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CPI da Americanas: Deputados falam em “pizza” e presidente da Comissão diz que não admite extorsão ou chantagem

Parlamentares se reunirão na quarta-feira para pedir ao presidente Gustinho Ribeiro a prorrogação do prazo da CPI

Fachada de uma loja Americanas (Foto: REUTERS)

Por Filipe Calmon, especial para o 247 - Marcelo Nunes, ex-diretor financeiro da Americanas S/A, foi mais um que surgiu para depor na Comissão Parlamentar de Inquérito que apura desvios de mais de R$ 20 bilhões na varejista munido de habeas corpus permitindo que ficasse calado. Assim,  não ofereceu respostas relevantes. Exceto uma: confirmou não ter sido demitido por justa causa, acentuado a desconfiança de que seja um dos que negociaram delação premiada. 

Anna Saicali teve depoimento remarcado - A outra depoente convocada, Anna Christina Ramos Saicali, ex-diretora de relações com investidores, que estaria presente, juntamente com o ex-CEO Sergio Rial, na reunião que revelou as então chamadas inconsistências bancárias, teve seu depoimento adiado para 5 de setembro. "Ela acompanha o tratamento de transplante de medula, algo assim, de uma parente muito próxima. Acho que uma irmã. E nos garantiu que no próximo dia 5 do 9 ela estará aqui, mediante um acordo com esta presidência para que a gente não determine a condução coercitiva, por não atender a convocação desta CPI. Então nós demos esse prazo por se tratar de um tratamento de saúde muito delicado", explicou o presidente da CPI, deputado Gustinho Ribeiro (Republicanos-SE).

Chantagem ou extorsão? - Um dos diálogos mais estranhos e contundentes do dia foi travado entre o deputado Vicentinho Júnior (PP-TO) e o presidente da CPI. Indignado com a falta de respostas do ex-diretor Marcelo Nunes, Vicentinho discursou: "Eu quero crer que a comissão não vai terminar sem - porque está uma bolsa de aposta aqui atrás - trazer os diretores da Americanas, um grande do mercado financeiro, que tem seus argumentos e subterfúgios que eu quero crer que essa Casa não se vergará a eles. (...) Então, senhor presidente, é necessário, mais do que nunca, trazer um tubarão para fazermos essas acareações".

Em seguida à fala do deputado tocantinense, o presidente da CPI, deputado Gustinho, pediu a palavra e, visivelmente incomodado, retrucou. "Tenho certeza que o deputado Vicente não se dirigiu a mim quando questionou a minha coragem. Porque a minha coragem vai muito mais além do que vossa excelência deve imaginar. O que a presidência desta CPI não vai admitir é qualquer tipo de chantagem ou até mesmo de extorsão".

Pizza no forno” - Desde a última semana, após depoimento de Sergio Rial citando nominalmente Alberto Sicupira, um dos bilionários acionistas de referência da Americanas, que os deputados fecharam o cerco ao presidente Gustinho Ribeiro pedindo a votação de requerimento que convoca novos depoentes. Nesta terça-feira, o tom subiu mais uma vez. "Para se votar um requerimento desses é preciso ter um motivo claro. Não vou transformar essa CPI num espetáculo de pirotecnia. E não há maioria para isso", afirmou o presidente Gustinho após ser questionado pelo 247. No entanto, segundo ele mesmo explicou, para que o requerimento seja pautado basta a convicção do presidente da CPI. "Se não há maioria, que seja colocado em votação", provocou o deputado Tarcísio Motta (PSOL-RJ). "Queremos nominalmente os que são contra".

Impaciência com habeas-corpus - "O senhor é natural do Rio de Janeiro?", perguntou o deputado federal Fausto Júnior (União-AM). "O senhor é moreno?", ironizou Vicentinho Júnior (PP-TO).

A ausência de respostas do ex-diretor Marcelo Nunes testou a paciência dos deputados. Em resposta ao deputado Tarcísio Motta, reconheceu não ter sido demitido por justa causa da Americanas, mas se negou a confirmar a data de saída da empresa na qual atuou por 18 anos.

As demais respostas que ofereceu aos parlamentares foram constrangedoras. Já impacientes com as condutas silenciosas dos ex-executivos, parlamentares apelaram para perguntas triviais, como as lidas acima, a fim de receber respostas diferentes de textos prontos, agradecendo pela pergunta e informando que permaneceria em silêncio por orientação dos advogados.

Reunião secreta - Os parlamentares se reunirão nesta quarta-feira (30), no início da tarde, para reunião interna. Nela, novamente será tentando convencer o presidente Gustinho Ribeiro a prorrogar o prazo da CPI e a votar requerimentos convocando os acionistas majoritários.

"Vão prorrogar somente por mais 15 dias para votar o relatório. Vai dar tempo de inovar nos sabores das pizzas", resignou-se um deputado à saída da CPI.