Após “fico” de Mandetta, parlamentares destacam isolamento de Bolsonaro

“Demissão do ministro, a essa altura, é uma decisão criminosa”, definiu o vice-líder do PCdoB, deputado federal Márcio Jerry (MA). “O episódio de hoje é o sinal mais evidente que ele, Bolsonaro, não manda em nada", disse José Guimarães (PT-CE)

Jair Bolsonaro e Luisz Henrique Mandetta
Jair Bolsonaro e Luisz Henrique Mandetta (Foto: PR)
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Por Nathalia Bignon, para o 247 - Após um dia de muitas especulações sobre sua saída, Luiz Henrique Mandetta afirmou, em uma coletiva de imprensa na noite desta segunda-feira (6), que seguirá como ministro da Saúde, apesar das dificuldades. Em meio a uma queda de braços entre Jair Bolsonaro e o ministro, provocada pelas discordâncias em relações às medidas propostas para conter a expansão do coronavírus no país, a saída de Mandetta chegou a ser anunciada como fato e repercutiu entre parlamentares.

“Bolsovírus (Jair Bolsonaro) ainda não teve coragem para dar um tapa no Brasil demitindo o ministro da Saúde. Tremeu hoje, mas não desistiu de sua psicopatia genocida. Mandetta está seguindo roteiro técnico e científico. E isso exaspera o fantasma presidencial Bolsonaro. Demissão do ministro, a essa altura, é uma decisão criminosa”, definiu o vice-líder do PCdoB, deputado federal Márcio Jerry (MA).

Representantes do PSOL, os deputados Marcelo Freixo e David Miranda, ambos do Rio de Janeiro, demonstraram suas contrariedades ao ministro, mas defenderam sua permanência no cargo. “Tenho muitas diferenças políticas com o Mandetta. Muitas. Mas nenhuma delas é maior do que o meu compromisso com a vida dos brasileiros. É isso que está em jogo”, disse Freixo.

“Mandetta está longe de ser um ministro dos sonhos, representa o lobby da saúde privada no interior do governo Bolsonaro. Mas, diante da crise da Covid-19, fala como médico, nunca endossou o discurso negacionista de Bolsonaro e orienta as ações com base nas recomendações da OMS”, endossou Miranda.

Líder da minoria, deputado José Guimarães (PT-CE) destacou a falta de postura de Jair Bolsonaro diante da crise que se agrava. “O episódio de hoje envolvendo Bolsonaro e seu ministro da saúde é o sinal mais evidente que ele, Bolsonaro, não manda em nada. Não que eu seja favorável à saída do ministro Mandetta, mas o que é grave é ver nosso país à deriva, governado por gente q não tem predicados para essa função”, ressaltou.

A falta de força política e o isolamento de Bolsonaro também foi mencionada pelo deputado Bohn Gass (PT-RS). “Quem anunciou que Mandetta permanece no Ministério da Saúde foi o vice-presidente, general Mourão. Reforça-se, assim, a percepção de que Bolsonaro está isolado, escanteado no próprio governo. Parece óbvio que ele quer, mas já não tem poder para demitir o ministro da Saúde”.

A despeito das diferenças políticas, Camilo Capiberibe (PSB-AP) reiterou apoio a Mandetta. “Divergências ideológicas à parte, Mandetta se conduz pelo conhecimento científico, experiência acumulada de outros países e de organismos internacionais de saúde. Enfrenta o obscurantismo da ala do governo que se move por egos, disputa política, brigas, fuxicos e mentiras, contra a ciência, a imprensa e outras nações”, declarou.

Senado

No Senado, Humberto Costa (PT-PE) chegou a dizer que a tentativa de despedir o ministro era mais uma prova da necessidade do impeachment do presidente. “Bolsonaro deu hoje a grande deixa para o seu afastamento. Estamos diante da maior pandemia da história, o número de mortos ultrapassa os 68 mil no mundo. E o presidente sai do isolamento, para dar indiretas e ameaçar o ministro da saúde. Não dá mais. Bolsonaro é um risco a vida”,concluiu.

Já Fabiano Contarato (Rede-ES) elogiou o trabalho do chefe da saúde e defendeu a saída de Bolsonaro. “O Brasil precisa demitir de vez é a família Bolsonaro, que expõe inescrupulosamente a saúde do próprio povo para socorrer os interesses políticos e econômicos dos poderosos! Parabéns pelo trabalho, Ministro Mandetta!”.

Ex-presidente da Casa, Renan Calheiros (MDB-AL) pediu que a população mantivesse a atenção sobre as recomendações de especialistas. “Mesmo com a explosão de casos, o número de mortes, o presidente prega o genocídio e a convulsão social. Ofensa a governadores é da índole dele, mas desprezar os cadáveres empilhados pelo mundo é sandice. Até quando, Catilina? Entre o médico e o monstro, fiquem com os médicos”.

Coletiva

Durante a entrevista, na noite desta segunda, Mandetta reafirmou sua permanência, declarando que “médicos não abandonam pacientes”. “Procuramos ser a voz da Ciência. Abrimos o Ministério da Saúde para todos os outros Ministérios. Críticas são sempre bem-vindas, mas não estas, no sentido de dificultar o trabalho. O nome do nosso inimigo é Covid-19. Nós vamos continuar”, declarou. Sem citar nome de Bolsonaro, o ministro afirmou que a reunião com o presidente e os demais integrantes do Governo foi produtiva e que espera “ter paz para trabalhar”.

Boicotes

As desavenças entre os dois começaram logo após Mandetta acatar e defender, publicamente, as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) de isolamento social como medida para controlar a pandemia.

Favorável ao isolamento apenas dos grupos de risco e da retorno à normalidade, a fim de não agravar o rombo na economia do país, Bolsonaro encenou uma série de boicotes às falas do ministro nas últimas semanas.

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