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Ocupa MinC no Rio é foco de resistência em meio a onda de retrocessos

Numa enxurrada de notícias sobre retrocessos sociais de um governo ilegítimo e áudios bombásticos revelando os esgotos de uma politica velha, o foco de resistência do Ocupa MinC RJ surge no horizonte como um bunker de salvação na cidade do Rio de Janeiro; o pátio do Palácio Gustavo Capanema é uma explosão de vida e alegria, a política é feita com leveza, e frequentar este espaço tem trazido esperança na atual conjuntura sem deixar de exercer uma pressão real no governo; um relato de Tracy Segal atriz, dramaturga e jornalista

Numa enxurrada de notícias sobre retrocessos sociais de um governo ilegítimo e áudios bombásticos revelando os esgotos de uma politica velha, o foco de resistência do Ocupa MinC RJ surge no horizonte como um bunker de salvação na cidade do Rio de Janeiro; o pátio do Palácio Gustavo Capanema é uma explosão de vida e alegria, a política é feita com leveza, e frequentar este espaço tem trazido esperança na atual conjuntura sem deixar de exercer uma pressão real no governo; um relato de Tracy Segal atriz, dramaturga e jornalista (Foto: Gisele Federicce)

Por *Tracy Segal, para o Brasil 247

Numa enxurrada de notícias sobre retrocessos sociais de um governo ilegítimo e áudios bombásticos revelando os esgotos de uma politica velha, o foco de resistência do Ocupa MinC RJ surge no horizonte como um bunker de salvação na cidade do Rio de Janeiro. O pátio do Palácio Gustavo Capanema é uma explosão de vida e alegria, a política é feita com leveza, e frequentar este espaço tem trazido esperança na atual conjuntura sem deixar de exercer uma pressão real no governo.

A Ocupação do Capanema, há 17 dias, para além da resistência política é em si um acontecimento. É preciso equalizar as diferenças sob um mesmo teto. A atriz Isabel Gomide, que está morando na ocupação desde o primeiro dia, ressalta a pluralidade e suas consequências: "o exercício com várias vozes é aprender a ouvir, tem que ter generosidade. Não ser cooptado por nenhuma voz e não se fechar também. O processo não é fácil, mas é rico".

A Ocupação é um microcosmo de uma democracia utópica, todas as decisões são coletivas, deliberadas através de consenso em "planetárias", todas as manhãs. Chamar de planetárias as reuniões surgiu da reclamação do diretor e professor Marcus Galiña dessas nomenclaturas com cheiro de século passado.

A experiência dos membros da rede de coletivos Fora do Eixo/Mídia Ninja foi fundamental para a organização prática da Ocupação, em razão da experiência anterior deles com moradias coletivas. O que para eles é inédito nessa ocupação é a diversidade de idades e ter pessoas com a demanda de uma vida externa. Na experiência de moradia do Fora do Eixo todos têm dedicação exclusiva, além de serem, em geral, jovens na faixa dos vinte anos. A não hierarquização gera uma estrutura onde a plenária, no caso planetária, é quem lidera. As planetárias são longas e precisam de paciência, e como disse Felipe Altenberg do Fora do Eixo/Mídia Ninja, o consenso é fundamental: "Se você submete uma construção coletiva por votação você tritura. Por que o papo do corredor começa a virar conversa de trocar voto, e isso vira o Congresso nacional". É uma ocupação que alcançou rapidamente um alto nível de gestão de estrutura: "Isso também tá ligado ao estofo que essas pessoas tem de cuidar de espaços culturais. É uma ocupação com um alto índice de CNPJ. A gente agora tá entrando na fase de aprofundamento da politização e dos debates conceituais. O encontro de forças dispares dessa ocupação tem gerado uma potência".

Ao chegar à entrada do prédio, na noite de segunda feira 30 de maio, o "segurança" era o palhaço Godot (Vitor Ferreira) com seu boné vermelho da CUT. Ex-metalúrgico, militante há 30 anos, que pegava a identidade e nome de todos que entravam no prédio. "Aqui tem uma concentração de vários. Uma comuna. A Comuna de Paris é aqui".

Bruno Falci, historiador de cinema e militante do PT há mais de 10 anos, reforça o discurso da diversidade e da escuta: "Está sendo das melhores experiências em política que tive. Aqui pensamos além de nossas posições. Aqui se abraçam todos os movimentos: mulheres, igualdade social, desenvolvimento agrário, CGU, sindicato dos petroleiros. Espero levar esta escuta para fora daqui".

