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Tumor pode usar antioxidante do corpo como combustível e abre nova frente contra o câncer

Estudo liderado por brasileiro revela que a glutationa pode alimentar células tumorais e que bloquear esse processo desacelera o crescimento da doença

Tumor pode usar antioxidante do corpo como combustível e abre nova frente contra o câncer (Foto: Freepik)

247 - Uma substância tradicionalmente associada à proteção do organismo pode, paradoxalmente, ser utilizada por tumores para crescer. A descoberta, publicada na revista científica Nature e destacada pelo g1, revela um novo mecanismo que pode mudar a forma como a ciência encara o papel dos antioxidantes no câncer.

O estudo foi conduzido por pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, com participação do cientista brasileiro Fabio Hecht. A pesquisa aponta que a glutationa — um antioxidante produzido naturalmente pelo corpo — pode ser “quebrada” no ambiente tumoral e transformada em combustível para o crescimento das células cancerígenas.

“Existe essa concepção de que antioxidantes sempre fazem bem, previnem doenças, inclusive câncer. Mas os dados não mostram isso. Em alguns casos, eles podem até atrapalhar”, explica Hecht.Para entender o fenômeno, os cientistas compararam o tumor a uma estrutura que depende de um fornecimento constante de energia para se desenvolver. Nesse cenário, a glutationa, conhecida por neutralizar radicais livres e proteger as células, assume uma função inesperada.

No ambiente tumoral, uma enzima do próprio organismo quebra a glutationa em componentes menores. Esse processo libera aminoácidos que são aproveitados diretamente pelo metabolismo do câncer, contribuindo para sua expansão.

“Quando essa molécula é quebrada, ela libera aminoácidos. E um desses aminoácidos vai direto para o metabolismo do tumor, o ajudando a crescer”, diz Hecht.Entre esses componentes, a cisteína se destacou como elemento essencial para o desenvolvimento das células tumorais. Segundo os pesquisadores, foi o único aminoácido derivado da glutationa considerado indispensável nesse processo.“Testamos os três aminoácidos oriundos da glutationa e vimos que o único realmente indispensável para o tumor era a cisteína”, afirma o pesquisador.

Além de servir como fonte de energia, a cisteína também atua como um mecanismo de defesa para o tumor. De acordo com o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, ela ajuda a célula cancerígena a resistir a condições adversas.“A cisteína permite que a célula tumoral sobreviva em um ambiente hostil. Ela reduz o estresse oxidativo e funciona como uma proteção, quase uma blindagem”, explica.

A partir dessa constatação, os cientistas testaram uma abordagem experimental: bloquear a quebra da glutationa. O resultado foi significativo. Ao impedir que o antioxidante fosse transformado em combustível, os tumores passaram a crescer mais lentamente.“Quando usamos uma droga para bloquear esse processo, os tumores passaram a crescer muito mais lentamente”, diz Hecht.

Os testes foram realizados em laboratório e em modelos animais, especialmente com câncer de mama do tipo triplo negativo, considerado um dos mais agressivos. Também houve indícios de que o mesmo mecanismo pode ocorrer em outros tipos de tumor, como os de pulmão, pâncreas e melanoma.

Apesar do potencial, os especialistas alertam que a descoberta ainda está longe de se transformar em tratamento disponível. O caminho entre um achado científico promissor e sua aplicação clínica é longo e exige novas etapas de validação.“Existe uma grande diferença entre um bom racional científico e um tratamento que funcione na prática”, diz Stefani. “Muitas ideias promissoras não se confirmam clinicamente.

”Segundo Hecht, o próximo passo será aprofundar o entendimento do mecanismo e desenvolver estratégias seguras para bloqueá-lo em pacientes.“A gente mostrou que esse processo é importante para o crescimento do tumor. Agora, o desafio é transformar isso em uma abordagem que possa ser usada com segurança em pacientes”, afirma.

A descoberta também levanta questionamentos sobre o uso de antioxidantes, especialmente em forma de suplementos. No entanto, os pesquisadores ressaltam que o estudo não avaliou diretamente os efeitos dessas substâncias em humanos.

“Não tem muito por que recomendar suplementação de glutationa”, afirma Hecht.Ainda assim, a recomendação médica permanece inalterada: uma alimentação equilibrada, rica em frutas e vegetais, continua sendo benéfica para a saúde.

Mais do que uma conclusão definitiva, o estudo abre uma nova linha de investigação ao demonstrar que o câncer pode se aproveitar de mecanismos naturais do próprio corpo para se desenvolver. A partir dessa perspectiva, cientistas passam a considerar não apenas como destruir o tumor, mas também como interromper suas fontes de sustentação — uma estratégia que pode representar um novo caminho na luta contra a doença.