Médico preso montou 'apartamento' com cama e guarda-roupa em sala cirurgica de hospital público no PR
Segundo o Ministério Público, Rodrigo Amparado ameaçou torturar a filha e matar o marido da atual secretária de Saúde de Itaúna do Sul
247 - O médico Rodrigo Felipe Amparado, preso preventivamente desde 17 de junho na cadeia pública de Nova Londrina, no Paraná, foi denunciado pelo Ministério Público por ameaça, dano emocional à mulher, perseguição, tortura e peculato. As informações são do g1, em reportagem de Izabelly Fernandes e Bruna Melo.
Segundo o Ministério Público, Rodrigo Amparado ameaçou torturar a filha e matar o marido da atual secretária de Saúde de Itaúna do Sul, município do Noroeste do Paraná. A denúncia também aponta que ele teria se apropriado de uma sala do Hospital Municipal da cidade e transformado o espaço em uma espécie de quarto para uso dele e da esposa durante plantões.
A esposa do médico, que atua como coordenadora de enfermagem na unidade, também foi denunciada pelos crimes de peculato e prevaricação. De acordo com o MP, ela tinha o dever legal de impedir ou comunicar a conduta atribuída ao marido, mas teria se omitido diante dos fatos. A Promotoria de Justiça de Nova Londrina pediu ainda o afastamento dela do cargo. O nome da mulher não foi divulgado, e ela não foi presa.
A investigação teve início após o Ministério Público receber denúncias de servidores do hospital. Conforme os relatos encaminhados ao órgão, as irregularidades teriam ocorrido entre março e maio de 2026. O caso segue sob sigilo.
De acordo com a denúncia, Rodrigo passou a perseguir a secretária de Saúde e familiares dela depois que a gestora tomou conhecimento das supostas irregularidades e tentou adotar providências para corrigi-las. O MP afirma que a conduta do médico teria criado um ambiente de intimidação dentro da unidade de saúde.
Em depoimentos colhidos durante a apuração, servidores afirmaram que o médico instaurou “um ambiente de constantes arbitrariedades, submetendo uma das vítimas a ameaças, humilhações, perseguições e vigilância permanente”.
Um dos funcionários ouvidos pelo Ministério Público descreveu a rotina de trabalho com Rodrigo como um “filme de terror”. Outro servidor relatou que, depois de comunicar irregularidades, familiares também teriam passado a ser alvo de perseguição.
A sala usada pelo médico ficava em uma área originalmente destinada ao centro cirúrgico do Hospital Municipal de Itaúna do Sul. No local, segundo a apuração, foram colocados uma cama, um guarda-roupas e uma televisão.
Além dos móveis, o espaço também armazenava objetos pessoais do médico, como camisetas, cobertores, uma toalha com o nome dele bordado e um massageador. As imagens obtidas pela reportagem original mostram o cômodo adaptado para uso particular dentro da unidade pública de saúde.
Rodrigo Felipe Amparado é servidor concursado em Itaúna do Sul. Ele também atende no hospital municipal de Nova Londrina, mas, segundo o g1, não há informações sobre irregularidades ou crimes relacionados a essa segunda cidade. O registro dele no Conselho Regional de Medicina do Paraná estava ativo até a última atualização da reportagem original.
A prefeitura de Itaúna do Sul afirmou, em nota enviada à RPC, que colabora com as investigações e que os atendimentos seguem sendo realizados no hospital. A administração municipal disse respeitar a atuação do Ministério Público, do Poder Judiciário e dos demais órgãos responsáveis pela apuração.
“O Município de Itaúna do Sul tomou conhecimento das medidas judiciais cumpridas nesta data no âmbito de investigação conduzida pelo Ministério Público do Estado do Paraná envolvendo profissional que presta serviços junto ao Hospital Municipal. A Administração Municipal respeita a atuação do Ministério Público, do Poder Judiciário e dos demais órgãos responsáveis pela apuração dos fatos, reconhecendo a importância do trabalho institucional desempenhado por cada uma dessas entidades.
O Município tem prestado e continuará prestando todas as informações e esclarecimentos que forem solicitados pelas autoridades competentes, colaborando integralmente para o regular desenvolvimento dos procedimentos em andamento.
Por se tratar de investigação ainda em curso, a Administração Municipal entende que este é o momento de permitir que os fatos sejam apurados com a necessária cautela, imparcialidade e observância das garantias legais aplicáveis a todos os envolvidos.
A atual gestão permanece concentrada na manutenção e no aprimoramento dos serviços públicos de saúde, assegurando a continuidade do atendimento à população e o adequado funcionamento das atividades desenvolvidas pelo Hospital Municipal. O Município acompanhará os desdobramentos do caso e adotará, no âmbito de suas competências legais e administrativas, as providências que eventualmente se mostrarem necessárias a partir dos elementos oficialmente apurados pelas autoridades competentes.”
A defesa de Rodrigo foi procurada novamente na segunda-feira, 22, mas não respondeu até a última atualização da reportagem original. Na data da prisão, o advogado Manoel Neto enviou nota negando as acusações e classificando a prisão preventiva como desproporcional.
“Manoel Neto, advogado do médico, informa que seu constituinte nega veementemente todas as acusações que lhe são imputadas, as quais serão devidamente esclarecidas no curso da investigação. Entende, ainda, que as apurações encontram-se em estágio inicial, sendo prematura qualquer conclusão acerca dos fatos narrados. A defesa também considera desproporcional a decretação da prisão preventiva, especialmente diante das circunstâncias concretas do caso e da ausência dos requisitos que a justifiquem. Por fim, informa que já foram adotadas as medidas judiciais cabíveis visando à revogação da prisão e ao restabelecimento da liberdade do investigado, confiando que os fatos serão analisados com a necessária imparcialidade e observância das garantias constitucionais.”
