Muitos shows, pouco futebol

So grandes as probabilidades de o novo estdio de Braslia, depois da Copa, ter mais utilidade como palco de espetculos do que como campo para jogos

Natalia Emerich_Brasília 247 –Quem mora em Brasília e gosta de ver grandes shows está sempre viajando. A cidade oferece poucos locais para realizar eventos maiores, com grande público, e isso piora no período de chuvas. Se o novo estádio – uma das sedes da Copa das Confederações, em 2013, e da Copa do Mundo de 2014 -- for concluído até o fim de 2012, como prometido, os produtores culturais e os brasilienses terão um novo espaço para shows já em 2013. Além de campo de futebol em uma cidade em que os times principais jogam na terceira e na quarta divisões e levam pouca gente a seus jogos, a estrutura multiuso servirá como arena para megaproduções.

De acordo com o projeto, a obra, orçada inicialmente em R$ 671 milhões, terá mais de 800 camarotes para 2,5 mil pessoas; estacionamento subterrâneo para 500 veículos, em média; tratamento acústico – inclusive na cobertura móvel da arena; espaço para montagem de palcos com entrada para guindastes; acesso de ônibus aos camarins; iluminação diferenciada, específica para shows; e pontos estratégicos de evacuação emergencial espalhados pelo gramado.

A data estabelecida pelo governo do Distrito Federal para a entrega do estádio é 31 de dezembro de 2012. Até lá, produtores musicais ficam na expectativa. "É nossa aposta para que o entretenimento em Brasília dê um grande passo", torce o produtor musical João Maione. "Esperamos que o governo pense além do futebol." Estádios, aliás, costumam ser os lugares mais procurados quando artistas de peso fazem turnê pelo Brasil. "Atualmente os campos de futebol não são feitos para receber shows, é tudo feito na base de improviso", explica o gerente de entretenimento da rede XYZLive, Luis Gustavo Affonseca.

Muitos shows, poucos espaços

Embora o número de eventos de grande porte e espetáculos internacionais tenha crescido nos últimos anos, Brasília ainda não tem estruturas adequadas para recebê-los. Quando chove, as áreas, normalmente montadas ao ar livre, deixam o público vulnerável. As poucas opções cobertas têm acústica ruim, instalações ultrapassadas ou não comportam o público.

Em 2011, dois festivais foram comprometidos devido às águas. No dia 15 de outubro, sete das 10 bandas previstas para o primeiro dia do Festival Mundano não se apresentaram. Na tarde do evento, uma chuva forte impediu que os palcos fossem finalizados a tempo. No dia 17 de março, outro cancelamento. O Pop Music Festival, que receberia as atrações internacionais Shakira, Fatboy Slim e Ziggy Marley, também não aconteceu por causa do mal tempo.

O produtor musical Marcelo Piano, responsável pelo Pop Music Festival, explicou que normalmente as chuvas não são motivo para adiamento de shows. "O dia do evento foi atípico, foram três horas de água intensas na capital", argumenta. "Fui preparado para o tempo chuvoso, mas naquele dia as condições extrapolaram o limite de segurança."

De acordo com o Instituto de Meteorologia (Inmet), a segurança dos convidados é comprometida quando o fluxo de líquido acumulado ultrapassa 50 milímetros por hora. "Essa quantidade pode causar prejuízos mais severos, como alagamento e inundações", explica Aitler Prego, técnico de meteorologia. Segundo ele, o índice entre 19h e 24h do dia 17 foi de 33,6 milímetros. Mas as pancadas de chuva, entre 24h do dia 16 e 24h do dia 17, registraram o acúmulo de 53 milímetros.

Quando há shows mais expressivos na cidade, os ingressos custam caro. Neste período de chuvas, o valor é ainda maior. "Com as chuvas, nossas possibilidades se reduzem praticamente a zero", afirma Piano. As únicas opções são o Pavilhão do Parque – se chover, ninguém ouve; o Ginásio Nilson Nelson – infraestrutura antiga e precária; e o Centro de Convenções – é com cadeiras e que comporta só 2.820 mil pessoas.

Os produtores alegam que os problemas com infraestrutura acabam se refletindo no valor pago pelo público. "Na chuva, por exemplo, os custos para revestir toda a estrutura, quando erguida ao ar livre, são enormes", argumenta Maione. "O valor do ingresso tem que ser muito alto para suprir os custos do investimento."

Os problemas de infraestrutura e produção musical, de fato, são repassados para a população, privada de ver grandes espetáculos na capital. No próximo mês, os roqueiros do Pearl Jam estarão em turnê pelo Brasil. Se você gosta da banda, terá que escolher entre Rio de Janeiro, São Paulo ou Porto Alegre. Brasília não tem estrutura adequada que comporte as necessidades da banda. Eles só tocam em estádios e alegaram que o do Gama não tem condições suficientes.

Problema generalizado

Não é só Brasília que sofre com a falta de condições adequadas para realizar eventos de grande porte. Luis Gustavo Affonseca considera que o problema atinge todo o Brasil. "Não temos espaços específicos para shows de grande porte, os lugares são permanentemente adaptados", explica. A empresa realiza shows em parceria com produtoras do país inteiro, inclusive na capital. Para Affonseca, a demanda por shows mais complexos na cidade só aumentou nos últimos dois anos. "Não adianta investir milhões de reais se não há procura."

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