A multiplicidade afina no grito de guerra Fora Temer, pelo restabelecimento e avanço da democracia e contra o retrocesso político, econômico, cultural e social. Essa voz abalou os alicerces do governo interino, sendo responsável pelo primeiro recuo de Temer, com a volta do MinC, na tentativa de calar os artistas. Na ocupação não se referem ao Michel Temer como interino, mas como ilegítimo. Interino já seria dar alguma legitimidade a um governo golpista.

"No meu país, eu boto fé, por que ele é governado por mulher!" (canto repetido nos atos, autoria desconhecida)

É visível a insurgência de uma força feminina na Ocupação. Na plenária pública "Somos muitas vozes", ocorrida no dia 30/5, foi organizada e mediada, sobretudo, por mulheres. A voz feminina tem ecoado forte contra a misoginia sem vergonha de um governo formado somente por homens brancos. A professora e gestora cultural Ivana Bentes, exonerada hoje (2/6) do cargo de Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura do Brasil no Golpe de 2016, que estava presente nessa plenária pública que uniu o Ocupa MinC RJ com O Povo sem Medo (união de mais de 30 organizações de esquerda) e a Frente Brasil Popular (união de mais 50 organizações de esquerda) denunciou que o golpe foi contra as bordas. Ivana defendeu que as políticas culturais junto às políticas de redistribuição de renda são as responsáveis pela mudança de mentalidade.

A saída é pela esquerda unida em uma diversidade de vozes.

Por dentro do Ocupa MinC. Sob a proteção dos Modernistas

O anúncio do fim do MinC gerou uma reação imediata e em série por todo o país. Aqui no Rio de janeiro surgia a ideia de ocupar o Palácio, enquanto em Curitiba já estavam articulando a invasão do prédio do Iphan, em menos de dez dias todos os estados brasileiros já tinham um prédio público ocupado. A primeira precaução foi ocupar a Sala Portinari, o que garantiria a segurança dos ocupantes no caso de uma desocupação à força. Os artistas dividem o espaço com obras de valor inestimável como o famoso tapete do Oscar Niemeyer ou o mural Guerra e Paz, de Portinari. "Aqui temos a garantia de que ninguém virá com violência, as obras são preciosas", disse a bailarina Andréa Chiesorini.
Na sala Portinari fica a infraestrutura de cozinha e um grupo de pessoas que pernoitem enquanto no mezanino um outro grupo acampa em barracas. A organização se divide em grupos de trabalhos com responsabilidades organizadas em segurança, infraestrutura, jurídico, programação e comunicação.

A atividade é ininterrupta, não se vê ócio na ocupação. São atividades acontecendo simultaneamente pelo espaço. Ensaios, aulas, oficinas, pessoas da organização circulando. Todos são bem vindos para usar o espaço e para se apresentar. A gestão cultural é totalmente democrática e essa curadoria espontânea tem trazido uma programação cultural de alta qualidade (elogiada até pelo ministro ilegítimo da cultura), como os shows de artistas celebres e desconhecidos, performances, peças de teatro, saraus de poesia, palhaçarias, entre outras manifestações. A força política que tem movido essas apresentações traz uma potência transformadora para a cena artística da cidade do Rio de Janeiro. A alegria é uma característica que exala da ocupação. A alegria é revolucionária.

Esquerda em festa no front

A atriz Cristina Flores percebe na festa um lugar para compartilhar, a festa não é um adjetivo: "Nós somos os inclusivos e eles são os excludentes. A nossa resposta não pode reforçar, legitimar o que a gente percebe de erro. A resposta tem que ser o que a gente quer estabelecer no mundo, um corpo vivo potente, um corpo brincante. Não posso agir como um Cunha contra um Cunha", afirma.
Nos idos dos anos 1960 surgiu o termo "esquerda festiva", ou somente "festiva" como o dramaturgo Nelson Rodrigues usava em suas crônicas para se referir aos boêmios de esquerda, com sua melancolia dissolvida no álcool, balançando entre as mesas do bar Antonio's no Leblon, reduto de intelectuais da época. Neste período a esquerda "de verdade" desdenhava da "esquerda festiva" formada por intelectuais que bradavam em festas contra a ditadura, levantando seus copos sem abdicar da alegria, sem a seriedade sombria, sem empunhar armas.
Hoje a alegria se prova revolucionária.

As esquerdas se fundem, a festa se torna guerrilha, a alegria é arma de largo alcance.

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*Tracy Segal, 44, graduanda em teoria do teatro pela Unirio, é atriz, dramaturga e jornalista.