Patroa é acusada de torturar doméstica grávida no Maranhão
A Polícia Civil do Maranhão investiga o caso, que ganhou repercussão após a divulgação de áudios atribuídos à empresária
247 - Uma empregada doméstica de 19 anos, grávida de cinco meses, denunciou ter sido agredida na casa onde trabalhava em Paço do Lumiar, na Grande São Luís, após ser acusada de roubar joias da ex-patroa. A Polícia Civil do Maranhão investiga o caso, que ganhou repercussão após a divulgação de áudios atribuídos à empresária Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, suspeita das agressões.
As informações são do g1. Segundo a reportagem, a TV Mirante teve acesso exclusivo a áudios enviados por Carolina Sthela em um grupo de mensagens, nos quais ela narra a violência contra a trabalhadora, identificada como Samara. A produção da emissora afirmou ter confirmado a veracidade dos áudios com a Polícia Civil, que informou que as mensagens já foram anexadas ao inquérito.
De acordo com o relato da vítima, as agressões ocorreram no dia 17 de abril, dentro da residência onde ela prestava serviço como empregada doméstica. Samara afirmou que havia aceitado o trabalho por um período de um mês para conseguir comprar o enxoval do bebê.
A jovem disse ter sido espancada após ser acusada de furtar um anel da patroa. Em entrevistas anteriores, ela relatou que tentou proteger o bebê durante os ataques e que os agressores não demonstraram preocupação com sua gravidez.
Áudios narram violência contra a vítima
Nos áudios atribuídos a Carolina Sthela, a suspeita descreve a agressão contra a doméstica. Em uma das mensagens, ela afirma que a vítima teria ficado por quase uma hora sob violência física.
“Quase uma hora essa menina no massacre, e tapa e murro e pisava nos dedos. Tudo que vocês imaginarem de doidice, era eu e ele fazendo”, afirmou Carolina Sthela.
Ainda nos áudios, a empresária relata que contou com a participação de um homem, ainda não identificado, que teria ido armado até sua casa na manhã do dia 17 de abril. Segundo a versão narrada pela própria suspeita nas mensagens, ela chamou a doméstica para tratar do desaparecimento do anel após a chegada desse homem.
“Eu acordei era 7h30. Aí eu (disse): ‘Samara, arruma logo essa cozinha’, que eu também não sou besta, ‘que eu vou receber um amigo meu aqui em casa’. Aí ele chegou e eu disse ‘entra, amigo’. Ele (o homem) já veio com uma jumenta de uma arma, chega brilhava."
Em outro trecho, Carolina Sthela relata ter chamado a trabalhadora para uma conversa e a acusado diretamente pelo desaparecimento da joia.
"Aí eu (falei): ‘Samara, faz favor, vem cá. Ontem sumiu meu anel, você sabe, né? Aqui não entrou ninguém de fora, só a gente, a única pessoa estranha é você. E meu anel não tem perna e nem asa pra andar voando. Então eu quero que você vá pegar meu anel de onde você botou, pra gente não ter problema’”, relatou a mulher.
Agressões teriam continuado mesmo após anel ser encontrado
Segundo os áudios, a vítima foi obrigada a procurar o anel pela casa enquanto era pressionada de forma violenta. Carolina Sthela descreve que a doméstica teria sido colocada de joelhos e ameaçada durante a busca.
“Puxou a bicha, botou assim, tirou a touca da cabeça dela, pegou no cabelo, botou ela de joelho, puxou a bicha e botou na boca dela. ‘Eu acho bom tu entregar logo esse anel, onde é que tá? Tá aqui? Bora brincar de quente ou frio. Tá aqui em cima, tá aqui embaixo?’ Aí onde ele ia apontando, botava a cabeça dela se tava.”
O anel, conforme o relato divulgado, foi encontrado depois de mais de uma hora, dentro de um cesto de roupa suja. Mesmo após a localização da joia, as agressões teriam continuado.
“Tapa e tapa, menina, dei. Gente, eu dei tanto que minha mão tá inchada. Até hoje meu dedo chega tá roxo”, contou Carolina.
A vítima registrou boletim de ocorrência no dia seguinte e passou por exame de corpo de delito, que confirmou as lesões. Imagens divulgadas pela reportagem mostram marcas pelo corpo da jovem. Segundo Samara, uma lesão na testa teria sido provocada por uma coronhada.
