Servidora diz que ex-delegado assassinado confrontou prefeito por licitação suspeita
Depoimento aponta indignação de Ruy Ferraz após conversa com Alberto Mourão sobre pregão que desclassificou concorrentes e garantiu contrato de R$ 14 mi
247 - Uma servidora da Prefeitura de Praia Grande afirmou à Polícia Civil que o ex-delegado geral Ruy Ferraz Fontes, então secretário de Administração, ficou “indignado” dias antes de ser assassinado, após uma conversa com o prefeito Alberto Mourão (MDB) sobre uma licitação com supostas irregularidades. O certame beneficiou a empresa de monitoramento Peltier, vencedora de um contrato de R$ 14 milhões. As informações constam de depoimento revelado pelo site Metrópoles.
Segundo o relato, as três empresas com as melhores ofertas no pregão eletrônico foram desclassificadas por critérios técnicos, permitindo que a Peltier, quarta colocada, fosse declarada vencedora. Alertado por Ferraz sobre o resultado, Mourão teria determinado a manutenção do certame. A servidora Ana Paula Lisboa, funcionária da prefeitura há 38 anos, disse em depoimento que o ex-delegado ficou “muito irritado” e decidiu tratar do assunto diretamente com o prefeito.
Como mostrou o Metrópoles, Ruy Ferraz preparava um dossiê contra servidores municipais por participação em um suposto esquema de fraudes em licitações. Ele mencionava ao menos 11 certames que teriam beneficiado a Peltier e afirmava que os envolvidos estariam “ricos, vivendo em apartamento de luxo”. Três servidores citados no rascunho do documento foram alvos de uma operação policial em 3 de outubro, entre eles Sandro Rogério Pardini, subsecretário de Gestão e Tecnologia.
A possibilidade de que o assassinato estivesse ligado à disputa pelo contrato chegou a ser considerada na investigação. Contudo, ao denunciar oito suspeitos pelo crime, o Ministério Público de São Paulo atribuiu o homicídio a uma ordem do Primeiro Comando da Capital (PCC), relacionando a motivação à atuação passada de Ferraz na Polícia Civil, sem mencionar as licitações suspeitas.
Um dos promotores afirmou que a hipótese de ligação com fraudes perdeu força após a investigação indicar que o crime teria começado a ser planejado em março, antes da descoberta das irregularidades. “Não existe essa prova hoje de que as ilegalidades que o Dr. Ruy estava investigando tenham relação com o crime”, disse, acrescentando que, mesmo com eventuais apurações posteriores, “em nada muda o panorama de que o PCC tinha a ordem para matar o Dr. Ruy e que os seus agentes executaram”.
A denúncia descreve a participação de suspeitos que teriam cedido imóveis, veículos ou deixado vestígios usados na execução, sem individualizar um mandante. Entre os denunciados estão pessoas cujas digitais foram encontradas no carro do crime e um possível atirador identificado por material genético, que morreu em confronto policial. A reportagem não conseguiu contato com o prefeito Alberto Mourão, e a Prefeitura de Praia Grande não respondeu aos questionamentos; o espaço segue aberto para manifestação.
