Como lidar com o medo de voltar às atividades no pós-quarentena

Especialistas afirmam que a aproximação física e os relacionamentos interpessoais não serão mais os mesmos de antes da pandemia

(Foto: REUTERS/Ricardo Moraes)
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Por Raphaela Brumatti, da Agência Einstein - Depois de ficar cerca de quatro meses em quarentena, a maioria das pessoas não se sente mais à vontade em multidões. Com o anúncio da reabertura do comércio e retorno progressivo das atividades em diferentes regiões em território nacional, há quem se sinta vulnerável para voltar às ruas, trabalho, estudos e lazer. Mas, como lidar com o medo e a insegurança de ser contaminado ou transmitir o vírus da Covid-19, ainda sem cura ou prevenção, quando o isolamento acabar? 

Há quem diga que, apesar do desejo da retomada, os beijos, os abraços, o cumprimentar e a aproximação entre os indivíduos não serão mais os mesmos. “Não gosto de usar o termo ‘novo normal’ porque de normal não tem nada para o brasileiro, que é muito tátil e costuma expressar seus sentimentos por meio do contato físico em seus relacionamentos interpessoais. Mas, tomando de perspectiva o cenário atual, ele está pautado na nova relação e conexão mantendo um certo distanciamento, que mescla o anseio de estar perto com o receio de contaminação”, explica o psiquiatra Luiz Gustavo Vale Zoldan, da equipe de saúde populacional do Hospital Israelita Albert Einstein. 

De acordo com o psiquiatra, nas últimas décadas, a palavra “resiliência” ganhou um novo sentido e, atualmente, está diretamente relacionada à capacidade de se revitalizar e de se recuperar de diferentes acontecimentos. “Tivemos resiliência para nos adaptarmos ao início da pandemia e precisamos manter essa resiliência para o pós-quarentena. Tudo está diretamente ligado à capacidade de enfrentar a realidade, criatividade para se reinventar e a busca por significados e propósitos de vida. Se o indivíduo não tem esses três componentes, dificilmente sairá psicologicamente saudável de tudo isso”, finaliza Zoldan.  

Para a médica da saúde corporativa e coordenadora da pós-graduação de Estilo de Vida e coach em saúde e bem-estar do Hospital Israelita Albert Einstein, Sley Tanigawa Guimarães, os próximos meses serão de adaptações. “A sociedade terá de ficar atenta. Possivelmente, haverá quadros de pacientes com alterações na saúde mental, como sono, irritabilidade, tristeza sem fim e um desejo de se manter isolado, mesmo após o fim do isolamento. Esses são sinais de alerta que podem se agravar, por isso, é importante buscar ajuda profissional depois desse período”, explica. 

Segundo a especialista, o longo distanciamento social também fez com que as pessoas percebessem dois grandes fatores. Primeiro, a importância do coletivo, que fez o indivíduo entender que ele não é um ser isolado e que depende do próximo. Segundo, todos são sobreviventes com medos e receios, sendo imprescindível o cuidado para não partir para atitudes egoístas. 

Sley Tanigawa Guimarães diz que o futuro é sempre uma coisa incerta, por isso, é preciso saber controlar a ansiedade e estar aberto para o novo com muita autocompaixão. “Nesses quatro meses vivemos muitos lutos, famílias perderam entes queridos, nada será como antes. Estamos vivendo um mundo volátil, incerto e ambíguo, a gente tem que se cobrar menos e se aceitar mais. Se durante esse período você percebeu que determinada pessoa ou hábito, por exemplo, não fazem mais sentido na sua vida, não tem razão para se obrigar a manter aquilo dentro da sua rotina. É importante pensar na comunicação não violenta, olhar para a situação sem julgamento, reconhecer as emoções envolvidas e saber se posicionar de uma forma gentil”, finaliza. 

Vale reforçar que o isolamento social ainda está em vigor e que a orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é, para quem puder, ficar em casa e, se precisar sair, utilize máscara, evite tocar olhos, nariz e boca, use álcool gel e higienize bem as mãos. 

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