Ressaca

Não faz bem à autoestima de nossa gente a sequência de fatos e omissões que envelhecem precocemente o governo

Os tamborins silenciaram, os passistas descansam, as musas aguardam o próximo carnaval. O país, aos poucos, volta à realidade.

É a reforma ministerial que não sai de verdade, o enxugamento do número de Ministérios prometido e não realizado, a prática nefasta de a Presidente Dilma “demitir” auxiliares flagrados em desvios de dinheiro público, substituindo-os por figuras do mesmo partido. É o governo que não começa, não age – a não ser na imaginação de marqueteiros – não se impõe aos segmentos fisiológicos que o chantageiam em troca de falso e conveniente apoio.

É o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, às voltas com explicações, que não deseja dar, sobre as nebulosas nomeação e demissão do Presidente da Casa da Moeda, que teria recebido fortuna de fornecedores desse órgão em contas de paraíso fiscal. É o Ministro da Integração, que tem sido mantido, sem autoridade e sem legitimidade, num cargo que pertence ao governador de Pernambuco e não a Dilma e, muito menos, ao povo brasileiro. É o Ministro Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, “consultor” que não prestou consultorias, preservado em seu posto, à base de respiração artificial, simplesmente por ser velho amigo e companheiro de luta armada da mandatária. É a nova Ministra das Mulheres, Eleonora Menicucci (não lembro o nome da antecessora), que gera crises a cada vez que abre a boca.

São as obras que não andam, andam (pouco) superfaturadas ou falsamente andam, como a transposição do rio São Francisco. São as contradições que levaram à grave crise das polícias militares, notadamente na Bahia do governador Jacques Wagner que, quando deputado, era especialista em fomentar greves de policiais armados, para expor e desgastar adversários. Contradições que nasceram do compromisso de campanha com a aprovação da PEC 300, que equipara os salários àqueles pagos pelo Distrito Federal, mesmo sabendo que, se eleita, terminaria por se desdizer. Contradições que exibiram a mistura de incoerência com falta de autoridade, presenciada pelos brasileiros.

É o crescimento econômico pífio (2,79% em 2011), desmentindo o panglossianismo do Ministro Mantega, que falava em 4,5%. É o desenho medíocre para 2012 (Mantega fala, de novo, em 4,5%), que o Banco Central estima em 3,5% e o mercado em 3%, se nada de catastrófico acontecer na Europa, se a economia dos EUA se mantiver em recuperação e se a China continuar comprando avidamente nossas commodities. É o silêncio oficial sobre 2013 e a irresponsabilidade com que a Fazenda “calcula” 6% para 2014.

É a inflação renitente, o tempo todo acima do (elevadíssimo) centro da meta estabelecida pelo Banco Central (4,5%), com tolerância de 2% para cima ou para baixo (!!!). Inflação que, ano passado, ficou em intoleráveis 6,5%, contra crescimento de apenas 2,79%, pura e simplesmente porque o governo a maquiou. Inflação que já nasce maquiada para o corrente ano. Que é o grande desafio do governo, apresentando IPCAs elevados neste começo de exercício.

É a preocupação eleitoreira doentia, que obriga a Presidente a devolver os Ministérios dos Transportes e do Trabalho, respectivamente, para PR e PDT, sem critério técnico, mas porque Fernando Haddad, que desmoralizou o ENEM, é candidato a prefeito de São Paulo e “precisa” do tempo de rádio e televisão desses partidos. É uma espécie de ressaca cívica, que desanima e desilude, agora que a bela festa popular não mais nos pode distrair a atenção.

Não faz bem à autoestima de nossa gente a sequência de fatos e omissões que envelhecem precocemente o governo.

Arthur Virgílio é diplomata e foi líder do PSDB no Senado

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