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Negacionismo de Bolsonaro reduziu expectativa de vida no Brasil durante pandemia

Estudo aponta que brasileiros perderam 3,4 anos de vida na Covid-19 e associa impacto à condução negacionista do governo Bolsonaro

Eduardo Pazuello e Jair Bolsonaro segurando caixa de cloroquina (Foto: Reprodução)
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247 - A expectativa de vida dos brasileiros sofreu uma queda de 3,4 anos durante a pandemia de Covid-19, segundo dados do Estudo Carga Global de Doenças, considerado o maior levantamento internacional sobre impactos de doenças e fatores de risco em mais de 200 países. A análise foi publicada na edição de maio da revista científica The Lancet Regional Health – Americas.

As informações foram divulgadas originalmente pela revista CartaCapital. O estudo aponta que o Brasil registrou aumento de 27,6% na mortalidade no período da pandemia e atribui parte significativa desse retrocesso à condução do governo federal à época, comandado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

De acordo com os pesquisadores responsáveis pelo levantamento, a postura negacionista adotada pelas autoridades federais enfraqueceu medidas sanitárias fundamentais para conter o avanço do coronavírus. O estudo afirma que “as autoridades enfraqueceram as orientações científicas – rejeitando o distanciamento social, disseminando desinformação, promovendo medicamentos sem eficácia comprovada, atrasando a aquisição de vacinas, sob a justificativa de isso protegeria o país de um colapso econômico”.

Norte teve as maiores perdas

Embora a redução da expectativa de vida tenha atingido todas as regiões do País, os impactos foram mais severos nos estados do Norte. Rondônia liderou o ranking, com perda média de 6,01 anos de vida. Em seguida aparecem Amazonas, com redução de 5,84 anos, e Roraima, com 5,67 anos.

Na direção oposta, os menores recuos foram registrados em estados nordestinos. Maranhão apresentou queda de 1,86 ano, enquanto Alagoas teve redução de 2,01 anos e o Rio Grande do Norte, de 2,11 anos.

Segundo os autores da pesquisa, a diferença regional está relacionada às estratégias adotadas pelos governos estaduais. O estudo destaca que os estados do Nordeste seguiram de maneira mais rigorosa as recomendações científicas e sanitárias para enfrentamento da pandemia.

Consórcio do Nordeste é citado

Os pesquisadores ressaltam que, diante da ausência de coordenação nacional, governadores nordestinos criaram mecanismos próprios de resposta à crise sanitária. O documento afirma que “na ausência de coordenação nacional, os governos estaduais do Nordeste formaram um consórcio com um comitê científico independente que implementou estratégias”.

Entre as ações destacadas estão medidas de distanciamento social, fechamento de escolas e atividades comerciais, obrigatoriedade do uso de máscaras, políticas de proteção aos trabalhadores e implantação de sistemas de monitoramento em tempo real.

O estudo também conclui que os danos causados pela pandemia poderiam ter sido menores em escala nacional caso o governo federal tivesse adotado políticas semelhantes. Para os pesquisadores, o Brasil teve desempenho inferior ao de países como Argentina e Uruguai, no Mercosul, além de China e Índia, integrantes do Brics.

Vacinação atrasada agravou cenário

Outro ponto abordado pela pesquisa foi o atraso na vacinação contra a Covid-19. Os autores consideram contraditório que o Brasil, historicamente reconhecido pela ampla cobertura vacinal, tenha enfrentado dificuldades no processo de imunização durante a pandemia.

O estudo afirma que “um país com histórico bem-sucedido de cobertura vacinal como o Brasil ficou atrás na vacinação contra a Covid-19 devido à falta de organização, à demora na aquisição de vacinas e ao foco em medicamentos para ‘tratamento precoce’ sem evidências científicas de benefício”.

Apesar do impacto da pandemia, a pesquisa mostra que o Brasil acumulou avanços importantes em saúde pública nas últimas décadas. Entre 1990 e 2023, a expectativa de vida da população aumentou 7,18 anos.

SUS e vacinação impulsionaram avanços

No mesmo período, a mortalidade padronizada por idade caiu 34,5%, enquanto o índice que mede os anos saudáveis perdidos por morte ou doença recuou 29,5%. O levantamento associa esses resultados à ampliação do acesso à saúde, melhorias nas condições de vida e crescimento econômico.

Os pesquisadores destacam o papel do Sistema Único de Saúde (SUS), da criação do Programa Saúde da Família e da expansão da vacinação como fatores determinantes para a melhora dos indicadores nacionais de saúde.

O estudo mostra ainda que quase todas as principais causas de morte no Brasil tiveram redução nas últimas décadas quando considerada a mortalidade padronizada por idade. As exceções foram doença de Alzheimer e outras demências, que cresceram 1%, além da doença renal crônica, que avançou 9,6% entre 1990 e 2023.

Violência segue como causa de mortes prematuras

Em 2023, a principal causa de mortes no Brasil foi a doença isquêmica do coração, seguida por acidente vascular cerebral (AVC) e infecções do trato respiratório inferior.

Já a principal causa de mortes prematuras no País continua sendo a violência interpessoal, segundo o levantamento internacional.

A pesquisa estima que o Brasil perdeu 1.351 anos de vida a cada 100 mil habitantes em decorrência de mortes violentas, reforçando o peso da violência urbana e social sobre os indicadores nacionais de saúde pública.