Isolamento e fome produzem o mesmo tipo de desejo, afirmam cientistas

Segundo um novo estudo do MIT, indivíduos privados de relações sociais podem ficar tão empolgados ao ver alguém quanto um faminto ao olhar para um prato de comida

(Foto: Cecília Bastos/Usp Imagem)
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Frederico Cursino, da Agência Einstein - A pandemia pode ter literalmente aumentado o “apetite” das pessoas durante o isolamento social. É o que asseguram cientistas do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos), em estudo sobre como o isolamento é capaz de causar um efeito semelhante no cérebro ao da abstinência de comida. Segundo os pesquisadores, um indivíduo, após um longo período privado de relações sociais, pode ficar tão empolgado ao encontrar alguém quanto um faminto ficaria ao ver um prato de comida. 

Isso acontece porque a região do cérebro responsável por ativar o desejo por alimentos em pessoas em jejum produz um sinal semelhante em indivíduos isolados. Essa parte do cérebro é chamada substância nigra, uma estrutura minúscula localizada no mesencéfalo e também associada ao desejo por drogas.

“Nossa descoberta se encaixa na ideia intuitiva de que as interações sociais positivas são uma necessidade humana básica e a solidão aguda é um estado aversivo que motiva as pessoas a reparar o que está faltando, semelhante à fome”, afirma Rebecca Saxe, professora de ciências cognitivas no MIT e autora sênior do estudo, publicado na revista Nature Neuroscience

Para realizar a análise, os pesquisadores recrutaram voluntários saudáveis, principalmente estudantes universitários, e os confinaram por 10 horas em uma sala sem janelas no campus da universidade norte-americana. Os participantes não tinham permissão para usar telefones, mas a sala possuía um computador que para contato com os pesquisadores, caso fosse necessário. 

Em outra ocasião, os recrutados foram submetidos ao mesmo tempo de jejum (10 horas), e após cada uma das experiências (isolamento e jejum), foram escaneados enquanto olhavam para imagens de comida, de pessoas interagindo e também neutras, como flores. 

Analisando a substância nigra, os pesquisadores observaram que, quando pessoas socialmente isoladas viam imagens de pessoas desfrutando de interações sociais, o “sinal de desejo” nessa região do cérebro era semelhante ao produzido quando os mesmos participantes olhavam para uma foto de um prato de macarrão com queijo após o jejum.

Além disso, a ativação na substância nigrafoi maior ou menor de acordo com a intensidade com que eles relatavam seus sentimentos por comida ou interação. Os dados para o estudo foram coletados em 2018 e 2019, antes das medidas de isolamento causadas pela pandemia do novo coronavírus.

Menos sociáveis sentem desejo menor

Outra descoberta foi que as respostas ao isolamento variam de acordo com os níveis de solidão. Por exemplo, pessoas que relataram ter se sentido cronicamente isoladas meses antes de o estudo demonstraram um desejo menor de interação após a experiência. “Já nas pessoas que afirmaram que suas vidas eram realmente cheias de interações sociais satisfatórias, essa intervenção teve um efeito maior em seus cérebros e em seus autorrelatos”, acrescenta Rebecca.

Os pesquisadores também analisaram os padrões de ativação em outras partes do cérebro, incluindo o corpo estriado e o córtex, e descobriram que a fome e o isolamento acionaram áreas distintas dessas regiões. Isso sugere que elas seriam mais especializadas para responder a diferentes tipos de desejo, enquanto a substância nigra produz um sinal mais geral que representa uma variedade de vontades.

A autora conta que o próximo passo será responder às novas questões colocadas pelo estudo, como: de que maneira o isolamento social afeta o comportamento das pessoas, se os contatos sociais virtuais – como videochamadas – ajudam a aliviar os desejos de interação social e a diferença desse impacto em grupos etários distintos. Outra meta será avaliar se as respostas cerebrais observadas poderiam ser usadas para prever como os mesmos participantes reagiram ao isolamento durante os estágios iniciais da pandemia.

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