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Só se salva um ou outro

Na política há poucos que se salvam do Aulete, o resto é tudo filho da puta

Diz o Caudas Aulete, um dicionário que tenho em muita estima, que 'filho da puta' é também um elogio. Tomo a prática por costume por uns instantes só pra chegar à conclusão que meus principais amigos são grandíssimos filhos da puta.

Minha própria namorada, à moda quixotesca "senhora do meu bem querer", é outra filha da puta. O professor amigo, de conversas jornalísticas e discussões políticas, é o próprio filho da puta, personificação da expressão. O Brasil é um celeiro, e deitados eternamente em berço esplêndido a gente não percebe, mas eles andam aos montes por aí, soltos e desavergonhados. As putas, há bem que se diga, são injustiçadas, custam bem menos que um deputado e tem muito mais vergonha que eles.

O brasileiro é tido como malandro, de conversa frouxa e samba no pé. Walt Disney, nos anos 40, nos desenhou como Zé Cariocas. Desempregados, festeiros, vagabundos e preguiçosos. E a gente concorda, agradece, e até se sente lisonjeado pelo presente. Filhos da puta que somos!

"...'filho da puta também é um elogio'..."

A gente costuma sorrir pra tudo, achar graça de qualquer situação. Criou-se até um ditado popular: é rir para não chorar. Pois "eu tenho vontade de chorar, raiva de não poder, quero gritar até ficar rouco, quero gritar até ficar louco" pra ver se esse povo filho da puta muda de opinião.

Na política há poucos que se salvam do Aulete, o resto também é tudo filho da puta. Esses dias vi um candidato à prefeitura de São Paulo, de muitos amigos e companheiros, dizer em rede nacional que dava aula de ética, e como no caso do Zé Carioca, talvez travestidos de falsos malandros e usando bengala, a gente sorri e agradece, bovinamente.

Lá atrás, na época em que o Brasil vivia numa ditadura filha da puta, as pessoas falavam mais. O cassetete comia solto em quem saía da linha, e aí parece que o povo se sentia desafiado. O mundo é movido por perguntas, não é? Então disseram pro povo: "Você não pode falar", "Não posso? Porque não posso?", e aí a coisa ficou preta. Quem comanda o país percebeu que é mais fácil dizer: "Você quer falar? Toma o microfone", a resposta vai ser sempre a mesma: "Falar, eu? Quero não, doutor".

"...quero gritar até ficar rouco, quero gritar até ficar louco!..."

A gente precisa largar essa estigma filha da puta.

"Verás que o filho teu não foge à luta", Brasil, "nem teme, quem te adora, a própria morte", e assim vamos. Porque metade da população não sabe o que quer dizer "flâmula", e saber pra quê? Há bolsas na sexta economia do mundo, não flâmulas. Bolsa saúde, bolsa esporte, bolsa alimentação... Só não há mais bolsas que dinheiro, porque agora que não cabem mais nas bolsas, eles levam o dinheiro até nas cuecas; e as putas que levam a fama.