Fala sério, João Dias!

O que levaria um corrupto a devolver sua propina? Uma oferta maior?



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Que cena fantástica! Nem Glauber, nem Fellini, nem Costa Gravas seriam capazes de imaginá-la. E só Brasília, povoada por figuras cada vez mais estranhas, poderia produzi-la. Aconteceu na quarta-feira 7. Um ex-policial, mestre na arte marcial do kung fu, invade um palácio com uma mala cheia de dinheiro. Sem ser contido pelos seguranças, adentra a sala de um secretário de governo e despeja R$ 159 mil sobre a mesa. Era João Dias, o delator dos esquemas de corrupção no Ministério do Esporte, que derrubou Orlando Silva, invadindo o Palácio do Buriti, sede do governo do Distrito Federal. Pela primeira vez na história, uma propina – recebida, diga-se de passagem – era devolvida de forma tão espalhafatosa. Segundo o ex-PM, porque ela teria sido esquecida na sua casa, sem o seu consentimento.

Mas, espera um pouco. Quem é mesmo esse tal de João Dias, o protagonista do circo montado em Brasília? Um “ongueiro” que desviou milhões do Ministério do Esporte, acumulou patrimônio totalmente incompatível com a sua atividade e já vinha sendo investigado em diversas esferas. Um personagem de reputação duvidosa, mas cuja palavra, no caso Orlando Silva, foi tomada ao pé da letra. Não custa lembrar que o ex-ministro do Esporte caiu porque João Dias o acusava de receber propinas na garagem do Ministério. Mas, quando Orlando lembrou que o acusador não tinha lá muita credibilidade, ninguém deu muita bola. Até porque, quando se é a “bola da vez”, os fins parecem justificar os meios.

Personagens como João Dias são as neocelebridades da política. Capazes de derrubar ministros, governadores e quiçá presidentes, são os heróis de ocasião dos que se colocam na pele de caçadores de corruptos. Suas delações, não importa se verazes ou falsas, valem ouro. Mas João Dias cometeu um erro crasso. Com sua atitude tresloucada, passou do ponto e desmoralizou o processo. Criou uma história tão inverossímil que deixou uma dúvida no ar: o que leva alguém com sua ficha corrida a rejeitar uma mala de dinheiro? Bons princípios, não, uma vez que seriam incompatíveis com a figura. Uma mala maior? Por que não? A dúvida, no caso, é totalmente legítima.

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Derrubar autoridades, no Brasil de hoje, pode ter se transformado num grande negócio. Talvez o mais rentável de todos. João Dias, que já apeou Orlando Silva, agora se volta contra o governador Agnelo Queiroz e até o ex-presidente Lula. Seu antecessor no papel de delator número 1 do Distrito Federal, o também ex-policial Durval Barbosa, já havia derrubado o ex-governador José Roberto Arruda. E também foi levado a sério sem que merecesse muito crédito. Hoje investigado por pedofilia, Durval foi durante anos um dos maiores operadores da corrupção em Brasília e conseguiu convencer a opinião pública de que Joaquim Roriz, mesmo quando governador com poderes absolutos, obedecia às ordens de Arruda, seu adversário. Uma história que só agora, aos poucos, começa a ser revista.

A desmoralização total da política em Brasília interessa aos que prosperaram na era do faroeste caboclo. E talvez sejam eles os criadores de criaturas tão estranhas como João Dias e Durval Barbosa.

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