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Clínica onde juíza fez coleta de óvulos antes de morrer já havia sido autuada

A clínica onde a juíza realizou uma coleta de óvulos para fertilização in vitro já havia sido autuada três vezes

Mariana morreu na última quarta-feira (6/5) após o procedimento (Foto: Reprodução)

247 - A clínica onde a juíza Mariana Francisco Ferreira, de 34 anos, realizou uma coleta de óvulos para fertilização in vitro já havia sido autuada três vezes antes da morte da magistrada, em Mogi das Cruzes, na Região Metropolitana de São Paulo, e voltou a ser alvo de fiscalização da Vigilância Sanitária após o caso; as informações são do Metrópoles.

Segundo a reportagem do Metrópoles, a fiscalização ocorreu no dia seguinte à morte de Mariana, registrada na quarta-feira, 6 de maio, dois dias depois do procedimento realizado na clínica Invitro Reprodução Assistida. A inspeção avaliou as condições do estabelecimento, os processos de trabalho, os medicamentos e os insumos utilizados na unidade.

De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, a Vigilância Sanitária identificou irregularidades em alguns lotes de agulhas de aspiração. Entre os problemas apontados estavam a ausência de rastreabilidade e a falta de informações sobre fabricante, importador e registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Diante das irregularidades, foi lavrado um auto de infração, e os produtos foram interditados cautelarmente. A Vigilância Sanitária também informou que a clínica já havia recebido três autuações anteriores: duas em dezembro de 2024 e uma em dezembro de 2023, por diferentes irregularidades. Em todos os casos, foram aplicadas multas e outras penalidades.

O Metrópoles informou que procurou a clínica de reprodução assistida e aguardava retorno.

Morte após procedimento de reprodução assistida

Mariana Francisco Ferreira morreu na quarta-feira, 6 de maio, em Mogi das Cruzes. Conforme o boletim de ocorrência, ela havia passado por uma coleta de óvulos para fertilização in vitro na manhã de segunda-feira, 4 de maio, na clínica Invitro Reprodução Assistida.

Após cerca de uma hora no local, a juíza deixou a clínica. Já em casa, pouco tempo depois, começou a se queixar de frio e a gritar de dor. Ela foi levada novamente ao estabelecimento e relatou à equipe médica que havia urinado na própria roupa. Os profissionais constataram, no entanto, que havia sangramento causado por uma hemorragia vaginal.

O primeiro atendimento foi realizado pelo mesmo médico responsável pela coleta de óvulos. Ele fez uma sutura no ferimento e orientou que Mariana fosse encaminhada à Maternidade Mogi Mater, onde ficou internada em uma unidade de terapia intensiva.

No dia seguinte, a magistrada passou por uma cirurgia. Na madrugada de quarta-feira, 6 de maio, Mariana sofreu duas paradas cardiorrespiratórias. A equipe médica tentou reanimá-la, mas não teve sucesso. A morte foi declarada às 6h03.

A Polícia Civil investiga o caso e solicitou exames ao Instituto de Criminalística e ao Instituto Médico-Legal. A ocorrência foi registrada como morte suspeita no 1º Distrito Policial de Mogi das Cruzes.

Quem era Mariana Francisco Ferreira

Mariana Francisco Ferreira havia assumido havia cerca de três meses o posto no Juizado da Vara Criminal de Sapiranga, no Rio Grande do Sul. Natural de Niterói, no Rio de Janeiro, ela sonhava desde a adolescência em se tornar juíza.

A magistrada começou a se preparar para a carreira em 2018. Em 2023, foi aprovada no concurso para a 1ª Vara Judicial da Comarca de Parobé, também no Rio Grande do Sul.

Em 2025, Mariana atuou no Juizado da 1ª Vara Regional de Garantias da Comarca de Porto Alegre e, depois, na 1ª e 2ª Vara Criminal de São Luiz Gonzaga. Em fevereiro deste ano, foi designada para a Vara Criminal de Sapiranga.

No início de março, a juíza participou de uma reunião com autoridades da Polícia Civil para tratar de temas ligados à violência doméstica, como o fluxo de procedimentos, medidas protetivas de urgência e o uso de tornozeleiras eletrônicas.

Colegas destacaram a atuação da magistrada no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. “Com profunda tristeza nos despedimos da magistrada Mariana Francisco Ferreira, colega que marcou sua passagem pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul pelo zelo na apreciação das causas, pelo comprometimento com a efetividade das decisões e pelo entusiasmo e sensibilidade no exercício de suas funções”, afirmou a juíza-corregedora Viviane Castaldello Busatto, responsável pela comarca de Sapiranga.

O presidente da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul, Daniel Neves Pereira, também lamentou a morte. “Mariana era uma colega muito querida, cheia de vida e de entusiasmo pela magistratura. Sua partida causa profunda consternação em todos nós”, disse.

O tribunal gaúcho decretou luto oficial de três dias e determinou que as bandeiras fossem hasteadas a meio-mastro nos prédios do Tribunal e do Palácio da Justiça.

Especialistas apontam baixo risco no procedimento

Apesar da morte da juíza, especialistas ouvidos pelo Metrópoles afirmaram que a coleta de óvulos é considerada um procedimento de baixo risco. Segundo a Associação Brasileira de Reprodução Assistida, 1,6 milhão de coletas foram realizadas nos últimos três anos, com risco de complicações graves estimado em 0,1%.

A fertilização in vitro envolve quatro etapas. Primeiro, a paciente passa por estimulação hormonal para produzir mais óvulos. Depois, os óvulos são coletados com o auxílio de uma agulha e de ultrassom. Em seguida, os gametas são fertilizados e cultivados em laboratório. Por fim, um ou mais embriões são transferidos para o útero.

“As complicações são bem raras, felizmente. Os principais riscos dessas complicações são sangramento, infecção, lesão em órgãos próximos, como bexiga, intestino, e a síndrome da hiperestimulação ovariana, que são pacientes que têm uma resposta ovariana acentuada”, explicou a médica Mylena Rocha, especialista em reprodução assistida e integrante da diretoria da SBRA.

A médica também ressaltou que o procedimento, embora considerado simples, é invasivo. “É uma aspiração com agulha, você pode acidentalmente perfurar algum vaso, alguma estrutura adjacente ao ovário. Mas são riscos inerentes a qualquer procedimento cirúrgico e invasivo como esse.”

O coordenador do Centro de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas da USP, Pedro Augusto Araújo Monteleone, afirmou que dores leves após o procedimento podem ocorrer. Ele destacou, porém, que sintomas mais intensos devem ser tratados como alerta. “Mas, se for um desconforto muito forte, um quadro de dor significativo com queda de pressão, é um sinal de alerta e de complicação. Aí a paciente precisa ser submetida a uma laparoscopia para lavar a cavidade e cauterizar o ovário.”

Os especialistas também defenderam a importância de procurar clínicas com suporte hospitalar, equipes médicas adequadas e vínculo com entidades como a SBRA e a Rede Latinoamericana de Fertilização Assistida, que estabelecem critérios de segurança para as pacientes.

“É um momento em que a gente se solidariza com a família. É lamentável a perda dessa paciente tão jovem, com o sonho da maternidade. Mas isso não pode desanimar as outras mulheres a fazerem o tratamento, porque o risco é muito baixo, realmente”, afirmou Mylena Rocha.