Fazenda modelo em agroecologia não tem agrotóxico nem queimadas

Como é a vida no Jacy Rocha, referência em agroecologia no sul da Bahia e que se contrapõe ao agronegócio na região

Entrada do assentamento Jacy Rocha. São 227 famílias espalhadas em 30 mil hectares de terra.
Entrada do assentamento Jacy Rocha. São 227 famílias espalhadas em 30 mil hectares de terra. (Foto: Igor Carvalho)
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Por Igor Carvalho, no Brasil de Fato – "Desde 2010, dialogávamos sobre a produção agroecológica, as famílias já tinham o entendimento de que aqui não podemos usar agrotóxicos, que p legal é você plantar e tirar da natureza o sustento, sem agredir o meio ambiente, sem agrotóxicos e queimadas". A afirmação é de Maristela Cunha, uma das assentadas do Assentamento Jacy Rocha, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), localizado em Prado, extremo-sul da Bahia.

Agora, com a ameaça do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que pretende despejar alguns assentados, Cunha está preocupada, mas segue otimista com o desfecho do imbróglio. “Aqui é o lugar que escolhi para viver até o fim da vida”, afirma a assentada, que também integra a direção estadual do movimento na Bahia.

A área de 30 mil hectares, onde está o Jacy Rocha e vivem 227 famílias, foi resultado de um acordo, em 2010, com a Suzano Papel e Celulose e a Fibria S/A, empresas que se uniram em 2020. A área foi reconhecida como assentamento pelo Incra em 2015. No ano seguinte, 2016, o movimento organizou a partilha dos lotes entre as famílias, de acordo com as aptidões.

“Cada assentado disse o que pretendia plantar ou o animal que queria criar e aí decidíamos a área, de acordo com as características do lote. Se mais de um desejasse o mesmo lote, fazíamos sorteio”, recorda Cunha, que chegou em 2010 no assentamento.

Em dez anos, o Jacy Rocha se tornou referência em agroecologia. A produção de alimentos saudáveis se tornou uma bandeira no assentamento que, em 2012, criou a Escola Popular de Agroecologia e Agrofloresta Egídio Brunetto, onde oferece dois cursos, o Técnico em Agroecologia, reconhecido pela Secretaria de Educação da Bahia, e uma Especialização em Educação do Campo e Agroecologia, em parceria com a Fiocruz.

Além disso, na Egídio Brunetto, 800 famílias do extremo sul da Bahia aprenderam a ler e escrever. “Essa escola está nesse território desde 2012 e ela tem um papel fundamental dentro do território, dentro do movimento. A escola está aqui para trabalhar a agroecologia e a agrofloresta. Nem todo o público que estuda nessa escola são filhos de assentadas e assentados, mas são filhos de pequenos agricultores, indígenas e quilombolas”, afirma Eliane Oliveira, coordenadora pedagógica da Escola de Agroecologia.

A escola é mantida aberta para os 15 assentamentos que abrigam 1,5 mil famílias na região, que estão espalhados entre cinco municípios: Eunápolis, Itamaraju, Mucuri, Prado e Santa Cruz de Cabrália.

Além da Egídio Brunetto, há a Escola Estadual do Campo Anderson França, inaugurada em 2013 e que foi reformada em março deste ano. Ao todo, 490 crianças do assentamento estudam na unidade.

Durante a pandemia, as aulas são mantidas em casa. Motoristas fazem a ponte entre os alunos e professores. No raiar do dia, os carros saem da escola com atividades e informações impressas para os alunos. No final do dia, voltam com os cadernos e exercícios preenchidos, para que os docentes analisem.

O alimento nas feiras e o café

Há uma diversidade de produção agrícola espalhada entre os 227 lotes do Jacy Rocha. A mandioca é o carro-chefe do assentamento, além de hortaliças, cacau, urucum, banana, entre outros. Há também produção de leite, criação de gado, galinhas e porcos.

A produção é comercializada nas feiras dos municípios do sul baiano e garante o sustento dos assentados. “Meu sustento sai das hortas, eu nunca imaginei que meu sustento pudesse sair do coentro e da cebolinha. Eu faço duas ou três feiras por semana”, explica Cunha.

Graças ao programa Alianças Produtivas, do governo da Bahia, que distribuiu R$ 60 milhões em todo o estado, houve recurso para dar início ao plantio de café no Jacy Rocha. Cada assentado contemplado no programa disponibilizará um hectare de seu lote para 3 mil pés de café.

No sul da Bahia, as características da produção do Jacy Rocha oferecem um contraponto ao agronegócio na região, o que motivaria os ataques do Incra ao assentamento, segundo Oliveira. “Quando olhamos para as bandeiras de luta da educação, a soberania alimentar, produção agroecológica, este, é um território riquíssimo, mas também empobrecido, por conta do monocultivo de eucalipto, cana e café.”

Para Cunha, a manutenção do território e a afirmação da produção agrícola dos assentamentos, corroboram a resolução tomada no início da década passada. “A decisão que tomei em 2010, de vir para a roça e para dentro do movimento, eu não arrependo em nenhum momento, meu filho foi criado aqui. A vida, os amigos e a escola estão aqui. Eu sei que o meu filho tem moradia, alimentação e dignidade.”

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