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Vorcaro disse ter combinado ‘estratégia de guerra’ com Ibaneis para vender Master para BRB

Mensagens mostram o banqueiro articulando estratégia para venda do banco Master ao banco público de Brasília; operação acabou barrada pelo Banco Central

Vorcaro disse ter combinado ‘estratégia de guerra’ com Ibaneis para vender Master para BRB (Foto: Agência Brasil | Divulgação )

247 - Mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro indicam que ele afirmou ter discutido uma “estratégia de guerra” com um governador para tentar garantir a aprovação da venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). As conversas ocorreram no fim de agosto de 2025, poucos dias antes de o Banco Central do Brasil barrar a operação. As informações foram reveladas pelo site Brasil de Fato.

Nas mensagens enviadas à então companheira por volta das 21h20, Vorcaro relatou que estava na capital federal articulando os próximos passos da negociação. “Estou em Brasília com governador […] estamos aqui combinando uma estratégia de guerra. A partir de segunda iremos para o ataque”, escreveu o banqueiro. Vorcaro voltou a ser preso pela Polícia Federal na quarta-feira (4).

Embora não mencione diretamente o nome do governador na conversa, o então chefe do Executivo do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, negou ter participado de qualquer articulação sobre o negócio. Segundo ele, todas as negociações foram conduzidas pela direção do banco público. “Essa reunião nunca existiu. Todas as tratativas relacionadas ao banco foram feitas pelo Paulo Henrique [Costa, ex-presidente do BRB]”, afirmou o governador à imprensa.

A revelação das mensagens ocorre em meio à crise enfrentada pelo BRB após sua relação financeira com o Banco Master. Entre 2024 e 2025, o banco público adquiriu bilhões de reais em ativos da instituição privada, alguns deles posteriormente investigados por suspeitas de fraude. As perdas decorrentes dessas operações levaram o governo do Distrito Federal a buscar medidas emergenciais para reforçar o capital da instituição e evitar o agravamento de sua situação financeira.

A tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB havia sido anunciada em março de 2025 e contou desde o início com apoio político do governador. Na época, o governo argumentava que a operação poderia transformar o banco regional em uma instituição de alcance nacional e ampliar sua presença no mercado financeiro. Posteriormente, Ibaneis afirmou que decidiu apoiar o negócio após receber pareceres favoráveis da diretoria do banco. “Nessa operação eu só dei apoio político após ser convencido pelo Paulo Henrique [Costa] de que a operação era favorável ao BRB”, declarou.

Depoimentos prestados à Polícia Federal indicam que tanto Vorcaro quanto o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, tiveram contatos com o governador durante o processo de negociação. Vorcaro afirmou ter conversado com Ibaneis “em algumas poucas oportunidades” sobre a tentativa de aquisição. Já Costa relatou que costumava prestar contas ao governador, uma vez que o governo do Distrito Federal é o acionista controlador do banco público.

Dados do sistema IF.data do Banco Central mostram que a carteira de crédito do BRB saltou de R$ 37 bilhões em setembro de 2024 para R$ 57 bilhões em setembro de 2025. Desse aumento de R$ 20 bilhões, pelo menos R$ 12,2 bilhões estão associados a operações com o Banco Master — o que significa que mais de 20% da carteira do banco público passou a estar vinculada a ativos da instituição privada que viria a entrar em colapso meses depois.

O impacto potencial dessas operações pode ser significativo. Inicialmente estimava-se a necessidade de provisão de cerca de R$ 2,6 bilhões para cobrir possíveis perdas. Entretanto, em depoimento à Polícia Federal, o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino, afirmou que o impacto total pode superar R$ 5 bilhões — valor próximo ou até superior ao patrimônio líquido do BRB, que era de cerca de R$ 4,9 bilhões no terceiro trimestre de 2025.

Diante da deterioração do balanço, o governo do Distrito Federal enviou à Câmara Legislativa um projeto para permitir a recapitalização do banco. A proposta autoriza o uso de imóveis públicos como garantia e a contratação de empréstimos que podem chegar a R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e outras instituições financeiras.

Durante reunião com parlamentares distritais, o presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, afirmou que a aprovação da proposta era essencial para evitar uma paralisação das atividades do banco. “Se a proposta não for aprovada, o banco para de funcionar”, declarou aos deputados na Câmara Legislativa.

A proposta, no entanto, gerou críticas da oposição, que classificou a medida como um “cheque em branco” ao governo e apontou falta de transparência sobre a qualidade dos ativos do banco. O plano também prevê a possibilidade de utilizar áreas públicas como garantia financeira, incluindo terrenos ligados à Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal e à Terracap, como a região da Serrinha do Paranoá, considerada estratégica para a preservação ambiental e a recarga de aquíferos do Cerrado.

Além das implicações fiscais e ambientais, a crise também pode afetar servidores públicos do Distrito Federal. Parte das ações do BRB pertence ao Instituto de Previdência dos Servidores do DF (Iprev), responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões. Nos últimos 12 meses, a rentabilidade do fundo foi de apenas 0,36%, índice considerado insuficiente para preservar o valor real dos recursos diante da inflação.