Radiotelescópio Bingo não tem finalidade militar e não atende a interesses chineses, afirma pesquisador do Inpe
Cientista do Inpe afirma que projeto na Paraíba tem finalidade científica, transparência internacional e capacidade limitada para rastreamento
247 - O radiotelescópio Bingo, que está sendo construído no município de Aguiar, no sertão da Paraíba, voltou ao centro de uma disputa geopolítica após ser citado em um relatório de congressistas dos Estados Unidos que aponta possíveis riscos relacionados à participação chinesa em projetos espaciais na América Latina. Um dos principais responsáveis pelo empreendimento no Brasil, no entanto, rejeita as acusações e sustenta que o equipamento tem finalidade estritamente científica.
Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, o cientista Carlos Alexandre Wuensche, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e um dos líderes do projeto, classificou como infundadas as suspeitas levantadas por parlamentares norte-americanos sobre o radiotelescópio. O equipamento, quando concluído, deverá se tornar o maior radiotelescópio da América Latina.
Em entrevista ao jornal, Wuensche afirmou que não identifica fundamentos técnicos para as acusações. “Não vejo muito sentido nessa paranoia americana [em relação ao Bingo]”, declarou. O pesquisador argumenta que as características operacionais do equipamento tornam inviável qualquer utilização relevante para fins militares.
Cientista contesta alegações sobre rastreamento
De acordo com Wuensche, o Bingo possui limitações físicas que impedem seu uso para monitoramento ativo de satélites, mísseis ou outros objetos em órbita. O pesquisador explicou que o radiotelescópio permanecerá observando uma faixa específica do céu, sem capacidade de movimentação significativa para acompanhar alvos.
“Ele olha o que passa na frente. Se passar na frente, eu vejo. Se não passar, eu não vejo. Então, falar que tem uso militar não faz sentido. Qualquer radiotelescópio vai ter uso militar se você quiser apontar para rastrear um míssil, uma sonda, um satélite. O Bingo não pode rastrear, então o uso militar dele é limitado, bem limitado”, afirmou.
As declarações respondem, entre outros pontos, a informações divulgadas em reportagem da agência Reuters no final de 2025. Na ocasião, a CETC (China Electronics Technology Group Corporation), estatal chinesa do setor de eletrônicos de defesa, indicou que o Bingo poderia contribuir para o rastreamento de satélites e de pequenos corpos celestes, auxiliando na identificação de potenciais ameaças oriundas de objetos próximos à Terra.
Participação chinesa é considerada reduzida
O projeto Bingo é liderado por instituições brasileiras, embora conte com colaboração internacional, incluindo a participação da China. Segundo Wuensche, o investimento chinês representa uma parcela pequena do orçamento total da iniciativa.
De acordo com o pesquisador, o custo global do projeto supera R$ 35 milhões, enquanto a contribuição chinesa é estimada em aproximadamente R$ 300 mil. Ele ressaltou que a parceria envolveu o desenvolvimento de componentes específicos previamente projetados por pesquisadores brasileiros.
“Demos um projeto para eles desenvolverem e fomos fazer lá porque era mais barato do que aqui”, explicou.
Wuensche também destacou que os componentes fornecidos pela China não possuem caráter sigiloso e que as informações produzidas pelo radiotelescópio são compartilhadas entre os países envolvidos na pesquisa. Após a publicação dos resultados em artigos científicos, os dados tornam-se públicos.
Relatório dos EUA questiona presença chinesa
As críticas ao projeto aparecem no relatório intitulado “Atraindo a América Latina para a órbita da China”, divulgado em fevereiro deste ano. O documento sustenta que os investimentos chineses em infraestrutura espacial na região fariam parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento das capacidades tecnológicas e militares do país asiático.
Segundo o texto, estações terrestres, radiotelescópios e centros de telemetria instalados em países latino-americanos poderiam integrar uma rede de uso dual, combinando aplicações civis e potenciais funções estratégicas.
“Na verdade, esses locais formam uma rede integrada de uso duplo que fortalece a capacidade da China de monitorar, controlar e potencialmente interromper operações espaciais e militares de adversários”, afirma o relatório.
Os autores do documento alegam que a China teria acesso a pelo menos 11 instalações espaciais distribuídas por Argentina, Venezuela, Bolívia, Chile e Brasil. Na avaliação dos congressistas, essa estrutura poderia oferecer cobertura global quase contínua para atividades de observação e monitoramento espacial.
Pesquisador aponta erros e desconhecimento técnico
Wuensche rebateu diretamente as conclusões do relatório norte-americano e afirmou que o documento apresenta informações incorretas sobre o Bingo e seu funcionamento.
“Está mal informado [o relatório]. Várias coisas mencionadas ali são incorretas. Vem do Congresso americano, está nesta época complicada. Mas não tem grandes consequências, até porque não estamos fazendo nada escondido, sem acesso público. Todo material que fizemos está publicado em revista científica”, declarou.
O pesquisador reforça que o projeto é conduzido com transparência e que todas as etapas de desenvolvimento são documentadas e divulgadas à comunidade científica internacional.
A expectativa é que o radiotelescópio comece a captar sinais do Universo até o final deste ano. O funcionamento pleno da estrutura está previsto para 2027, consolidando o Bingo como uma das principais iniciativas de pesquisa astronômica já desenvolvidas no Brasil.
Governo brasileiro também reagiu às acusações
O relatório norte-americano também menciona outro suposto empreendimento brasileiro, identificado como Estação Terrestre Tucano, na Bahia. O tema chegou a ser discutido na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados.
Em resposta aos questionamentos, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou em março que a estação citada não existe. Segundo ele, trata-se apenas de um projeto privado ainda não implementado.
“Não há uma construção, um contrato, uma infraestrutura, não há operação. O que existe é um projeto de uma empresa privada brasileira denominada Alya Space, que planeja desenvolver seis estações de solo que proveriam canal de comunicação espaço-terra para satélites, uma delas em Tucano, na Bahia”, disse o chanceler.
Vieira acrescentou que “Nenhuma das seis saiu do papel.”
O ministro também criticou a abordagem adotada pelo relatório dos Estados Unidos em relação às parcerias científicas mantidas por países latino-americanos.
“O relatório trata de cooperação científica brasileira com suspeição e desconhecimento técnico, avalizando um viés geopolítico ultrapassado segundo o qual a América Latina e o Caribe seriam mero quintal ou áreas de influência dos Estados Unidos”, afirmou.
