Investigação denuncia atuação política da Polícia Civil em Pernambuco
TV Record exibe documentos, mensagens e depoimentos que indicam perseguição a adversários do governo Raquel Lyra em contexto pré-eleitoral
247 - Uma extensa reportagem exibida neste domingo (25) pelo programa Domingo Espetacular, da TV Record, apresentou um conjunto de denúncias consideradas de extrema gravidade sobre a atuação da Polícia Civil de Pernambuco durante a gestão da governadora Raquel Lyra. O material jornalístico reúne documentos internos, trocas de mensagens entre policiais e depoimentos públicos e sob sigilo que sugerem o uso político da estrutura policial, a perseguição a servidores que se recusaram a cumprir ordens tidas como ilegais e a prática de ações de monitoramento fora dos parâmetros legais.
Segundo a investigação da TV Record, os elementos reunidos apontam para a existência de uma espécie de “polícia paralela”, supostamente mobilizada para atuar contra adversários políticos do governo estadual, em um cenário diretamente ligado à disputa eleitoral em Pernambuco. A emissora destaca que as ações descritas não teriam seguido critérios técnicos ou jurídicos regulares, mas interesses políticos, o que levanta suspeitas de desvio de finalidade no uso da máquina pública.
Entre os principais alvos das ações denunciadas está o prefeito do Recife e presidente nacional do PSB, João Campos, que lidera com ampla vantagem as pesquisas de intenção de voto no estado. De acordo com a reportagem, o prefeito aparece de forma indireta em ao menos duas das denúncias apresentadas, o que reforça a hipótese de que investigações e operações teriam sido direcionadas em um contexto pré-eleitoral, e não motivadas por indícios concretos de crime.
Um dos episódios mais sensíveis revelados envolve a divulgação de ofícios internos da Polícia Civil. Em um dos documentos exibidos, um delegado determina a continuidade de uma investigação mesmo após o arquivamento formal do caso por outro delegado responsável, que havia concluído pela inexistência de provas e vestígios de crime no episódio relacionado a creches do Recife. Conforme destacou a TV Record, o texto do ofício menciona a relevância eleitoral da apuração, o que levanta suspeitas de violação aos princípios da legalidade, da impessoalidade e da imparcialidade que regem a atuação policial.
A reportagem também expôs trocas de mensagens em um grupo de WhatsApp formado por policiais civis, identificado como “Nova Missão”. Segundo a emissora, os diálogos indicam a organização de ações de monitoramento contra o secretário de Articulação Política e Social da Prefeitura do Recife, Gustavo Monteiro. Em uma das mensagens exibidas, os participantes se referem ao secretário como “o alvo”, acompanhando o texto com uma fotografia dele, o que, de acordo com a reportagem, evidencia o caráter direcionado da ação. Em outra conversa, há referência ao uso do sistema Clearview, ferramenta de reconhecimento facial cujo acesso seria restrito à alta cúpula da corporação.
As mensagens divulgadas apontam ainda indícios de vigilância e possível rastreamento ilegal de Eduardo Monteiro, servidor da Prefeitura do Recife e irmão do secretário. Conforme a investigação jornalística, ele teria sido seguido por policiais civis e teve um rastreador instalado no carro oficial que utilizava. A reportagem ressalta que, em nenhum momento das conversas, há menção à existência de crime investigado, decisão judicial, autorização legal ou abertura formal de inquérito que justificasse as ações, o que levanta suspeitas de abuso de autoridade e de vigilância estatal à margem da lei. A própria Polícia Civil de Pernambuco, segundo a emissora, confirmou que não houve abertura de procedimento formal, em contrariedade ao que prevê a legislação.
A gravidade das denúncias é reforçada por um depoimento mantido sob sigilo, no qual um agente da Polícia Civil confirmou à TV Record a realização das ações de monitoramento descritas. O policial relatou que as atividades ocorriam sem respaldo formal e sob um ambiente de pressão interna para o cumprimento das ordens, indicando que não se tratariam de episódios isolados. De acordo com a reportagem, entre os delegados citados como envolvidos na condução dessas ações estão Izaias Gonçalves, então à frente da Diretoria de Inteligência, e Wagner Domingues, coordenador do serviço de inteligência que, conforme as mensagens exibidas, teria adquirido pessoalmente o rastreador utilizado.
O Domingo Espetacular também trouxe a manifestação do presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco (Sinpol), Áureo Cisneiros, que denunciou a existência de perseguição institucional dentro da corporação. Segundo ele, policiais civis que se recusaram a realizar ações contra adversários do governo Raquel Lyra teriam sido pressionados, isolados ou retaliados no ambiente de trabalho.
Caso as denúncias apresentadas sejam confirmadas, os fatos podem configurar uso indevido da máquina pública, desvio da função investigativa, perseguição a servidores públicos e violação de garantias fundamentais, com possíveis impactos diretos sobre o processo democrático e eleitoral em Pernambuco. A reportagem informou que procurou o Governo do Estado, a Secretaria de Defesa Social e a Polícia Civil para comentar as acusações. Apenas a Polícia Civil respondeu, tratando de uma das denúncias e confirmando a inexistência de inquérito formal, além da ausência de provas contra os servidores citados.