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O peixe brasileiro que sobe rios contra a correnteza por centenas de quilômetros só para se reproduzir

18 de junho de 2026, 06:58 h
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O peixe brasileiro que sobe rios contra a correnteza por centenas de quilômetros só para se reproduzir

Alguns peixes percorrem centenas de quilômetros rio acima.

Nubia Rangel

Nubia Rangel

Curiosidades
  • Maratona aquática diária: O curimbatá consegue nadar até 43 quilômetros em apenas 24 horas, o equivalente a completar uma maratona olímpica todos os dias, nadando contra a correnteza.
  • O esforço ativa os hormônios: A luta contra a correnteza não é só uma jornada: ela é biologicamente necessária para estimular a glândula hipófise e a produção dos hormônios reprodutivos. Sem nadar rio acima, o peixe simplesmente não consegue se reproduzir.
  • Milhões de óvulos de uma vez: No momento da desova, a piava lança em média 160 mil óvulos de uma só vez, enquanto a fêmea do dourado pode ultrapassar 1,5 milhão. Uma aposta em escala industrial pela continuidade da espécie.

Imagine ter que correr uma maratona todos os dias, durante semanas, sem comer quase nada e ainda lutando contra uma força que empurra você para trás o tempo todo. É exatamente isso que o curimbatá faz todo ano nos rios brasileiros. Esse peixe de água doce, que passa grande parte do ano se alimentando nas partes baixas dos rios, se transforma em um verdadeiro atleta quando chegam as primeiras chuvas do verão, protagonizando um dos fenômenos migratórios mais fascinantes da biologia: a piracema.

O que a ciência descobriu sobre a piracema e a migração dos peixes

A palavra piracema vem do tupi-guarani: “pirá” significa peixe e “cema” significa subida, daí a tradução mais aceita por fontes oficiais como o Ministério da Pesca: “subida dos peixes”. Todo ano, entre setembro e março, dependendo da bacia hidrográfica e da região do país, espécies como o curimbatá, o dourado, o pintado e o pacu percebem sinais do ambiente que funcionam como um gatilho biológico. A temperatura da água sobe, as chuvas elevam o nível dos rios em até 5 metros e as horas de luz do dia aumentam. Esses fatores estimulam a glândula hipófise, na base do cérebro dos peixes, a liberar os hormônios que acionam o instinto de migrar e se reproduzir.

O que a ciência revela de mais surpreendente é que o esforço físico da subida não é apenas uma consequência da migração: ele é parte indispensável do processo reprodutivo. Ao nadar contra a correnteza por centenas de quilômetros, os peixes queimam gordura acumulada e estimulam a produção dos hormônios responsáveis pelo amadurecimento dos órgãos sexuais. Em outras palavras, sem o esforço, não há reprodução.

O peixe brasileiro que sobe rios contra a correnteza por centenas de quilômetros só para se reproduzir
Chuvas e mudanças no ambiente iniciam o ciclo.

Como isso funciona na prática: a jornada rio acima

Peixes como o curimbatá e o dourado chegam a migrar mais de 600 quilômetros até alcançar as cabeceiras dos rios, onde as águas são mais rasas e a correnteza é forte, condições ideais para a desova. O ritmo varia muito entre as espécies: piavas avançam no máximo 3 quilômetros por dia, enquanto curimbatás já foram registrados percorrendo impressionantes 43 quilômetros em apenas 24 horas. É como se um corredor completasse uma maratona por dia, durante semanas seguidas, carregando nas costas o peso da sobrevivência de toda a sua espécie.

Quando finalmente chegam ao ponto de desova, as fêmeas lançam seus óvulos na água e os machos despejam o sêmen sobre eles. A piava, por exemplo, libera em média 160 mil óvulos de uma só vez, enquanto a fêmea do dourado pode ultrapassar 1,5 milhão. As larvas que nascem são carregadas pela correnteza até lagoas marginais, onde crescem protegidas durante cerca de um ano antes de retornar ao leito principal do rio e repetir o ciclo.

