Arquivo Confidencial Nem: o homem que sabe demais

O preso mais famoso do Rio , tambm, o informante mais precioso que a polcia j encontrou; "uma oportunidade importantssima", na opinio do secretrio Beltrame; Nem poder ter benesses judiciais para falar; mas, se falar, conseguir se manter vivo?

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247 – Isolado numa minúscula cela de Bangu I, o preso mais famoso do Brasil hoje sabe – e não sabe – o que o espera fora dali. Na qualidade de chefão da ADA – a Amigos Dos Amigos, mais ampla das facções criminosas do Rio de Janeiro --, Antônio Bonfim Lopes, o Nem, caiu nas mãos da polícia sem resistência na semana passada. Pouco antes, quando ele ainda acreditava que, graças à malha de corrupção policial que estendeu pela cidade, poderia manter-se em liberdade, concedeu uma entrevista à jornalista Ruth de Aquina, da revista Época, que, agora, poderá lhe custar caro.

Com todas as letras, Nem admitiu não apenas o pagamento de propinas régias e regulares a policiais, mas, especialmente, que tem muitos amigos dentro da polícia. “Pago muito por mês a policiais, mas tenho mais policiais amigos do que policiais a quem eu pago”, disse ele à jornalista.

Como se fosse pouco, Nem se sentiu à vontade para rasgar seda sobre o algoz de seus amigos, o secretário estadual de Segurança José Mariano Beltrame. “Um dos caras mais inteligentes que já vi. Se tivesse mais caras assim, tudo seria melhor. Ele fala o que tem de ser dito”.

A parte que Nem sabe sobre o seu futuro é a de que tem um encontro marcado com a polícia, exatamente para contar o que sabe, em depoimentos formais e informais. “Trata-se de uma oportunidade importantíssima para nós elucidarmos uma série de casos de corrupção policial”, reconheceu o Beltrame admirado por Nem, em entrevista à TV Globo. O secretário não descartou a possibilidade de encontrar, ele próprio, salvaguardas judiciais para incentivar Nem a contar tudo o que sabe.

O traficante confesso deve sair da cela em que está isolado amanhã, e imediatamente ser instado a começar a contar a quem pagou, quanto pagou, como pagou, quando pagou.

As respostas de Nem às interrogações com o mesmo verbo pagar têm potencial para irritar, igualmente, tanto os policiais como os bandidos. O último traficante famoso de língua solta acabou, depois de estrangulado, numa lata de lixo. Era Marcinho VP, ‘dono’ do morro Dona Marta, que igualmente falava abertamente sobre as ligações do tráfico com o aparato policial. Ele tornou-se o personagem principal do livro Abusado, do jornalista Caco Barcellos. Em 2003, dois meses após a circulação do livro, Marcinho VP – cujo codinome tinha a ver com a maneira como chamava seus interlocutores, ora de Viado, ora de Puto – foi preso e levado para Bangu I. Ficou no mesmo lugar onde hoje está Nem. Um ano depois de sua prisão, porém, VP foi transferido para Bangu III. Ali, não ficou vivo nem um mês inteiro, tendo sido atacado em sua cela. Até hoje, não se sabe quem o matou. As suspeitas, é claro, recaem sobre integrantes do Comando Vermelho, a mais antiga das facções criminosas do Rio, a qual ele pertencia. Mas ninguém pode afirmar que a vingança não tenha sido obra de policiais.

A comparação com Marcinho deve assaltar, sem dúvida, os pensamentos atuais de Nem. Tal como o traficante que foi parar, morto, na lata do lixo, Nem também sempre foi dado a falar bastante e, algumas vezes, até a contrariar os interesses imediatos da ADA. Enquanto VP autorizou a subida de Michael Jackson para gravar um clip em seu morro, Nem é o cara a quem se atribuiu o fim do sequestro de estrangeiros no Hotel Intercontinental, em agosto do ano passado. Depois de uma perseguição policial, 10 bandidos de seu grupo, armados com fuzis, fizeram 35 reféns. O cerco policial sobre eles terminou após uma ordem de Nem, enviada por uma mensageiro mirim, para que se entregassem. A atitude, é claro, contrariou os bandidos, que tiveram de se entregar. Como seria, hoje, um encontro entre esse bando e Nem que, na prática, deu a ordem para que eles baixassem os fuzis? Amistoso? Pouca gente apostaria nessa possibilidade.

Claramente, o que parece estar em curso é uma estratégia de Nem em se afastar da ADA e se aproximar de Beltrame. Um movimento iniciado quando ele percebeu que o cerco estava se fechando sobre seu domínio na Rocinha. Beltrame entendeu o recado, e já dá sinais de que pretende proteger o traficante. As questões de agora, no então, são: proteção de que tipo? Até quando? De que maneira? O que quer que venha a ser feito a favor de Nem poderá durar até quando? São perguntas que nem o esperto Nem é capaz de responder.

 

Abaixo, notícia da Agência Estado a respeito da entrevista do secretário Beltrame à Globo:

O secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, disse hoje que o traficante Antônio Bonfim Lopes, o Nem, preso na quinta-feira, pode ajudar a elucidar casos de corrupção envolvendo policiais civis e militares.

 

Em entrevista à TV Globo, Beltrame disse que o depoimento do traficante Nem pode ser uma "oportunidade importantíssima" para elucidar esses casos de corrupção e não descarta o oferecimento de alguma medida judicial para que Nem contribua com a Justiça e a polícia. Para o secretário, a Operação de Choque foi "um trabalho de inteligência e não de guerra".

 

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