Secretaria de Tarcísio não localiza R$ 23 milhões em materiais
Auditoria do TCE-SP revela falhas graves no controle de estoque e leva pasta a prometer sindicância e reforço na gestão patrimonial
247 - A Secretaria de Esportes do governo de Tarcísio de Freitas não conseguiu identificar o destino de R$ 23 milhões em materiais adquiridos pela pasta. A informação foi revelada em reportagem da Folha de S.Paulo, com base em documentos obtidos via Lei de Acesso à Informação.
O problema veio à tona após um inventário do almoxarifado, solicitado pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP). A comissão responsável encontrou notas de empenho que somavam R$ 51,5 milhões em compras, mas localizou apenas R$ 16,7 milhões em materiais armazenados fisicamente. Posteriormente, a secretaria conseguiu rastrear outros R$ 11,5 milhões, parte deles destinados a doações. Ainda assim, permaneceu uma diferença significativa sem explicação.
Em nota enviada à reportagem, a pasta afirmou que determinou “a implementação de medidas aprimoradas de controle, rastreamento e gestão patrimonial”. Também declarou que reafirma “seu compromisso com a correta aplicação dos recursos públicos e com a transparência de suas ações”. Segundo o órgão, está em elaboração um relatório preliminar que deve subsidiar a abertura de sindicância.
Para o professor de direito administrativo da USP, Vitor Schirato, a apuração deveria ter sido iniciada imediatamente. “Imagina uma empresa privada com uma diferença de estoque de milhões. Põe metade da empresa na rua no dia seguinte”, afirmou. Ele ressalta que a sindicância não tem apenas caráter punitivo, mas serve para esclarecer os fatos.
As inconsistências já haviam sido apontadas no início de 2025, durante a análise das contas da secretaria referentes ao ano anterior. O TCE-SP identificou divergência entre os registros do almoxarifado e os dados do Siafem, sistema de controle orçamentário do estado. O tribunal também destacou a inexistência de um sistema adequado de controle de estoque, em desacordo com a legislação vigente.
Apesar das falhas, o conselheiro Sidney Estanislau Beraldo votou pela aprovação do balanço, com ressalvas e recomendação de correções.
A crise se aprofundou após a criação de uma comissão de inventário, em abril de 2025, determinada pela então secretária Helena Reis. Em junho, o coordenador do grupo, Sergio Soares, registrou uma discrepância de R$ 34,7 milhões entre os materiais encontrados em três endereços da secretaria e os valores contabilizados.
O relatório apontou “falta de zelo” e desorganização no armazenamento, com caixas abertas e empilhadas de forma inadequada. Também foi destacada a inexistência de qualquer controle físico ou contábil eficiente dos itens.
A comissão tentou obter comprovantes de doações junto a diferentes setores da secretaria, mas apenas uma servidora respondeu ao pedido. Em julho, o então secretário-executivo José Ribeiro Lemos Junior determinou uma série de medidas urgentes para corrigir as falhas e exigiu um plano de ação detalhado — que não foi apresentado.
Em outubro, uma nova equipe foi criada para aprofundar a apuração do rombo. No despacho, Lemos indicou que valores sem comprovação documental seriam objeto de investigação preliminar.
Dois meses depois, o subsecretário Marcelo Nanya informou ter localizado materiais no valor de R$ 11,5 milhões. Parte correspondia a doações e parte a itens utilizados em eventos esportivos. Questionada sobre os beneficiários, a secretaria afirmou que os materiais são destinados a escolas, entidades, municípios e competições oficiais, mediante solicitação formal.
Nanya também relatou dificuldades na análise documental, especialmente na vinculação entre materiais físicos, registros de estoque e notas de empenho. Segundo ele, novos documentos estavam sendo organizados e uma nova contagem dos itens estava em andamento. Por isso, argumentou que o valor restante não deveria ser considerado na apuração naquele momento.
No início de 2026, tanto Lemos quanto Nanya foram exonerados. De acordo com relatos obtidos pela reportagem, a saída do secretário-executivo ocorreu em meio a incômodo com a pressão exercida por ele para avançar nas investigações.