Investigação apura suposto elo entre ex-comandante da PM de São Paulo, policiais e PCC
Depoimento à Corregedoria cita ex-comandante da PM e detalha suposto esquema de escolta e apoio a empresa de ônibus ligada à facção criminosa
247 - Uma investigação da Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo colocou o ex-comandante-geral da corporação, coronel José Augusto Coutinho, no centro de um inquérito que apura a ligação entre policiais militares e o Primeiro Comando da Capital (PCC). As informações foram reveladas pelo jornal O Globo e têm como base depoimentos e documentos obtidos pela reportagem.
O caso envolve suspeitas de que agentes da PM atuaram na escolta de uma empresa de ônibus investigada por ligação com a facção criminosa, além de indícios de que práticas ilegais teriam sido toleradas dentro da corporação. A apuração ganhou força após a divulgação do depoimento de um sargento preso sob acusação de envolvimento com o grupo criminoso.
Segundo relato prestado em janeiro à Corregedoria, o sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário afirmou que, em 2020, quando Coutinho comandava a Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), teria sido incentivado a permanecer na unidade mesmo diante de questionamentos sobre sua atuação fora do serviço. Ele relatou a conversa da seguinte forma: "Ó, chefe. É isso, isso, isso. Assim, assim, assado". E acrescentou a resposta que teria ouvido: "Romano, eu não posso obrigar você a sair da Rota. Por quê? Meu irmão faz bico até hoje. Meu pai sustentou a gente fazendo bico. A gente sabe que as coisas estão difíceis. Porém, pelo que está aqui, tem bandido fazendo bico lá".
Ainda conforme o depoimento, Coutinho teria orientado o policial a refletir antes de pedir transferência. "Você pensa se quer mesmo ir embora para a escola de sargento, porque depois não consigo trazer você de volta", teria dito o então comandante. Romano afirmou que decidiu deixar a unidade e solicitou transferência para o 19º Batalhão do Interior, o que foi atendido. Ele declarou: "O coronel Coutinho, muito honrado, viu que, tipo assim, 'mano, injustiça fazer isso com o cara. O cara tá trampando, tá trabalhando honestamente'. Ele, com certeza, mexeu a mão e me mandou exatamente pra onde eu queria. Pro 19".
A Corregedoria aponta que ao menos sete policiais militares teriam aderido de forma "consciente e voluntária" a um esquema vinculado ao PCC, contribuindo para a continuidade de atividades empresariais usadas para lavagem de dinheiro. Entre as práticas investigadas estão a realização de escoltas para diretores da empresa e o recebimento de pagamentos por meio de notas fiscais fraudulentas.
O sargento Romano foi preso em fevereiro, acusado de prestar segurança privada a dirigentes da empresa Transwolff, posteriormente afastada do sistema de transporte público da capital paulista após a Operação Fim da Linha, deflagrada pelo Ministério Público em abril de 2024. As investigações indicam que o PCC teria investido cerca de R$ 54 milhões na empresa para viabilizar sua participação em licitações. Em dezembro de 2025, a prefeitura declarou a caducidade dos contratos da companhia.
Outro ponto que agravou a situação do ex-comandante envolve suspeitas de vazamento de informações dentro da corporação. De acordo com autoridades ouvidas pela reportagem, Coutinho teria sido alertado sobre o problema durante sua gestão na Rota, mas não teria adotado providências. O episódio estaria relacionado à fuga de Marcos Roberto de Almeida, conhecido como Tuta, apontado como líder do PCC fora do sistema prisional, durante a Operação Sharks, em 2020.
As investigações também apuram se policiais receberam valores para facilitar a fuga do criminoso. Segundo apuração, Tuta teria afirmado ter pago R$ 5 milhões a integrantes da Rota em troca de informações sigilosas. O montante teria sido dividido em parcelas, com uma entrada de R$ 2 milhões. Em um áudio atribuído ao criminoso, ele afirma: "O pessoal da R (em suposta referência à Rota) salvou minha vida na Sharks".
A crise interna resultou na exoneração de coronéis da Polícia Militar, incluindo nomes ligados à área de inteligência e à Corregedoria. A decisão de afastamento desses oficiais, segundo a reportagem, teria partido do próprio Coutinho.
Em nota, a defesa do ex-comandante afirmou que ele não teve acesso aos autos da investigação e reiterou sua conduta. O texto diz que o coronel possui "absoluta idoneidade" e destaca seus 34 anos de carreira sem envolvimento em irregularidades.
A Secretaria de Comunicação do governo de São Paulo informou que não comenta investigações em andamento, mas ressaltou que os procedimentos são conduzidos com rigor técnico e respeito ao devido processo legal. Já o governador Tarcísio de Freitas afirmou que a saída de Coutinho da corporação ocorreu a pedido do próprio oficial. "Não tem nada a ver. O coronel Coutinho tem uma reputação ilibada, é uma pessoa que sempre prestou excelente serviço na Polícia Militar. Essas trocas são comuns. Eu acho que o coronel cumpriu muito bem o papel dele (...). Ele pediu (para sair), mas não por causa disso. É absolutamente inconsistente. Ele não tem nada a ver com esse negócio".