Como a humanidade enfrentou as epidemias ao longo da história

Antes de conhecer os agentes por trás da proliferação de doenças, o homem testou várias opções de controle. Nenhuma é tão eficaz quanto a vacinação

(Foto: Agência Brasil)
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Por Fábio de Oliveira, da Agência Einstein - Uma quarentena que atinge mais de 50 milhões de pessoas. É algo sem precedentes o que está acontecendo na China devido à epidemia de coronavírus, elevada à condição de emergência mundial pela Organização Mundial de Saúde. O número é espantoso, mas é preciso pensar nas dimensões da população e do território chineses. “O país tem mais de 1 bilhão de pessoas em seu território e, em sua capital, Pequim, são mais de 21 milhões. Portanto, o que estamos vendo é algo proporcional ao seu contingente populacional”, explica a médica Dilene Raimundo Nascimento, pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro. 

 O confinamento de doentes para enfermidades infectocontagiosas é uma prática antiga. A estratégia foi usada largamente em casos de hanseníanse e tuberculose, por exemplo. Na epidemia de peste bubônica que devastou a cidade do Porto, no noroeste de Portugal, em 1899, um cerco foi efetuado. “Além das desinfecções, incinerações de objetos e pertences e isolar os doentes, estabeleceu-se um cordão sanitário”, conta Dilene. Tanto esta ação quanto as providências quarentenárias adotadas à época no Brasil foram consideradas drásticas. No caso português, a medida atingia a toda a população, mas de maneira desigual. Os principais afetados eram os comerciantes da cidade, uma vez que nenhum produto ou pessoa entrava ou saía da cidade. No Rio de Janeiro, os industriais e comerciantes criticaram o modus operandi adotado pelo governo, pois os navios colocados em quarentena não descarregavam os produtos importados nem carregavam o que era destinado à exportação. A verdade é que o confinamento não é eficiente a longo prazo. “Os prejuízos acabam sendo maiores”, afirma a médica Dilene. “Impactam a economia e o moral do país.”

Até que a medicina conhecesse os agentes por trás das epidemias, a proliferação de doenças sem controle era compreendida como fenômenos religiosos ou sobrenaturais. Na Idade Média, por exemplo, diante de surtos semelhantes ao vivido hoje por causa do coronavírus, as ações se dividiam em dois eixos. Uma era de caráter religioso: a epidemia era um aviso de Deus sobre um comportamento a ser evitado, um castigo, passando a ideia de um pecado que não é individual, mas coletivo. “A outra resposta era expulsar os pecaminosos do convívio, tirando-os da cidade”, relata André Mota, professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Neste período histórico, ainda não havia o conceito de epidemia. Ele foi sendo delineado a medida em que a Medicina começou a se tornar verdadeiramente um campo de conhecimento, algo possível graças ao surgimento das primeiras universidades, na Idade Média. 

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As quarentenas surgiram na Idade Moderna. Com a urbanização da Europa no século 18, o controle de áreas de quarentena passou a ser feito via polícia sanitária: um representante ficava responsável para um determinado quarteirão. “Uma vez por dia, ele passava de casa em casa e chamava a pessoa à janela. Quem não saía era considerado doente porque não conseguia ir até ali”, conta Mota. “E acabava isolado”, conta Mota. 

Na virada do século 19 para o 20, com a descoberta das primeiras vacinas, a humanidade conheceu a imunização em massa. “Resolve-se individualmente um problema coletivo”, diz o professor da USP. Mas, em casos como o da gripe espanhola, pandemia que matou ao menos 20 milhões de pessoas entre 1918 e 1919, a estratégia da quarentena voltou. Também recorreu-se à desinfecção de veículos, de pessoas e de pertences associados aos doentes. Em certa medida, é o que está sendo feito hoje na China e nos aeroportos dos grandes centros do globo. 

Depois dos anos 1940, com um mundo cada vez mais urbano e menos rural, ganhou corpo o discurso da prevenção pela vacina das doenças passíveis de serem evitadas com o imunizante. O recurso foi um dos mais importantes avanços científicos para a humanidade. Atualmente, porém, vê-se com preocupação o crescimento do movimento antivacinal, alimentado por pessoas sem informação que propagam a ideia completamente errada de que as vacinas fazem mal. É exatamente o contrário: foi somente por causa da vacina que a humanidade conseguiu erradicar a varíola, uma praga que ceifou milhões de vidas durante séculos, e está perto de acabar com outras doenças, como a poliomielite. Não se pode retroceder neste campo, sob o risco de vermos de volta enfermidades que a ciência já havia dominado. Um aviso foi dado pelo sarampo, doença causada por vírus que estava praticamente erradicada mas que, nos últimos anos, voltou a se manifestar em diversos países, Brasil incluído. Neste momento, a ciência está à procura de uma vacina contra o coronavírus. Quando ela estiver disponível, será a maneira mais eficaz de conter o vírus que assusta o mundo.

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É surto, epidemia ou pandemia?

Conheça as diferenças entre as situações

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Surto: ocorre quando há um aumento repentino além do esperado pelas autoridades de uma doença em uma área geográfica limitada ou ainda que atinja uma população restrita à uma instituição, como uma escola, uma empresa ou uma igreja. Por exemplo, um bairro de Araraquara pode ter um surto de dengue.
Epidemia:  é a elevação brusca, temporária e acima do esperado de uma doença em várias regiões próximas ou interligadas, como vários bairros de uma mesma cidade, vários estados de um mesmo país.
Pandemia:  ocorre quando uma epidemia se espalha entre a população, atingindo grandes regiões geográficas, continentes ou todo o planeta.
Endemia:  é a presença contínua de uma determinada enfermidade em uma área geográfica delimitada e que ocorre sistematicamente em longos períodos históricos.

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