Cabral pode declarar Delta inidônea

Governador do Rio pede investigao pela Casa Civil dos contratos com a construtora de Cavendish; deciso pode afetar grandes obras do PAC no estado, como a reforma do Maracan e do Arco Metropolitano

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247 - O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB) pode ter que tomar uma das decisões mais difíceis de seu governo. Declarar a Construtora Delta inidônea. Caso isso se concretize a empresa fica impedida de participar de licitações no estado por cinco anos. Investigações dos órgãos de controle fiscal no estado também podem suspender pagamentos de contratos em andamento. Grandes obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), realizadas pela construtora, estão em andamento no estado. Exemplos são a reforma do estádio do Maracanã e trecho do Arco Metropolitano, anel viário  que tem obras divididas em etapas; primeiro trecho, com 73 km, ligará as rodovias Washington Luís e a Rio-Santos, executado em cooperação entre o Governo do estado do Rio e o Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes (Dnit), do Ministério dos Transportes.

Nesta semana o governador determinou que uma comissão avalie os contratos com a Delta no estado. É a mesma criada pelo governo para investigar e rever os contratos com empresas prestadoras de serviços médicos denunciadas pelo programa dominical Fantástico, da Rede Globo, em março deste ano.

A Casa Civil de Regis Fichtner lidera comissão que vai fazer a investigação dos contratos e do caso em questão. Disse ao site BOL que a Delta será notificada em breve e terá dez dias para se defender "em relação à possível declaração de inidoneidade".

A investigação teve como estopim gravação divulgada no site do jornalista Mino Pedrosa, em que o dono da Delta, Fernando Cavendish, diz que é possível ganhar contratos públicos com suborno à políticos.

Há muita coisa em jogo. Eleições municipais, grandes eventos internacionais que acontecerão na capital até 2016; a influência do PMDB no governo federal, da base governista e uma amizade de muitos anos. Cabral e Cavendish são amigos há tempos. Mas o escândalo pode abalar a amizade, se depender dos atos de Cabral. O dono da Delta isentou o governador do Rio de qualquer irregularidade na relação com a empresa, em entrevista concedida à jornalista da Folha de S. Paulo, Mônica Bergamo, publicada nesta segunda-feira (19). Leia abaixo trecho da entrevista que em que Cavendish fala sobre Cabral e o Rio de Janeiro.

Como a Delta conseguiu tanta obra no PAC?

Mas essa é uma sacanagem. Quando o PAC foi proposto, anunciaram R$ 250 bilhões de investimentos em quatro anos. Quando fizeram um levantamento aí em um site, houve a indicação de que a Delta estava liderando o PAC. A gente tinha faturado uns R$ 400 milhões em 2009. Mas isso era em investimentos dos ministérios. Virei líder do PAC.

Sabe quanto vão custar [as hidrelétricas de] Santo Antonio, Belo Monte, Jirau? Só Santo Antonio corresponde ao faturamento de dez anos da Delta. Como posso, com essa minha conta de retalho, de 'trocentos' contratinhos que, somados, dão R$ 800 milhões, liderar o PAC? Estou liderando p. nenhuma. Mas fica bonito, na hora de bater no PT, dizer que o líder do PAC está cheio de problemas. Esquece. Eu devo estar em décimo no ranking do PAC.

O senhor é amigo do governador do Rio, Sergio Cabral. E, no governo dele, ganhou R$ 1,4 bilhão em contratos.

Não é justo falarem isso, não é decente. Eu cresci muito mais no governo do Rio antes de ele assumir. Em 2001, 80% da carteira da Delta era do Estado do Rio.

Conheci Sergio Cabral há dez anos, por meio das nossas esposas. Eu admiro ele como governante, amigo, pai, filho, irmão. É um puta sujeito. No acidente de helicóptero em que morreram as pessoas que eu mais amo [sua mulher e filho, em 2011], eu estava com ele [Cavendish e Cabral iam a uma festa na Bahia]. Tá bom. Mas não comecei a estar com ele depois de ser governador. Nós eramos a maior empreiteira do Rio antes do governo Cabral, com Cesar Maia e Garotinho. Eu era chamado o rei do Rio. Hoje a maior é a Odebrecht.

A Delta cresceu no Rio?

Quando assumi a Delta, em 1995, levando a empresa de Recife, onde foi fundada, para o Rio, tínhamos 200 funcionários. O DNER era praticamente nosso único cliente. Nossas primeiras obras foram na prefeitura do Rio, na gestão do Cesar Maia.

Ele abriu o mercado. Não exigia qualificação técnica mais restritiva que exigisse empresas maiores. Para nós foi ótimo. A gente sabia trabalhar com custo baixo, produtividade e ter um preço muito competitivo. Só existe uma forma, pelo menos para a Delta, que era uma empresa nova, de ganhar as concorrências: disputando preço.

Isso foi dito pelo filho do Cesar Maia [Rodrigo Maia, do DEM]: "Graças à Delta, nós tivemos essa economia de orçamento". Em todas as áreas em que atuamos, quem oferece preço baixo é a Delta.

Eu não sou mais querido por isso, não. Eu sou mais odiado. Esse nível de agressividade sempre foi na contramão da cultura do mercado.

Muitos se enganam, dizem que eu sou um cara muito articulado politicamente. Mentira! Eu sou o grande articulador, lobista profissional? Isso é uma mentira.

De que estados vêm seus maiores faturamentos?

Do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde fazemos obras de conjuntos habitacionais, urbanização. Fizemos também a ampliação da Marginal [Tietê].

O escândalo prejudica os negócios?

Vou quebrar.

Será?

Vou quebrar. Quando a mídia vem com essa intensidade, existe uma reação imediata de órgãos de controle. Agora virei leproso, né? Agora eu só tenho defeitos, eu sou bandido.

O cliente [governo], que é um cliente político, abre sindicâncias para mostrar isenção. Suspende pagamentos.

Cria-se um clima péssimo na empresa. Os bancos vão suspender toda a nossa linha de crédito. Aí vem a Receita Federal. Todos precisam mostrar que a empresa tem que ser fiscalizada em todos os níveis. Não tenho caixa. Se eu não receber antes de acabar meu dinheiro, eu quebrei.

 

 

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