Fundador do Jornal Voz das Comunidades, no Alemão, é preso
O jovem comunicador e ativista Rene Silva, fundador do jornal comunitário Voz das Comunidades, do Complexo do Alemão, zona norte do Rio, foi preso pela PM enquanto filmava a remoção da Favelinha Skol, na região; ele foi liberado à tarde, após prestar depoimento, assim como o fotógrafo Renato Moura, que também preso na ação; de acordo com a advogada Eloisa Samy, que representava os jovens, eles foram acusados de desobediência; na avaliação dela, houve violação à liberdade de imprensa e censura nas prisões
Isabela Vieira - Repórter da Agência Brasil
O jovem comunicador e ativista Rene Silva, fundador e editor-chefe do jornal comunitário Voz das Comunidades, do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, foi preso pela Polícia Militar, enquanto filmava a remoção da Favelinha Skol, na região. Ele foi levado para a 45ª Delegacia de Polícia, junto com o midiativista e fotógrafo Renato Moura. Os dois faziam a cobertura da remoção para o Voz das Comunidades.
A denúncia da prisão foi feita ao vivo na página do Facebook de outro comunicador popular da comunidade, Raull Santiago, do Coletivo Papo Reto, que também acompanhava a remoção. O jovem foi liberado à tarde, após prestar depoimento. O fotógrafo Renato Moura também foi solto pela polícia.
Presidente da organização não governamental Voz das Comunidades, Rene é um dos 30 jovens até 30 anos escolhidos pela Revista Forbes Brasil como "exemplo de um time que está reiventando um país".
De acordo com a advogada Eloisa Samy, que esteve na delegacia para representar os jovens, eles foram acusados de desobediência e foram liberados após prestar depoimento. No entanto, na avaliação dela, houve violação à liberdade de imprensa e censura nas prisões. "Isso que eu pedi para eles enfatizarem nos depoimentos: deixar claro que atuavam como imprensa".
No vídeo divulgado nas redes sociais sobre o momento da abordagem policial, os jovens estavam filmando e narrando a remoção, contando sobre a situação dos moradores da favelinha, quando a PM se aproximou e pediu que eles saíssem. O pedido foi recusado. Não há cenas da prisão.
A PM, segundo os jovens, também ordenou que desligassem os equipamentos, para que a remoção não fosse registrada. "Um dos policiais arrancou o celular da minha mão e eu fui atrás, nesse momento ele me deu voz de prisão por estar desobedecendo ordem. Nisso, fui algemado e levado para a delegacia. Ainda no carro, pediram meu celular novamente, que já estava com eles", disse Rene Silva, ao Jornal Voz das Comunidades, após ser liberado.
Os comunicadores comunitários de favelas do Rio de Janeiro vêm denunciando censura e ameaças à liberdade de imprensa e expressão por agentes do Estado, policiais ou não, e do tráfico de drogas. No mais recente relatório do Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro, de outubro de 2015, constam relatos de ameaças, revistas e até a necessidade de se mudar de casa.
No dossiê, a comunicadora comunitária e coordenadora do jornal comunitário que circula há 16 anos no Complexo da Maré, O Cidadão, Thaís Cavalcante, revela que fazer comunicação dentro das favelas é um desafio e pode acabar colocando a própria vida em risco. "A comunicação que, dentro da favela, é mais delicada do que a que temos em outros lugares. Além de jornalistas, somos moradores. O cuidado é redobrado e tudo nos envolve emocionalmente também".
Em abril deste ano no Rio, para um encontro entre jovens comunicadores de favelas, Enderson Araújo, do Mídia Periférica, da favela Sussuarana, de Salvador, ex-integrante do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação, denunciou ter sido intimidado pela PM, no Alemão. Três policiais portando fuzil revistaram e interrogaram Enderson. À época, notas de repúdio foram publicadas por organizações de defesa dos direitos humanos e de liberdade de imprensa e expressão.
Rene Silva é liberado após depoimento e relata prisão por meio de rede social
A soltura foi anunciada à tarde pelo Voz das Comunidades e pelo ativista em suas contas no Twitter. Em uma postagem publicada logo após ser liberado, Rene Silva relatou o momento da prisão.
"Estamos bem! Acabamos de prestar depoimento na delegacia e nos disseram que fomos levados por desobediência. Estávamos mostrando os moradores. Policiais nos levaram, dizendo que estávamos invadindo o terreno e desobedecemos a ordem de não entrar, mas eles pegaram antes meu celular. Um dos policiais arrancou o celular da minha mão e eu fui atrás, nesse momento ele me deu voz de prisão por estar desobedecendo ordem", contou.
A prisão dos ativistas se tornou o assunto do momento no Twitter, com muitas menções e postagens sobre o assunto. Personalidades como Ana Moser e Glória Peres se manifestaram pela rede social em protesto pela prisão de Rene Silva e Renato Moura.
A denúncia da prisão foi feita ao vivo na página do Facebook de outro comunicador popular da comunidade, Raull Santiago, do Coletivo Papo Reto, que também acompanhava a remoção.
Procuradas, as polícias Civil e Militar ainda não comentaram a prisão dos jovens.
Presidente da organização não governamental Voz das Comunidades, Rene é um dos 30 jovens até 30 anos escolhidos pela Revista Forbes Brasil como "exemplo de um time que está reinventando um país".
Denúncias
Os comunicadores comunitários de favelas do Rio de Janeiro vêm denunciando censura e ameaças à liberdade de imprensa e expressão por agentes do Estado, policiais ou não, e do tráfico de drogas. No mais recente relatório do Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro, de outubro de 2015, constam relatos de ameaças, revistas e até a necessidade de se mudar de casa.
No dossiê, a comunicadora comunitária e coordenadora do jornal comunitário O Cidadão, que circula há 16 anos no Complexo da Maré, Thaís Cavalcante, diz que fazer comunicação dentro das favelas é um desafio e pode acabar colocando a própria vida em risco. "A comunicação dentro da favela é mais delicada do que a que temos em outros lugares. Além de jornalistas, somos moradores. O cuidado é redobrado e tudo nos envolve emocionalmente também."
Em abril deste ano, o ex-integrante do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação e comunicador Enderson Araújo, do Mídia Periférica, da favela Sussuarana, de Salvador, denunciou ter sido intimidado pela PM no Complexo do Alemão. Segundo ele, três policiais portando fuzis o revistaram e o interrogaram. Na época, notas de repúdio foram publicadas por organizações de defesa dos direitos humanos e de liberdade de imprensa e expressão.
* Com informações de Isabela Vieira, do Rio de Janeiro
