles, tanto que só trataram do tema, mais amiúde, depois do fato. Daqui para a frente, os que se adiantarem mais irão se antecipar a questões cruciais para as populações de suas jurisdições. E quanto mais fizerem isso, mais irão lembrar do que o velho político de caspas sobre os ombros e ohos que reviravam tinha de melhor. Apesar de todos os seus muitos defeitos, Jânio sempre se mostrou obcecado pela organização das cidades. Pois a prioridade de sua agenda voltou. Os próximos meses irão mostrar, mais nitidamente, quais serão os prefeitos que irão retirar do limbo da história a vassoura janista (que surgiu para varrer a corrupção e se tornou, mais tarde, símbolo de alguma ordem), para aproveitar seus efeitos simbólicos de ação, severidade e inflexibilidade.

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