Se Palocci ganha, Dilma perde

Presidente pode ser carimbada como complacente com o mal feito, ao contrário do que prometeu



O nome do ex-ministro chefe da Casa Civil Henrique Hargreaves está em alta em Brasília. Menos por seu trabalho no gabinete do presidente Itamar Franco - de resto um governo ainda incompreendido em relação aos avanços que promoveu no País – e sim pela atitude tomada diante de uma acusação que o envolvia pessoalmente. Como frisou a senadora Ana Amélia Lemos, do PP do Rio Grande do Sul, Hargreaves se afastou do mesmo cargo que Palocci ocupa hoje para provar sua inocência diante de acusações de irregularidades no exercício do cargo. Conterrâneo de Itamar, de quem é amigo pessoal, Hargreaves tornou-se chefe Gabinete Civil em 5 de outubro de 1992 e ficou lá até 1º de novembro de 1993 quando, em combinação explícita com o então presidente, saiu para se defender das acusações. Ficou um ano, como se diz, na chuva, mas voltou de alma lavada, em 8 de fevereiro de 1994, permanecendo até a posse do sucessor que Itamar elegeu, FHC, em 1º de janeiro de 1995.

Pela atitude, Hargreaves contribuiu para carimbar no governo Itamar a imagem pública de gestão austera e dura com os servidores públicos de ação, digamos, mais heterodoxa. Tanto colou, que, levado pelo braço por Aécio Neves, Itamar, de terno branco, elegeu-se senador por Minas no ano passado. Entre os políticos que estão aí, ele é o que menos se pode atacar nos quesitos “rouba mas faz”, “não rouba mas deixa roubar”, “finge que não vê ou não lembra” e outros. Itamar tem moral para falar mais alto quando o assunto é o combate aos malfeitos na administração pública.

Jogando com a força do rolo compressor governista no Congresso, articulado com os governadores do PT e escudado diante da mídia pela ação de assessores e lobistas do naipe da recém contratada FSB, o atual titular Antônio Palocci tem tudo para ficar no cargo. Mas vai manter o mesmo moral perante o País? E a presidente Dilma, quanto irá pagar, politicamente, por aceitar a vontade de Palocci de aferrar-se ao cargo?

Na condição de presidente eleita, em dezembro, Dilma disse em entrevista à tevê Bandeirantes que não seria, de modo algum, complacente com o mal feito. Em setembro, também do Gabinete Civil, sua amiga Erenice Guerra ‘levou um pé’ do presidente Lula em razão de acusações sobre uma enorme ação familiar envolvendo verbas públicas. Ali, porque corria o risco de perder a eleição, Lula pouco hesitou antes de promover a exoneração. Uma vez realizada, a campanha dilmista voltou aos eixos e ela venceu.

No fundo, Palocci fica porque não há eleições por perto. Mas na mesma medida em que ele pode cantar vitória neste curto prazo, Dilma não tem nada para comemorar. Agora e por longo prazo, quem será vista com o carimbo de complacente vai ser ela própria. O que no Japão poderia terminar em suicídio e nos Estados Unidos em cadeia, aqui no Brasil já resulta em desgaste para uma presidente que vacilou à primeira chance de fazer o que prometera diante de casos mal explicados como este da multiplicação por 20 no patrimônio de um dos seus.

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