Barragens e obstáculos: o que mais os pesquisadores encontraram sobre a migração

Um dos maiores desafios investigados pela ciência é o impacto das barragens hidrelétricas sobre a migração dos peixes. Estudos realizados no Canal da Piracema, na barragem de Itaipu, monitoraram o curimbatá e outras espécies com marcadores eletrônicos para entender como esses animais interagem com as passagens construídas nas represas. Os resultados mostraram que determinadas seções das estruturas funcionam como barreiras reais, dificultando ou atrasando significativamente a subida dos cardumes.

Pesquisadores de diversas universidades brasileiras também investigaram a estrutura genética de populações de curimbatá fragmentadas por barragens. A conclusão foi preocupante: represas que bloqueiam a migração isolam grupos de peixes, reduzem a diversidade genética das populações e comprometem a capacidade das espécies de se adaptar a mudanças ambientais no longo prazo.

Pontos-chave do estudo
🐟
O esforço ativa a reprodução

Nadar contra a correnteza estimula a glândula hipófise a produzir os hormônios reprodutivos. Sem essa jornada física, o curimbatá e outras espécies migratórias simplesmente não amadurecem sexualmente.

🏊
600 km de migração

Curimbatás e dourados percorrem mais de 600 quilômetros rio acima durante a piracema, com alguns indivíduos atingindo 43 km em apenas 24 horas de natação contínua.

🚧
Barragens ameaçam o ciclo

Pesquisas mostram que hidrelétricas bloqueiam rotas migratórias, isolam populações de peixes e reduzem a diversidade genética das espécies ao longo do tempo.

O comportamento migratório do curimbatá nos rios brasileiros foi documentado em um estudo publicado no Brazilian Journal of Biology, disponível no SciELO, que monitorou a subida desses peixes na Cachoeira de Emas, no rio Mogi-Guaçu, registrando padrões detalhados sobre os períodos de pico da migração e o comportamento das espécies diante das estruturas de transposição instaladas na região.

Por que essa descoberta importa para você

A piracema não é apenas um fenômeno fascinante da natureza: ela sustenta toda a cadeia alimentar dos rios brasileiros. Espécies como o curimbatá, o dourado e o pintado são fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos e para a sobrevivência da pesca artesanal em todo o país. Por isso, a legislação brasileira estabelece o chamado período de defeso, quando a pesca comercial fica proibida para proteger a reprodução dos peixes. As datas variam por região e bacia hidrográfica: em geral, o defeso ocorre entre outubro e março, mas cada estado tem suas próprias regras, definidas com base em dados científicos sobre o ciclo reprodutivo de cada espécie local.

Quando esse ciclo é interrompido, seja por barragens, poluição ou pesca predatória, os estoques pesqueiros entram em colapso e comunidades inteiras que dependem dos rios para sobreviver são diretamente afetadas. Entender a piracema é, portanto, entender por que a preservação dos rios importa para cada brasileiro, mesmo para quem nunca colocou os pés na beira de um rio.

O peixe brasileiro que sobe rios contra a correnteza por centenas de quilômetros só para se reproduzir
A jornada exige esforço contínuo contra a correnteza.

O que mais a ciência está investigando sobre a migração de peixes nos rios brasileiros

Pesquisadores de diversas universidades brasileiras continuam estudando formas de tornar as passagens para peixes nas barragens mais eficientes, além de mapear geneticamente as populações de espécies migratórias para identificar quais grupos estão mais vulneráveis. O uso de marcadores eletrônicos, como os transponders PIT, permite rastrear individualmente cada peixe ao longo de sua jornada, gerando dados inéditos sobre rotas, velocidade e taxas de sucesso na transposição de obstáculos. O futuro da piracema, e de toda a biodiversidade que depende dela, vai depender muito do quanto conseguimos aprender sobre esse fenômeno antes que seja tarde demais.

A próxima vez que chover forte e os rios começarem a subir no verão brasileiro, vale lembrar que, lá embaixo, cardumes inteiros estão travando uma batalha silenciosa e extraordinária, nadando contra tudo para garantir que a vida continue. A natureza raramente para de nos surpreender.

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