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Prioridades? Jornalista da Globo é alvo de moção de vereadores bolsonaristas por usar camisa da Taylor Swift

Tema provocou críticas sobre prioridades do Legislativo

A jornalista belo-horizontina Mariana Spinelli, repórter e apresentadora do canal Ge TV, do Grupo Globo, tornou-se alvo de uma moção de repúdio (Foto: Reprodução)

247 - A jornalista belo-horizontina Mariana Spinelli, repórter e apresentadora do canal Ge TV, do Grupo Globo, tornou-se alvo de uma moção de repúdio apresentada por vereadores de Uberlândia, no Triângulo Mineiro. O episódio ocorreu após a profissional aparecer em uma transmissão esportiva usando uma camiseta com uma imagem editada que mistura o corpo de Jesus Cristo com o rosto da cantora pop norte-americana Taylor Swift. As informações foram divulgadas inicialmente pelo jornalista Rafael Cyrne, do portal No Ataque.

A proposta foi apresentada na terça-feira (10) na Câmara Municipal de Uberlândia e acabou rejeitada após discussão entre parlamentares. O documento criticava a atitude da jornalista durante a transmissão de uma partida da National Football League (NFL), a principal liga de futebol americano dos Estados Unidos.

Durante a cobertura do jogo entre Los Angeles Chargers e Kansas City Chiefs, realizado na Neo Química Arena, em São Paulo, Spinelli vestiu uma camiseta branca com a imagem alterada. Fã declarada de Taylor Swift, a jornalista utilizou a peça também por causa da ligação da artista com o time de Kansas City: o tight end Travis Kelce, um dos principais jogadores dos Chiefs, é noivo da cantora.

A iniciativa da moção de repúdio partiu da vereadora Janaína Guimarães (PL), acompanhada por outros parlamentares: Adriano Zago (Avante), Anderson Lima (DC), Antônio Carrijo (PSDB), Edinho Combate ao Câncer (Democrata), Gláucia da Saúde (PL), Ivan Nunes (PP), Pezão do Esporte (DC) e Sargento Ednaldo (PP). O texto da proposta criticava diretamente a jornalista e o uso da camiseta.

“Moção de repúdio à atitude da repórter da Rede Globo Mariana Spinelli, que em plena transmissão esportiva exibiu camiseta do Sagrado Coração de Jesus adulterada, substituindo pela imagem da cantora pop Taylor Swift”, diz o documento apresentado na Casa.

Durante a sessão, Janaína Guimarães defendeu a iniciativa e afirmou que o objetivo era proteger símbolos religiosos. A parlamentar demonstrou indignação com a reação de colegas no plenário.

“A gente ter que colocar um projeto aqui para proteger a imagem de Jesus Cristo. E muito me assusta alguns dos colegas aqui usarem isso de zombaria e ficarem rindo aqui no plenário. Eu, sim, tenho a minha religião, e vou proteger a imagem de Jesus Cristo onde quer que eu esteja”.

A vereadora também criticou o tempo que levou para a proposta chegar à pauta da Câmara e reforçou que, para ela, o tema deveria ser tratado com seriedade.

“Isso mostra o quanto nós estamos atrasados em colocar os projetos aqui. Alguns dos colegas vereadores que assinaram essa moção de repúdio comigo – lembrando que isso não é uma lei – não estavam lembrando disso e vieram me perguntar. Mas sabe por quê? Isso foi em setembro de 2025. E essa casa de leis está demorando em simplesmente chegar aqui”.

Ela ainda lamentou a reação de parte dos parlamentares e afirmou que o debate envolve respeito à fé cristã.

“E eu lamento profundamente que tantos aqui, somos 27, tantos somos cristãos, e na hora de um projeto tão sério quanto isso, que é a imagem de Jesus Cristo, vilipendiar a imagem de Jesus Cristo, é usado de zombaria e críticas nos bastidores. É lamentável que essa casa de leis passe por isso. Mas espero que a população de Uberlândia comece a enxergar quem realmente é cristão e comece a defender a imagem de Jesus Cristo”.

A discussão, no entanto, gerou críticas dentro do próprio plenário. A vereadora Amanda Gondim (PSB) questionou a relevância do tema diante de problemas enfrentados pela cidade e ironizou o debate.

“Nunca achei que fosse subir aqui nesta tribuna para falar de Taylor Swift (gargalhadas). Vocês não tem o que fazer não? A cidade está cheia de problemas, tem um turbilhão de coisas acontecendo, importantes. e a gente é pego de surpresa com uma nota de repúdio por uma camiseta que uma pessoa estava usando. Mas os senhores não são a favor da liberdade de expressão? Agora então só pode se expressar no que for conveniente para vocês?”.

A parlamentar também criticou o fato de o tema ter sido levado para votação no Legislativo municipal.

“A gente tem que ter pelo menos o senso do ridículo quando ocupamos um cargo público, quando somos representantes do Legislativo. Um negócio desses chegar para votação, está na pauta, escrito, fiquei constrangida pelo vereador Elinho (Mobiliza) ter que ler esse negócio. Não, gente, tem que ter o mínimo de decoro aqui nesta casa, vergonha, pelo amor de Deus”.

Após o debate entre os vereadores, a moção de repúdio acabou rejeitada pela Câmara Municipal de Uberlândia. O episódio, no entanto, repercutiu nas redes sociais e ampliou a discussão sobre liberdade de expressão, religião e as prioridades do debate político nos legislativos municipais brasileiros.