Suspeita citou policial em áudio
Em outro trecho dos áudios, Carolina Sthela afirma que policiais foram até sua casa após o registro da ocorrência, mas diz que um dos agentes que atenderam o caso a conhecia. A declaração levou a reportagem a procurar a Secretaria de Segurança Pública do Maranhão para questionar a conduta mencionada pela suspeita.
“Parou uma viatura no meio da rua, eles vieram pra de manhã mesmo aqui. Mas veio com um policial que me conhecia. Sorte minha, né? E sorte dela também. Aí eu expliquei pra ele o que tinha acontecido. Aí ele disse: ‘Carol, se não fosse eu, eu tinha que te conduzir pra delegacia, porque tá cheia de hematoma’. Aí eu disse: ‘era para ter ficado era mais, não era pra ter saído viva’”, afirmou Carolina.
De acordo com a reportagem, a Secretaria de Segurança Pública foi procurada para comentar o áudio em que a suspeita diz ter sido atendida por um policial conhecido, mas não havia retornado aos contatos até a publicação original.
Versão apresentada à polícia foi diferente
A empresária também registrou boletim de ocorrência. No entanto, segundo a reportagem, a versão apresentada por ela à polícia difere do relato feito nos áudios divulgados.
Na delegacia, Carolina Sthela teria afirmado que sentiu falta das joias que costumava usar, procurou pela casa e não as encontrou. Segundo essa versão, ela pediu para ver a bolsa da empregada, encontrou as joias e chamou a polícia, mas a trabalhadora teria saído correndo pelo condomínio.
O caso é investigado pela 21ª Delegacia de Polícia Civil do Araçagy. Até a última atualização da reportagem original, Carolina Sthela não havia sido presa nem indiciada.
Marido nega áudios e suspeita fala em distorção
À TV Mirante, o marido de Carolina Sthela Ferreira dos Anjos afirmou que não existem áudios dela e que as mensagens divulgadas seriam “inverdades”.
A própria suspeita também foi procurada pela emissora. Em nota, ela declarou que as alegações são “uma distorção do que realmente aconteceu” e afirmou que todas as medidas jurídicas cabíveis já foram adotadas para esclarecer os fatos.
A reportagem informou ainda que a Polícia Civil confirmou a autenticidade dos áudios e que o material integra o inquérito que apura a agressão contra a doméstica.
Suspeita tem mais de dez processos
A Polícia Civil informou que há mais de dez processos envolvendo Carolina Sthela. Em um deles, de 2024, ela foi condenada por calúnia após acusar falsamente uma ex-babá de seu filho de furtar uma pulseira de ouro.
O processo tramitou no Juizado Civil e Criminal de Santa Inês, e a sentença foi proferida em outubro do ano passado. Carolina foi condenada a seis meses de prisão em regime aberto, mas a pena foi substituída por prestação de serviço comunitário. Ela também foi condenada a pagar R$ 4 mil por danos morais.
A TV Mirante entrevistou Sandila Souza, ex-babá que denunciou a mesma mulher em outro processo. Segundo Sandila, ela começou a trabalhar na casa da suspeita quando tinha 17 anos e atualmente não mora mais no Maranhão. Ela afirmou que o pagamento pelo serviço era feito por contas de terceiros e que a indenização por danos morais ainda não foi paga.
“Ela olhou pelas câmeras. Foi no mesmo momento que ela viu saindo com as minhas malas e falou que ela ia na delegacia, que eu tinha roubado a pulseira do filho dela. Ela ia falar que eu tinha roubado a pulseira do filho dela. Eu falei eu não roubei a pulseira do seu filho, mas se você quiser ir lá, você pode ir que tem câmera em todo lugar e as câmeras nunca ficam desligadas.”
OAB acompanha o caso
A Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil informou que prepara um relatório sobre os processos envolvendo a suspeita. A entidade também acompanha a denúncia de agressão registrada na semana passada.
A investigação da Polícia Civil segue em andamento para apurar as circunstâncias da violência relatada pela vítima, a participação de outras pessoas no episódio e a conduta mencionada nos áudios atribuídos à empresária.