Amor em tempos de quarentena

Em entrevista, o psicólogo especializado em relacionamentos amorosos Ailton Amélio da Silva afirma que estar muito perto ou distante por muito tempo tem colocado em xeque a qualidade das relações

Casal utilizando máscaras
Casal utilizando máscaras (Foto: Tyrone Siu/Reuters)
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Por Cristiane Bomfim, da Agência Einstein - Amar já foi mais fácil, dizem os especialistas. Disfarçar a falta de interesse, de cuidado e de amor, também. Agora, com a necessidade de ficar em casa para conter a disseminação do novo coronavírus, o cenário da vida a dois ganhou um novo contexto no qual suas vulnerabilidades estão expostas, colocando muitos relacionamentos amorosos em xeque. “O pano de fundo para perceber o relacionamento mudou. Agora são apenas duas situações: ou você está excessivamente junto ou demasiadamente separado. Relacionamentos esvaziados pioram nas duas situações”, afirma o psicólogo Ailton Amélio da Silva, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e estudioso dos relacionamentos amorosos. Casais que estão passando mais tempo junto não têm mais a desculpa de falta de tempo ou de cansaço para evitarem conviver ou conversar. E aqueles que estão longe um do outro podem não sentir falta do parceiro.

Autor de livros como “Para Viver um Grande Amor” e “A Arte da Conversa para o Sucesso Pessoal, Amoroso e Profissional, recentemente lançado, o psicólogo e terapeuta conversou com a Agência Einstein sobre o amor em tempos de quarentena. Confira:

Agência Einstein: Está mais difícil amar nos dias de hoje? 

Aílton Amélio: Amar profundamente está mais difícil. Hoje, as coisas são mais superficiais, rápidas e descartáveis. Existem tipos de amor mais instantâneos, paixões mais imediatas. Mas não todos os que conseguem amar dessa forma. Quem consegue se entusiasmar, se apaixonar rapidamente com base em fantasia e idealização do outro, engata uma paixão atrás da outra. Já a forma de amor mais profundo, mais realista, com mais afeto e intimidade está mais difícil. 

A quarentena evidenciou a forma pela qual os relacionamentos amorosos estão sendo construídos?

Aílton Amélio: A grande novidade nos relacionamentos é a internet. Ela alterou a forma como as relações começam, são mantidas e terminam. Anos atrás fiz uma pesquisa que mostrava que 37% dos casais já se conheciam antes de se relacionarem, eram amigos, trabalhavam juntos. Outros 32% foram apresentados, 5% dos relacionamentos amorosos começavam a partir de encontros acidentais e só 2% iniciavam por serviços como sites de relacionamento ou anúncios. Naquela época tinham anúncios amorosos! A internet mudou tudo. A cada dia que passa o interesse em ferramentas para conhecer pessoas pela rede só aumenta. Na pandemia, os caminhos naturais estão impedidos. Você não vai mais ao trabalho nem para a balada. Mas, por incrível que pareça, a internet também está prejudicada neste período e o motivo é simples: você fala, fala e não vai para o encontro. E, se não tem o encontro real, a coisa se perde. 

A quarentena está servindo para repensar o relacionamento? 

Aílton Amélio É uma situação nova. E o pano de fundo para perceber o relacionamento mudou. Agora são apenas duas situações: ou você está excessivamente junto ou demasiadamente separado. É preciso avaliar como o relacionamento resiste, de que maneira ele evolui nestes dois cenários diferentes. Há muito relato sobre o aumento de separações resultante da convivência interna. No Brasil os casos de agressão doméstica se avolumaram: as mulheres têm sido mais agredidas dentro de casa. Mas também tem relacionamento que melhorou por causa do confinamento. 

Os relacionamentos que estavam esvaziados ou eram agressivo tendem a piorar com esse convívio mais intenso. Esvaziado é quando um não significa mais nada para o outro, quando não há cuidado, carinho, consideração, disposição para dar atenção ou conversar. Nestes casos, o relacionamento esvaziado possivelmente estava sendo disfarçado pela rotina: o casal saía, trabalhava, fazia programas juntos, mas sem papo, sem atenção, sem liga. Nesses dias, não há como desviar a atenção das insatisfações, mágoas, a falta de afinidade e de interesse. Esses sentimentos ficam maiores, mais perceptíveis e podem precipitar brigas, reavaliações e até agressões em casos mais graves. 

Já os casais que se gostam muito e não tinham chance de ficarem juntos por causa da rotina pesada estão tirando proveito dessa quarentena.

O mesmo acontece com casais que estão separados neste período?

Aílton Amélio: A distância pode também evidenciar se o relacionamento está no caminho certo ou não. Se neste período o sentimento de saudade é muito grande, a vontade de ver, de dividir e estar junto cresce é sinal de que o relacionamento está evoluindo, ganhando raízes. Mas a distância pode evidenciar o esvaziamento.

Os relacionamentos amorosos vão mudar muito depois da quarentena?

Aílton Amélio: Em pouco tempo mudamos tremendamente nossos hábitos: não saímos de casa, usamos ainda mais a internet, fazemos home office, aproveitamos o tempo de forma diferente. Fomos forçados a experimentar essas mudanças que vinham sendo adiadas por medo, preguiça, comodismo ou qualquer outro motivo. Uma parte dessas mudanças será incorporada porque traz vantagens e confortos, como por exemplo o home office, que reduz o tempo de deslocamento e os custos com locais de trabalho e dá flexibilidade ao profissional. As transformações também virão nos relacionamentos. Alguns, nesse período de quarentena, tomaram caminhos irreversíveis. 

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