"Se Deus me pôs aqui, é porque eu devo poder fazer algo diferente"

Em sua primeira entrevista, revista Marie Claire, a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, revela sua alma

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247 – A ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, concedeu sua primeira entrevista exclusiva à revista Marie Claire, da editora Globo. Leia trechos:

O que foi fundamental em sua trajetória para transformá-la em chefe da Casa Civil?

Gleisi Hoffmann – Duas características foram essenciais na minha vida: determinação e disciplina. Meus pais me deram isso. Eles sempre foram rígidos na educação e nos impuseram humildade. Minha mãe criou a mim e a meus três irmãos (Bertoldo, Juliano e Francis) praticamente sozinha. Meu pai era comerciante e viajava muito. Não tínhamos empregada e éramos uma família de classe média baixa. Para que a casa ficasse em ordem, todo mundo ajudava.

Quais são as virtudes femininas em cargo de comando?

Gleisi – Acho bárbaro quando os homens dizem que nós nos preocupamos muito com os detalhes. Essa é uma avaliação crítica recorrente, inclusive que alguns fazem à própria presidente. Dizem que a gente fica muito preocupada com detalhe e que temos de pensar no macro. Só que o diabo mora nos detalhes. Então se dedicar para que a coisa dê certo desde o início até o final, cuidando, acompanhando, é uma característica das mulheres. Eu não tenho dúvida que isso vai fazer uma diferença importantíssima na vida pública do país.

Como a cúpula feminina do governo pode ajudar a sanar problemas de gênero como a violência doméstica, a desigualdade salarial, a falta de políticas públicas para a saúde da mulher

Gleisi – Com estímulo a políticas públicas e interlocução com a iniciativa privada. As conquistas nesse campo farão parte de um processo que já está acontecendo. Podemos acelerá-lo e é o que pretendemos.

A presidente Dilma disse ironicamente que está cercada de "homens meigos". Como a senhora lida com esses homens?

Gleisi – Ela fez uma brincadeira por acusarem-na de ser dura e firme. Aliás, esses atributos são considerados normais em um homem. Por que as mulheres têm de ser frágeis e meigas no comando? Liderança exige determinação e firmeza, independentemente do sexo.

Com sua nomeação, as atribuições da Casa Civil diminuíram. Sente-se desprestigiada em relação aos antecessores?

Gleisi – Não vejo dessa maneira. Nenhuma concentração é boa. Desde o governo do presidente Lula, havia a Secretaria de Relações Institucionais, responsável pela articulação política. A Casa Civil é articuladora e facilitadora das ações de governo. Trabalhar em equipe é sempre mais seguro e eficaz. Não me atrai a atitude heroica.

Como recebeu o convite para a Casa Civil?

Gleisi – Quando a presidenta me convidou para ser ministra-chefe da Casa Civil, eu gelei. Foi um susto. Tive dúvidas se deveria aceitar. Pensei: "Meu Deus, é muita responsabilidade". Ela me chamou um dia antes da posse, e eu fiquei muito preocupada. Fiquei quatro anos na política, longe da gestão. Por isso falei para o Paulo (Paulo Bernardo, seu marido e ministro das Comunicações): "Acho que não devo aceitar. Não me sinto em condições". E ele disse: "Reflita bem". Naquela noite, eu chorei. Chorei mesmo. Daí eu fui conversar com a presidenta. Sentei na frente dela decidida a falar que eu achava melhor não assumir, porque não me sentia preparada para desafios tão grandes. Mas ela foi falando, falando, falando e no final eu disse: "Tá bem, presidenta" (faz voz de menina e solta uma gargalhada). Pensei: "Se Deus me pôs aqui é porque eu devo poder fazer algo diferente para ajudar o Brasil. Não é fortuito".

E o Paulo Bernardo, como recebeu essa notícia? Isso não mexe com os brios dele?

Gleisi – Para ele, foi um susto também. Não acredito que o tenha afetado. Mas ele tem reclamado que eu trabalho demais. Saio de casa antes dele e chego depois. Mas ele vai ter de ter paciência e cuidar um pouco mais das crianças. Ele sempre foi a pessoa pública, e agora sou eu que estou mais em evidência. No dia da minha posse, o telefone de casa tocou às 6 horas da manhã. Ele atendeu, ainda sonolento. Era uma jornalista de uma rádio perguntando: "Alô, é o assessor da Gleisi?". Ele costuma ser mal-humorado de manhã, mas foi espirituoso: "Claro que não. É o marido dela. O assessor de imprensa não dorme aqui em casa!".

A senhora perdeu eleições para o Senado, em 2006, e para a prefeitura de Curitiba, em 2008. Como encarou as derrotas?

Gleisi – De forma pedagógica. Derrotas ensinam muito. E nem sempre uma derrota eleitoral é uma derrota política. Minha avó dizia que aquilo que não nos mata fortalece. Num mundo público majoritariamente masculino, é o máximo ser mulher e dizer: "Me preparei, posso discutir, conversar, encaminhar, participar das lutas". Para mim, é mais que um orgulho pessoal, é mostrar que as mulheres podem fazer a diferença do seu jeito. Para equilibrar o mundo, a enorme parcela feminina da população precisa estar nos processos decisórios. Não é possível uma democracia em que mais da metade da população não participe.

Até mesmo mulheres fortes têm seus momentos de fragilidade. Quais foram os seus? Não pensou em desistir da política quando perdeu as eleições?

