Expansão do Comando Vermelho em Paraty afeta moradores, comércio e turismo
Paraty convive com o avanço do crime organizado e com o desafio de retomar o controle de territórios
247 - A presença cada vez mais consolidada do Comando Vermelho em Paraty, na Costa Verde fluminense, tem mudado a rotina de moradores, pressionado pequenos comércios e alcançado até pontos turísticos frequentados por visitantes do Brasil e do exterior. Em bairros próximos ao Centro Histórico, a violência e a exploração de atividades econômicas passaram a fazer parte do cotidiano, enquanto relatos de expulsões e extorsões se multiplicam.
As informações foram publicadas originalmente pelo jornal O Globo, em reportagem assinada por Bruna Martins. O levantamento mostra que a facção, agora estabilizada na cidade, ampliou seu domínio territorial e econômico, reproduzindo dinâmicas já vistas na capital fluminense e em outras regiões do estado.
Na Praça da Paz, inaugurada em 2016 e que abriga pista de skate, parquinho e quadra de futebol, o cenário descrito por moradores é de abandono e medo. Localizada a poucos minutos do Centro Histórico, a área fica entre as comunidades da Ilha das Cobras e da Mangueira, que começaram a ser disputadas por facções por volta de 2010 e 2011, período de implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no Rio de Janeiro. Na época, o Comando Vermelho atuava na Ilha das Cobras, enquanto o Terceiro Comando Puro ocupava a Mangueira.
Os confrontos entre os grupos marcaram aquela fase. Alice, nome fictício usado para preservar a identidade de uma moradora da Mangueira, conta que perdeu ao menos 20 amigos, todos adolescentes, envolvidos com o tráfico. Um deles, segundo ela, foi morto dentro de um mercado do bairro poucos dias depois de confidenciar que queria abandonar o crime. “— Minha casa vivia cheia de amigos. Ela foi se esvaziando, não sobrou ninguém. As pessoas acham que Paraty se resume ao Centro Histórico, às praias e ilhas, mas ninguém sabe o que acontece do outro lado. Quando você chega à praça (da Paz), percebe que o clima muda. Existe um silêncio, um vazio, é muito triste. Eu guardo um monte de histórias desse lugar, acompanhei a mudança, vi muita gente morrer. Já fiquei presa em tiroteio enquanto ia para a escola, encontrei gente morta pelo chão — afirma a jovem.”
Em 2021, o Comando Vermelho assumiu o controle da Mangueira após o assassinato de lideranças da facção rival. A mudança resultou em uma série de expulsões de moradores, incluindo Alice e sua família, que foram obrigados a deixar a casa e o pequeno comércio que mantinham no bairro. “— Eles chegaram armados, nos deram 24 horas para ir embora. Saímos com a roupa do corpo e nossos cachorros. Foi muito duro. Imagina deixar a casa que você lutou a vida toda para construir. A gente não pode mais voltar, mas, mesmo que pudéssemos, não voltaríamos, não sabemos o que pode acontecer. Mas é meu bairro, é onde eu nasci, fiz amigos. A tristeza maior é saber que não precisava ter chegado a esse ponto. Não há políticas públicas voltadas para nós. É só esquecimento — completa.”
As expulsões continuam sendo investigadas pela 167ª Delegacia de Polícia. Um dos casos ocorreu no fim do ano passado no Morro do Ditão, às margens da Rodovia Rio-Santos, onde traficantes teriam ameaçado uma moradora com uma arma, acusando-a de ser informante. A Polícia Civil apura também outros episódios ligados à expansão territorial da facção.
Jorge, outro morador da Mangueira que também pediu para não ter o nome verdadeiro divulgado, relata que a venda de drogas aumentou nas ruas internas do bairro e que muitos dos envolvidos são adolescentes. Dados do Instituto de Segurança Pública indicam que, no ano passado, 48 menores foram apreendidos em flagrante na cidade, contra 28 em 2024. “— Está muito ruim morar aqui. O tráfico está tomando tudo. Eu até evito passar por algumas ruas, e olha que eu conheço todo mundo. Canso de ver carro de bacana entrando aqui, tudo para o pessoal comprar droga. Gastam R$ 500, R$ 600 de uma vez só. Estava com medo de que meus filhos se envolvessem ou que acontecesse alguma coisa contra eles. Achei melhor mandá-los para outro estado, onde também tenho família — explica.”
Sob anonimato, um policial civil da região afirmou que o Comando Vermelho, já estabilizado em Paraty, passou a explorar atividades econômicas nos bairros, como ocorre em áreas dominadas pela facção na capital. Esse controle, segundo ele, também interfere em serviços básicos. No Condado, a cerca de cinco quilômetros do centro, um professor da rede pública relata que ônibus municipais deixaram de circular nas áreas internas e passam apenas pela via principal.
A atuação do grupo criminoso também chegou a áreas turísticas como a Praia do Sono e Trindade, conhecidas pela cultura alternativa e pelo fluxo constante de visitantes. Relatos apontam que traficantes teriam tentado extorquir barqueiros e donos de estacionamentos e até cobrar valores indevidos de turistas para acesso aos locais. Em alguns episódios, a situação foi contida pelos próprios moradores caiçaras, que se organizaram para enfrentar os criminosos.
Na 167ª DP, há ao menos seis investigações em andamento sobre a exploração territorial do Comando Vermelho em diferentes pontos da região, como Paraty-Mirim, Costeira, Ponta Negra, Praia de Cajaíba, Juatinga e Calhau. As apurações incluem suspeitas de cobrança de percentuais sobre a venda de terrenos e imóveis e de extorsão a empresas de turismo no Cais de Paraty, de onde partem escunas de passeio. No Centro Histórico, principal cartão-postal da cidade, ainda não há denúncias formais.
A gravidade da situação levou a uma reunião pública na Câmara Municipal no dia 19, quando moradores e autoridades discutiram a falta de um posto de polícia comunitária em Trindade, a ausência de atuação do ICMBio em áreas de reserva e a escalada da violência ligada ao tráfico. No encontro, o prefeito Zezé (Republicanos) lamentou a ausência de um juiz no município, e o comandante da Segunda Companhia Independente da Polícia Militar, tenente-coronel Lourival Belitardo, anunciou o reforço de 90 agentes a partir de março.
Além da violência, moradores apontam outros problemas estruturais que agravam a vida em Paraty, como o alto custo dos aluguéis. “— Um casa de dois quartos custa mais de R$ 2 mil por mês. Se consideramos que a maioria ganha só um salário mínimo, percebemos que é inviável a vida por aqui. Nós, paratienses, não temos acesso aos equipamentos culturais da cidade, ninguém frequenta o Centro Histórico por lazer, mas somos nós que fazemos com que funcione. Vivemos do lado de cá, à margem — diz Alice.”
Entre o contraste das paisagens que atraem turistas e a realidade enfrentada por quem vive nos bairros mais afastados, Paraty convive com o avanço do crime organizado e com o desafio de retomar o controle de territórios onde o Estado, segundo moradores, chega cada vez menos.