Após balear homem rendido durante briga de trânsito em SP, PM pede para vítima não morrer
Câmera corporal registrou policial implorando pela vida de Igor Rodrigues após disparos em abordagem na Zona Norte de São Paulo
247 - Imagens de câmera corporal registraram o momento em que o policial militar Cauan Alencar Bastos pediu para Igor Eduardo Hyppolito Rodrigues, de 45 anos, continuar respirando depois de atirar contra ele durante uma abordagem no Jardim Pirituba, na Zona Norte de São Paulo. O caso ocorreu em 29 de abril, após uma briga de trânsito, as informações são do g1.
Segundo a reportagem, Igor foi atingido por disparos feitos pelos policiais Cauan Alencar Bastos e José Otávio Pinheiro. A vítima havia ameaçado um motociclista com uma faca momentos antes, mas imagens de segurança divulgadas pela TV Globo indicam que ele colocava o objeto no chão quando foi baleado.
Após os tiros, equipes da Polícia Militar chegaram ao local e iniciaram manobras de reanimação. Enquanto Igor recebia massagem cardíaca, a câmera corporal captou o cabo Cauan com a voz embargada, pedindo que ele não morresse.
"Igor, a ambulância está chegando. Pelo amor de Deus, não morre, não, mano. Fica vivo, respira. Por favor, irmão, respira. Não morre, não. Não morre não, moço, por favor", disse o PM Cauan.
Nas imagens, uma mulher que participava do atendimento percebe o desespero do policial e tenta acalmá-lo. "calma, moço", afirma ela, enquanto a tentativa de reanimação prosseguia.
Em outro trecho do vídeo, o policial se afasta até a viatura e reza o Pai-Nosso por cerca de 20 segundos. A cena ocorreu depois dos disparos que, segundo o boletim de ocorrência, atingiram Igor quatro vezes. Ele morreu no local.
A ocorrência começou quando Igor dirigia pela Avenida Raimundo Pereira de Magalhães e parou em um semáforo vermelho. De acordo com testemunhas, ele desceu do carro segurando uma faca e correu em direção a um motociclista, após uma discussão de trânsito.
O motociclista, então, procurou ajuda em um posto de combustíveis próximo, onde estavam o cabo Cauan e o soldado José Otávio Pinheiro, com a viatura estacionada. Os policiais seguiram até o local em que Igor estava.
As imagens mostram que, ao se aproximar da vítima, o cabo Cauan desceu da viatura dizendo: "Eu vou matar ele, eu vou dar tiro". Na sequência, ele efetuou seis disparos. O soldado José Otávio atirou uma vez.
Câmeras de segurança exibidas anteriormente pela TV Globo mostram Igor sendo atingido no momento em que colocava a faca no chão. Para a família, o registro comprova que ele tentava se render quando foi baleado.
A versão registrada pelas imagens contraria o relato apresentado pelos policiais na delegacia. Eles afirmaram que Igor avançou com a faca contra o motociclista e também contra a equipe policial, o que teria motivado os disparos.
Familiares disseram que Igor fazia uso de medicamentos controlados para tratar esquizofrenia. Ele trabalhava como eletricista, encanador e realizava serviços de manutenção em geral. Em depoimento à Polícia Civil, o pai relatou que o filho tinha temperamento forte em razão do problema de saúde e afirmou que ele possuía ferramentas, como a faca, por causa de seu trabalho.
Em nota divulgada nesta quinta-feira, 18 de junho, a Ouvidoria da Polícia de São Paulo afirmou que o caso expõe a necessidade de revisão das políticas de saúde mental voltadas aos profissionais da segurança pública.
"o episódio evidencia a necessidade urgente de uma profunda revisão das políticas de saúde mental destinadas aos profissionais da segurança pública", declarou a Ouvidoria.
O órgão também criticou falhas na atuação policial e afirmou que a sociedade não pode arcar com consequências de despreparo ou descontrole emocional de agentes do Estado.
"A população não pode continuar pagando com vidas o preço do despreparo, do descontrole emocional ou da incapacidade de atuação compatível com os princípios que devem orientar a atividade policial", afirmou a Ouvidoria.
A Ouvidoria destacou ainda a importância das Câmeras Operacionais Portáteis, as COPs, para o esclarecimento da ocorrência. Segundo o órgão, os equipamentos são "indispensáveis para a proteção da população, para a valorização dos bons policiais e para o combate à impunidade".
Os dois policiais foram afastados do serviço operacional. O caso é investigado em um inquérito policial militar instaurado no 18º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano, com acompanhamento da Corregedoria, de acordo com a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo.
A morte de Igor também é apurada pelo Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa, o DHPP. Em nota, a SSP afirmou que a Polícia Militar não compactua com excessos nem desvios de conduta cometidos por seus agentes.
"A Polícia Militar não compactua com excessos e desvios de conduta por parte de seus agentes. Todas as imagens relacionadas à ocorrência, incluindo as captadas pelas câmeras corporais utilizadas pelos policiais, são rigorosamente analisadas para adoção das medidas cabíveis", informou a SSP.
