Recado dos franceses nas urnas

A comemoração eufórica dos franceses pela vitória de François Hollande nas eleições refletiu o recado dado nas urnas: os franceses não estão satisfeitos com a política de austeridade

Depois de 17 anos, a França volta a sentir ares mais à esquerda pairando novamente na condução dos rumos do país. Com a vitória de François Hollande nas eleições presidenciais, o Partido Socialista volta ao poder pela primeira vez depois do mandato de François Miterrand.
 
A comemoração eufórica dos franceses na simbólica Praça da Bastilha refletiu o recado dado nas urnas: os franceses não estão satisfeitos com a política de austeridade imposta pela chanceler alemã Angela Merkel e pelo comitê formado pelo Banco Central Europeu (BCE), Fundo Monetário Internacional (FMI) e União Europeia (EU), que foi abraçada pelo ex-presidente derrotado, Nicolas Sarkozy, e querem de volta o Estado de Bem Estar Social ?conquista histórica do povo francês e europeu? desmontado nos últimos anos.
 
Sarkozy e a primeira ministra alemã aliaram-se em torno do ideário neoliberal e comprometeram seus governos com a defesa da austeridade para combater a crise econômica, lançando mão de políticas fiscais e monetárias que agravaram ainda mais a situação, ao gerar insuficiência de consumo, sem o qual a produção entra em colapso.
 
O pacto fiscal europeu defendido com unhas e dentes pela dupla Merkel-Sarcozy, submisso a uma ortodoxa política econômica de corte de investimentos e gastos sociais, produziu um onda de desemprego e recessão que os franceses se mostram dispostos a reverter. O aumento dos impostos e das contribuições previdenciárias e a redução dos benefícios completam o penoso retrocesso desta opção.  Vale ressaltar que os mesmos efeitos são sentidos pelas demais economias europeias.
 
A vitória de Hollande abre caminho para a mudança, e certamente ele irá buscar a renegociação desse pacto, pois já manifestou que só o ratificaria se as severas restrições orçamentárias fossem complementadas por mecanismos que possibilitem também a retomada do crescimento. A Alemanha está intransigente neste ponto e mantém-se firme na sua política disciplinadora, afirmando que rejeitará medidas que, para ampliar o crescimento, elevem a dívida dos países europeus. Ou seja, prefere pagar o preço dos altos níveis de desemprego.
 
O tamanho da vitória do socialismo na França ?cerca de 18% de abstenção, o maior comparecimento às urnas desde as eleições de 2007? traz a esperança de que sejam interrompidas essas políticas recessivas e abertos espaços para a implantação de políticas de desenvolvimento. Em conjunto com as políticas de ajustes, um receituário voltado ao crescimento pode constituir-se em um caminho alternativo. É preciso enxergar que, ao cortar gastos, os governos europeus estão estancando as atividades produtivas que são a solução, e não a razão da crise, como querem fazer crer os defensores dos ?planos de austeridade?.
 
O embate está só começando e será necessário muito pulso firme ao presidente Hollande para atender ao clamor dos franceses e, a exemplo do que vem sendo feito pelos governos democráticos da América do Sul, empreender uma política que reintroduza as preocupações sociais na pauta do futuro da União Europeia.
 
A insatisfação é generalizada no continente, haja vista os avanços dos partidos de esquerda nas eleições parlamentares na Grécia e dos pequenos partidos nas regionais na Itália. Na Espanha e em Portugal, o repúdio aos governos recém eleitos e à adoção de medidas que endividam ainda mais os países também se faz sentir. A própria Merkel foi derrotada nas recentes eleições regionais alemãs, e isso sinaliza que, em alguns meses, é bem possível que a Alemanha tenha um novo governo.
 
A saída, portanto, está em o novo governo francês projetar-se no cenário europeu com a adoção de políticas diversas das que têm sido implantadas até agora. A grande questão é: haverá espaço para trilhar esse caminho sem se chocar com os objetivos da Alemanha? A depender do recado dos franceses nas urnas, esta é a única solução.
 
José Dirceu, 66, é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT

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