A "justificativa" da PM-RJ ao tentar explicar assassinato de médica negra durante abordagem
Segundo a Polícia Militar, agentes do 9º BPM (Rocha Miranda) realizavam buscas por suspeitos de assaltos na região
247 - A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga se a médica Andréa Marins Dias, de 61 anos, foi morta por engano durante uma ação policial na noite de domingo (15), no bairro de Cascadura, Zona Norte da capital. As informações foram divulgadas pelo g1.
A principal linha de apuração considera que policiais militares possam ter confundido o carro da vítima com o de criminosos que estariam sendo perseguidos na região. Durante a ação, houve troca de tiros e o veículo da médica foi atingido, resultando em sua morte ainda no local.
Segundo a Polícia Militar, agentes do 9º BPM (Rocha Miranda) realizavam buscas por suspeitos de assaltos na região, após denúncia de que criminosos utilizavam um veículo T-Cross branco para cometer roubos.
Durante o patrulhamento, os policiais identificaram um carro com características semelhantes, próximo a outros veículos, incluindo um Jeep e uma motocicleta.Ainda de acordo com a corporação, foi dada ordem de parada, que não teria sido obedecida, dando início a uma perseguição pelas ruas do bairro. Na altura da Rua Palatinado, ocorreu uma troca de tiros entre os agentes e os suspeitos.Moradores relataram que Andréa havia acabado de sair da casa dos pais quando foi atingida dentro de seu veículo, um Corolla.
O carro parou na via, onde foi cercado pelos policiais. Imagens registradas por testemunhas mostram o momento da abordagem, com agentes batendo com um fuzil na porta do automóvel. Ao abrirem o veículo, encontraram a médica já sem vida.Em um dos vídeos gravados no local, é possível ouvir um policial gritando: "Desce irmão, vai morrer! Vai morrer, irmão, desce!", durante a ação.
Dois policiais — um sargento e um subtenente — reconheceram em registro de ocorrência que participaram da perseguição a um veículo Corolla Cross na região. A Polícia Militar informou que todos os agentes envolvidos foram afastados preventivamente das ruas até a conclusão das investigações.
A corporação também comunicou a abertura de um procedimento interno para apurar as circunstâncias da ocorrência e informou que realiza diligências para coletar imagens de câmeras de segurança que possam esclarecer a dinâmica dos fatos. O veículo da médica apresentava marcas de tiros na parte dianteira e traseira.
O caso foi registrado na Delegacia de Homicídios da Capital, que já iniciou as investigações. As armas dos policiais e as câmeras corporais foram apreendidas para análise pericial, e uma nova perícia foi realizada no carro da vítima na segunda-feira (16). Agentes também trabalham na coleta de imagens que ajudem a reconstituir o episódio.
Andréa Marins Dias era uma cirurgiã oncológica com quase três décadas de experiência, especializada no tratamento de endometriose. Reconhecida na área de saúde da mulher, ela compartilhava conteúdos informativos e relatos profissionais em suas redes sociais.Em um vídeo publicado anteriormente, ela falou sobre sua trajetória: "Eu tenho 27 anos cuidando de mulher. De formada, eu não sei se eu falo..... 32 anos de formada". Em outra declaração, destacou sua motivação profissional: "Eu resolvi que isso seria um desafio para ajudar as mulheres, ajudar a dor das mulheres. A endometriose é uma patologia atual. Estou aqui para ajudar e para tirar dúvidas".
Além da carreira médica, Andréa também dividia momentos de lazer e reflexões pessoais. Em uma publicação, escreveu: "Nem só de trabalho viverá a mulher. A doutora também se diverte". Em outra, refletiu: "Às vezes, tudo o que precisamos é parar, observar e sentir que a vida é, de fato, muito boa."
A médica deixa os pais, de 91 e 88 anos, e uma filha de 30 anos. O corpo será enterrado nesta terça-feira (17), no Cemitério do Caju, na Zona Portuária do Rio.
O Conselho Regional de Medicina (CRM) lamentou a morte e pediu rigor na apuração dos fatos. A Unimed Nova Iguaçu, instituição à qual Andréa era vinculada, também manifestou pesar e solidariedade à família, amigos e pacientes da médica.