As amargas lições da tragédia grega

A Grécia corre o risco de entrar para a história moderna como o país que implodiu o projeto de um Continente reunido sob uma economia e uma moeda forte

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A tragédia grega migrou do teatro para a vida real. Soa até irônico a Grécia aparecer em 29º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano-IDH de 2011 e o Brasil aparecer em 84º. O povo grego que o diga. Transformada no patinho feito da União Europeia, a Grécia corre o risco de entrar para a história moderna como o país que implodiu o projeto de um Continente reunido sob uma economia e uma moeda forte, para confrontar os americanos.

Um dos berços culturais da civilização ocidental não consegue sair do atoleiro econômico em que mergulhou nos últimos anos e expõe a fragilidade de governos irresponsáveis, que metem a mão nas finanças do país, sob a salvaguarda de um mandato eleitoral, e depois cobram a conta do povo.

A Grécia é um excelente laboratório para colocar as barbas de molho de governantes e parlamentares que se deslumbram com espasmos de desenvolvimento. Sonham ter-se transformado em países de primeiro mundo da noite para o dia. São os mesmos que julgam ter chegado ao Paraíso, abusando dos superávits fiscais para gastar por conta de arrecadações futuras. Ou recorrendo ao meio mais fácil de fazer dinheiro: aumentando a carga tributária.

Incham a máquina estatal, criam cargos e benefícios, pagam salários cada vez mais altos para o funcionalismo público, oneram a folha de pagamento da previdência com aposentadorias acima da média da iniciativa privada, e depois descobrem que alguém precisa pagar a conta. Sobra para a contribuinte. Como sempre.

Assim aconteceu na Europa. Embevecidos pela lua-de-mel com o Euro, os governos se endividaram excessivamente com emprestadores estrangeiros, como grandes bancos europeus. Estes compraram bônus gregos, espanhóis, de Portugal e Irlanda. O risco parecia muito baixo. Países com economia bastante fragilizada, como a Grécia, começaram a sonhar grande, até porque ficou fácil pegar dinheiro emprestado, com custos muito baixos, para pagamento futuro. Ao se tornar parte da zona do euro, o país tomava empréstimos com risco considerado baixo, semelhante, por exemplo, ao de uma economia sólida, como a Alemanha. Foi uma festa.

A Grécia se tornou uma bomba monetária, como a chamou o jornal alemão Der Spiegel, a ponto de hoje colocar em risco toda a zona do Euro, porque gastou demais o dinheiro fácil que durante os últimos anos rolou nas margens do mar Egeu. O naufrágio da nau grega é a crônica da crise anunciada. Porque não existe almoço grátis. Chegou o dia de alguém pagar a conta. Atribui-se o agravamento da crise grega até mesmo aos gastos com a organização das Olimpíadas de 2004. O país precisava fazer bonito. Afinal, era o berço dos jogos modernos. Gastou o que não podia. Adivinhem para quem sobrou? Para a sofrida população grega, melhor dizendo para os pobres e a classe média.

O descalabro com as finanças gregas passa até por manipulação de números na década anterior. Governantes eleitos não queriam se desgastar reduzindo a burocracia onerosa do país, não pagavam a dívida, não combatiam a corrupção e as fraudes no serviço público. A Transparência Internacional considera a Grécia o país mais corrupto da União Europeia.

Além de aumentarem os privilégios trabalhistas, por conta do pseudo novo mundo lastreado em Euros, as autoridades econômicas da Grécia acabaram apostando em projetos industriais que não deram certo. Um terço da atividade econômica do país não paga impostos. A Grécia, assim como outros em situação também vulnerável, como Espanha, Portugal, Irlanda e Itália, não fez ajustes e, pior, aumentou cada vez mais sua exposição em empréstimos. Muitos credores, principalmente bancos europeus e americanos, já se contentaram em salvar pelo menos a metade do montante devido.

Ou seja, a Grécia estava vivendo como aquela família que gosta de ostentação e gasta muita grana no casamento da filha. Todo mundo acha muito bonito. Só que essa família vive agora gastando por conta do cheque-especial e do cartão de crédito. Continua frequentando restaurantes caros e viajando para o exterior. Está quebrada e espera que alguém a ajude a sair do atoleiro. Vive contraindo empréstimos em um banco, para pagar o outro. Um dia, descobre que o rei está nu.

Tudo isso para dizer que os governantes brasileiros deveriam fazer um curso de história grega. Não a mitológica e bonita história da Grécia, que até hoje nos encanta, cantada por Homero, nos poemas épicos Ilíada e Odisseia. Mas a dos últimos 15 ou 20 anos. De como governantes de um país, perdulários com os gastos, permissivos com os desmandos, apenas de olho nas eleições, um dia vão cobrar a conta do contribuinte, aquele que menos pode pagar. A ponto de estar à beira de uma convulsão social.

O Brasil voa num céu de brigadeiro em comparação a esses países. Muitos acreditam que essa viagem irá transcorrer sem turbulências e, por isso, não precisam se preocupar em cortar gastos. Afinal, se a economia está bombando, os investimentos estrangeiros continuam crescendo e Deus nos brindou ainda com reservas de petróleo que nem os brasileiros conseguem calcular, por que se preocupar?

O Congresso Nacional e o próprio governo protelam reformas que iriam preparar o Brasil para momentos difíceis, até porque ninguém garante que o país fique imune às intempéries vindas da Europa e da América do Norte. Passou a hora, portanto, de fazer o dever de casa.

Se a Grécia do jeito que está frequenta o 29º andar do IDH, nós que estamos no 84º deveríamos ficar de olhos bem abertos. Afinal, é bom não ser supreendido, após a festa, por algum presente de grego. Como o que o primeiro-ministro grego George Papandreou queria dar à União Europeia, apenas para salvar seu mandato, ao anunciar um referendo popular para aprovar oxigênio e transfusão de sangue para um paciente terminal que não consegue sair da UTI.

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