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Diretor da PF diz que inteligência viu risco dias antes do 8 de janeiro, mas acionou DF só na véspera

Os relatos estão em depoimento de Andrei Rodrigues no procedimento da PF que apura a atuação de Anderson Torres no episódio

Andrei Passos Rodrigues (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

247 - O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, recebeu as primeiras informações de que os atos golpistas marcados para 8 de janeiro representavam risco de violência logo após ser empossado no cargo, em 2 de janeiro. Somente na véspera das manifestações terroristas Rodrigues informou à Secretaria de Segurança do Distrito Federal que a área de inteligência da corporação havia identificado a hipótese de quebradeira em prédios públicos. Pelo menos 1.390 pessoas foram denunciadas por envolvimento nos protestos - três já foram condenadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Outros bolsonaristas vão ser julgadas. 

O dirigente assumiu a PF neste ano (2023) e está colaborando com investigadores para ajudar na apurações sobre a maneira como políticos do governo anterior, de Jiar Bolsonaro, tinham algum envolvimento nos atos. De acordo com informações publicadas nesta segunda-feira (25) pelo jornal Folha de S.Paulo, os relatos estão em depoimento de Rodrigues no procedimento administrativo disciplinar em curso na PF que apura a atuação de Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro (PL), no episódio. O dirigente afirmou ter recebido informações, entre os dias 2 e 5 de janeiro, sobre o perigo que as manifestações marcadas para 8 daquele mês representavam. "Tomei conhecimento por fontes abertas, acho que era recorrente em redes sociais todo o movimento que havia naquele período, e também por diálogos e despachos diários com a área de inteligência interna nossa", disse. >>> Lula não ficará pressionado por fim de mandato de Aras para indicar PGR, diz Padilha

O diretor-geral afirmou que pediu a reunião do dia 7 de janeiro com a Secretaria de Segurança para "entender o que estava sendo planejado e organizado e levar a preocupação em razão de todos os fatos que notadamente iriam acontecer e aconteceram". "Eu tomei conhecimento, reitero aqui, por parte da nossa inteligência, onde por mais de uma oportunidade foi alertado, [que] o movimento era notadamente com esse viés de violência, de ‘vamos tomar o poder’ —acho que era expressão muito usada naquele período—, onde nas redes sociais era notório e se poderia facilmente identificar que havia sim movimento violento sendo planejado para o dia 8 como aconteceu", disse.

O diretor da PF afirmou não ter apresentado um relatório mais detalhado à secretaria de segurança no dia da reunião, mas que recebia "despachos diários com a área de inteligência desde o primeiro momento". Segundo ele, a questão do dia 8 de janeiro foi tratada "nos despachos diários verbais". "Eu não recebi documento escrito formal em relação a isso. Não apresentei nenhum documento. Estava acompanhado do que hoje é o diretor de inteligência substituto, doutor [Thiago] Severo, mas não entreguei nenhum documento naquela reunião, apenas verbalizei aquilo que a inteligência havia me comentado e que era notório, fontes abertas, do que estaria por vir", afirmou. >>> Fujão: Heleno pede ao STF para não depor à CPMI dos Atos Golpistas

Durante o seu governo, Bolsonaro tentou passar para a população a mensagem de que o Judiciário atrapalhava a gestão dele. O ex-ocupante do Planalto também defendeu a participação das Forças Armadas na apuração do resultado da eleição presidencial. Em junho, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deixou Bolsonaro inelegível por oito anos por ataques sem provas ao sistema eleitoral brasileiro durante uma reunião com embaixadores em Brasília (DF). Em novembro do ano passado, o TSE multou o PL em R$ 22,9 milhões após o partido questionar a confiança das urnas eletrônicas.

Também neste ano (2023), investigadores encontraram no celular do tenente-coronel Mauro Cid uma minuta para um golpe de Estado no País com a decretação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) encontrada no celular do tenente-coronel Mauro Cid e que previa estado de sítio "dentro das quatro linhas" da Constituição. O militar foi ajudante de ordens de Bolsonaro, que usava o termo em declarações públicas.