Pesquisa liderada por Tatiana Sampaio é assunto mais comentado nas redes e mobiliza esperança para lesão medular
A pesquisa é liderada pela cientista Tatiana Sampaio, que estuda há anos alternativas para tratar lesões medulares agudas
247 - A polilaminina, substância experimental desenvolvida no Brasil para o tratamento de lesões medulares, tornou-se um dos assuntos mais comentados nas redes sociais nos últimos dias. Vídeos de pacientes em recuperação, discussões sobre patente e manifestações de orgulho pela ciência nacional impulsionaram o tema no Instagram e no TikTok. As informações são do G1.
A polilaminina ainda não é um medicamento aprovado, mas sim uma substância em fase de pesquisa científica que apresenta potencial terapêutico. O interesse público cresceu após a divulgação de casos individuais de recuperação motora, embora especialistas e a própria equipe responsável pelo estudo reforcem a necessidade de cautela.A substância foi recriada em laboratório a partir da laminina, proteína produzida naturalmente pelo corpo humano, especialmente durante o desenvolvimento embrionário. Essa proteína desempenha papel essencial na organização dos tecidos e no crescimento celular, o que levou pesquisadores a investigar seu uso na regeneração do sistema nervoso.
A pesquisa é liderada pela cientista Tatiana Sampaio, que estuda há anos alternativas para tratar lesões medulares agudas — aquelas ocorridas logo após um trauma e que frequentemente causam perda parcial ou total dos movimentos.
Em experimentos realizados inicialmente com animais e, posteriormente, em um pequeno grupo de pacientes humanos, foram observados sinais de recuperação motora em parte dos participantes. Os resultados permitiram o avanço da pesquisa e a formação de parceria com um laboratório nacional, além da autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o início dos ensaios clínicos regulatórios.Apesar da repercussão pública, a própria pesquisadora reforça que o tratamento ainda está longe de ser considerado comprovado.
"Ainda não é um feito, é uma promessa de tratamento. No dia em que ele estiver registrado, as pessoas usarem e todas elas recuperarem a função, se todo mundo voltar a andar, aí sim fizemos uma revolução."A cautela, segundo especialistas, é necessária porque o processo científico exige diversas etapas antes que uma substância possa ser considerada segura e eficaz para uso amplo na população.
Como a polilaminina age no organismo
A medula espinhal funciona como uma via de comunicação entre o cérebro e o restante do corpo, transmitindo comandos motores e informações sensoriais. Quando ocorre uma lesão, os axônios — prolongamentos dos neurônios responsáveis pela transmissão dos sinais nervosos — são rompidos, interrompendo essa comunicação.
A polilaminina atua justamente nesse ponto. Aplicada diretamente no local da lesão durante procedimento cirúrgico, a substância forma uma estrutura microscópica semelhante a uma “ponte”, que pode facilitar o crescimento dos neurônios e ajudar a restabelecer parte das conexões nervosas perdidas.
Resultados laboratoriais e estudos iniciais indicam que esse mecanismo pode favorecer algum grau de recuperação motora em lesões recentes. No entanto, ainda não existem evidências científicas de eficácia em lesões medulares crônicas, quando a paralisia já está instalada há mais tempo.
Resultados ainda preliminares
Um estudo divulgado pela equipe de Sampaio avaliou oito pacientes com lesão medular aguda.
Alguns apresentaram evolução moderada, enquanto outros tiveram recuperação significativa dos movimentos. O trabalho, porém, ainda não passou pelo processo de revisão por pares — etapa considerada fundamental para validação científica.Além disso, amostras pequenas dificultam conclusões definitivas. Especialistas lembram que até 30% dos pacientes com lesão medular aguda podem recuperar algum nível de movimento mesmo sem tratamento experimental, dependendo do tipo de trauma e da resposta individual do organismo."O que estamos vendo agora é um resultado muito estimulante, promissor. Mas, por enquanto, é só uma esperança. Não dá para saber se estamos mesmo diante de algo espetacular."
Por que pessoas já utilizam a substância
A popularização do tema nas redes sociais ocorreu após a divulgação do caso do empresário Bruno Drummond, que sofreu uma lesão medular em 2018, recebeu aplicação da substância e atualmente voltou a praticar atividades físicas, incluindo musculação.
Casos individuais, porém, não são suficientes para comprovar eficácia clínica. A ciência exige testes controlados, comparação com grupos que não receberam o tratamento e acompanhamento prolongado dos pacientes.
O caminho até virar medicamento
Para que a polilaminina possa chegar aos hospitais e eventualmente ao Sistema Único de Saúde (SUS), ainda será necessário cumprir todas as fases de desenvolvimento de um fármaco.
Primeiro, serão iniciados os ensaios clínicos regulatórios em humanos, começando pela fase 1, que avalia segurança em pequeno grupo de voluntários. Essa etapa já foi autorizada pela Anvisa, mas aguarda aprovação ética para começar.Caso a segurança seja confirmada, o tratamento seguirá para as fases 2 e 3, quando são analisadas eficácia, dosagem ideal e possíveis efeitos adversos em populações maiores. Somente após essas etapas será possível solicitar o registro sanitário e autorizar a comercialização.
A trajetória da polilaminina evidencia o potencial da pesquisa científica brasileira, mas também reforça a importância do tempo necessário para que descobertas promissoras sejam comprovadas.Entre entusiasmo e cautela, o consenso entre pesquisadores é claro: a substância representa uma esperança real para o futuro do tratamento de lesões medulares — mas ainda não uma cura confirmada.