A tragédia das meninas mães no Brasil

País apresenta uma das maiores taxas de gestação na adolescência do mundo. Falta de informação entre mulheres e profissionais de saúde está na raiz do problema

(Foto: Divulgação)
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Por Brienny Bueno, da Agência Einstein - O Brasil exibe índices lamentáveis relativos à gestação de adolescentes. São diversos os indicadores: segundo dados preliminares do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), cerca de 15% do total de nascidos vivos no Brasil em 2019 eram filhos de jovens com idade até 19 anos. O percentual corresponde a 418.883 crianças. E, de acordo com o Fundo de População das Nações Unidas, 53 a cada 1 mil meninas brasileiras se tornam mães enquanto têm entre 15 e 19 anos. O número é bem mais alto da média mundial, de 41 a cada 1 mil meninas.

A tragédia brasileira tem origem basicamente na combinação da falta de informação entre a população e profissionais de saúde e da ausência de uma política consistente de planejamento familiar. Hoje, o principal método anticoncepcional da brasileira é a pílula, recurso cuja eficácia depende da correta administração. Reside nisto, no entanto, o principal problema. Na prática, as meninas se esquecem de tomar o medicamento, muitas vezes por desconhecerem seus mecanismos de ação e funções. “Ninguém explica para elas que, se não tomar todo dia, não será atingida a quantidade de hormônio necessária para impedir uma gravidez”, afirma a  pesquisadora Ilza Monteiro, professora do Departamento de Tocoginecologia da Universidade Estadual de Campinas e autora do estudo TANCO – Think about Needs in Contraception (Pensando nas Necessidades em Contracepção, em português) - realizado em parceria com a indústria farmacêutica Bayer. “Além disso, muitas adolescentes precisam esconder e tomar a pílulas escondidas dos pais. Elas não contam com a orientação de um profissional.”

Atualmente, porém, há diversas opções à pílula, que neste ano completou 60 anos de criação. Todas oferecem vantagens como a menor carga hormonal, a facilidade de aderência e longa duração, além de serem mais eficazes:

DIU hormonal (SIU – Sistema Intrauterino) – Dispositivo pequeno em forma de T colocado no útero que libera uma baixa dose do hormônio progesterona, tornando espesso o muco do colo uterino. Isso dificulta a motilidade do espermatozoide (gameta masculino) para alcançar o óvulo (gameta feminino) e concretizar a fecundação. Apresenta 99,9% de eficácia e duração de até 5 anos.

DIU de cobre – Dispositivo contém um fio de cobre. A substância é liberada aos poucos no endométrio (tecido que reveste o útero), tornando o ambiente hostil para espermatozoides. Dessa forma, a ação do metal inviabiliza o trajeto do espermatozoide no encontro com o óvulo, impedindo a fecundação. O DIU de cobre, por não conter hormônio, é uma opção para quem tem contra indicação ao hormônio progesterona presente em quase todos os anticoncepcionais.  Ele dura em média 10 anos e tem 99,2% de eficácia. 

Implante hormonal - O bastão de silicone colocado por baixo da pele do braço libera o hormônio progesterona em baixa dose no sangue. A ação inibe ou bloqueia a ovulação, além de alterar o muco cervical, dificultando a entrada dos espermatozoides no útero. Dura em média 3 anos e contém 99,9% de eficácia.

Os métodos são mais eficazes do que as pílulas, que apresentam efetividade de 93%.  O problema é que a informação sobre a existência de outros métodos não chega nem às mulheres nem à maioria dos profissionais de saúde. No Brasil, apenas 10% das mulheres que utilizam recursos anticoncepcionais têm experiencia com esses anticoncepcionais de longa duração. Por outro lado, de acordo com o estudo TANCO, 70% das entrevistadas considerariam o contraceptivo de alta duração se recebessem informações de seus médicos.

A ausência de informações sobre os métodos de longa duração é um fenômeno mundial. Artigo recente publicado no Journal of Clinical Nursing assinado por Carri Welsby, da Flinders University Health Sciences, da Austrália, os profissionais de saúde que indicam anticoncepcionais pouco discutem a contracepção reversível de ação prolongada para mulheres jovens sem filhos - apesar de sua segurança, eficácia e conveniência comprovadas para evitar, principalmente, gravidez não planejada na adolescência. 

De acordo com a médica Ilza Monteiro, da Unicamp, a falta de uma estrutura de planejamento familiar – composta por centros especializados e profissionais capacitados – perpetua o problema.  “Muitos profissionais das redes pública e privada não sabem inserir o DIU, não dispõem de locais apropriados para realizar o procedimento ou sequer tempo para realizá-lo. Além disso, não estão preparados para conversarem e instruírem as mulheres”, afirma.

Por isso, é importante que os profissionais sejam preparados para abrir um caminho de conversa com os jovens, falar sobre as consequências, tirar as dúvidas, mostrar as opções de contraceptivos e quais são os mais indicados, e tudo isso sem envolver questões religiosas ou políticas. Fazer perguntas do tipo: “Como você se sente por estar grávida no próximo ano?” e “Você está interessada em aprender sobre as opções de controle de natalidade hoje?" mantém o foco na paciente e promove um ambiente confortável e compartilhado para a tomada de decisões.

A gravidez não planejada na adolescência pode levar a graves problemas sociais e de saúde críticos para os pais jovens e seus filhos. Para os adolescentes, é alto o risco de enfrentamento de dificuldades escolares ou desemprego, por exemplo. E, em gestações precoces, é maior a chance de partos prematuros. “É preciso ter conhecimento e disseminar informações. Se você não conhece os fatos da vida, não vai conseguir lidar com eles”, afirma Ilza. 

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