Gleisi – Nunca! Perder e sofrer são lados da mesma moeda da vida. O que vale é a dimensão e importância que você dá a eles. Foram duas situações. Na do Senado, houve uma derrota eleitoral, mas uma vitória política. Eu saí muito de baixo, ninguém acreditava que eu iria ganhar. Foi no final da campanha que a gente avaliou que tinha chance, e aí já não tinha tempo. Mas saí fortalecida. A campanha pela prefeitura de Curitiba foi muito difícil, dura, pesada, de desconstrução da imagem. Ia para alguns bairros, e os adversários diziam que eu não era de Curitiba, não era casada, não tinha filhos, afirmavam que eu era uma mentira. Eu chegava em casa me perguntando onde havia me metido. E, no final, a vitória deles foi acachapante. O que me deixou triste, mas não a ponto de jogar a toalha.

A vitória, no ano passado, na disputa pelo Senado teve um gosto especial?

Gleisi – Comemorei de forma muito tranquila. Sabia, e sei, que não é uma vitória individual. É uma conquista coletiva de todos que acreditaram na caminhada. Mais que uma vitória, encaro como uma missão. Ter a função de senadora é ter a função de servir. É uma grande responsabilidade com o povo do meu Estado.

A senhora era chamada de "Pit-bull do Senado", por defender com veemência o governo. Outra alcunha da senhora é a "Barbie da Dilma". Os apelidos a incomodam?

Gleisi – Nunca mordi ninguém. Defendia o governo porque acredito nele. E se me chamam de Barbie é porque me acham bonitinha e vazia como uma boneca, não ligo. Não me acho bonita e cuido de minha aparência como a maioria das mulheres. Ser como a Barbie, embora longe da realidade, me envaidece.

Chorou por causa desse bullying político?

Gleisi – Já chorei muito na vida. Já cheguei em casa, me tranquei no quarto e chorei, chorei, chorei. Os apelidos não me afetam muito. Mas, quando um projeto não dá certo, falha, eu me frustro muito. Sou muito perfeccionista e não gosto das críticas que não são construtivas.

Assim que assumiu a Casa Civil, a senhora disse que faria de tudo para levar seus filhos à escola. Tem cumprido isso?

Gleisi – Fui salva pelas férias! As crianças passaram o mês de julho em Curitiba, na casa da minha mãe. Só voltaram agora. Mas a verdade é que não vou poder levá-las mais à escola. Tenho vindo para cá todos os dias às 8 horas, horário em que elas entram. Talvez eu vá no primeiro dia, mas mais que isso não vou conseguir.

Sente culpa?

Gleisi – Agora menos, mas já tive muita, de chorar. Quando era diretora da Itaipu, ia para Foz de Iguaçu dois dias da semana, e o João ficava com a minha mãe. Saía de casa, de carro, e o via no portão, dando tchau. Eu já começava a chorar ali. Ele era tão pequenininho. No hotel, eu só pensava: "O que eu estou fazendo? Devia estar com meu filho", e chorava, chorava. A caçula, que é adotiva, também sofreu muito lá atrás. O processo de adoção já corria há dois anos e meio, e eu estava em plena campanha para o Senado de 2006 quando me ligaram do Juizado dizendo: "Sua filha está aqui". Eu não podia tirar licença-maternidade, estava no meio de uma campanha. Fiquei desesperada. Mas minha família se mobilizou, e a Gabi se apegou muito a minha mãe. Quando terminou a campanha, tive de fazer uma aproximação para que ela sentisse que eu era a mãe. Ainda hoje ela se ressente muito da minha ausência.

Com quantos meses ela chegou?

Gleisi – Cinco. Aliás, o juiz poderia ter liberado a adoção antes, e não o fez. Fiquei muito chateada com isso. Nem tinha a pretensão de ter um recém-nascido. Poderia ser de 2 ou 3 anos. E a Gabi já estava liberada para adoção desde que nasceu, porque a mãe dela já tinha assinado os papéis. E ainda assim ficou cinco meses no abrigo! (Indignada.) Por quê? Porque, infelizmente, o sistema de adoção no Brasil é muito ruim. Os juízes têm medo de entregar os meninos às famílias e, por cautela, eles têm a infância roubada. Para uma criança, cada mês passado num abrigo é uma eternidade.

Por que adotou? Não podia ter mais filhos?

Gleisi – Podia. O João Augusto queria uma irmãzinha, e eu achava que tinha tanto amor por criança que era demais para dar apenas a ele. Precisava repartir um pouco (risos). Sentia vontade de ter outro bebê, mas não queria passar por toda a gestação de novo. Aquele barrigão, aquele desgaste. É uma delícia, mas basta o primeiro filho. Não consigo entender até hoje a minha avó. Ela teve 15! Todo ano aquela mulher ficava grávida. Não dá, gente...

A senhora e o ministro Paulo Bernardo arrumam tempo para namorar?

Gleisi – É difícil. Quando dá, vamos ao cinema, tomamos um vinho. Ultimamente temos lido muito jornais juntos.

Como começou o namoro? O que mais a encantou nele?

Gleisi – Em Brasília, quando fui trabalhar na Câmara dos Deputados. A dedicação do Paulo ao trabalho e a seriedade com que tratava os assuntos da política. Gostávamos também das mesmas coisas, das mesmas matérias, como orçamento. Além de tudo, ele é um galanteador, que tem muita sensibilidade com o mundo feminino. Isso também me preocupa...

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