- O mais forte em 150 anos: Os modelos climáticos indicam que o El Niño de 2026 pode superar qualquer evento registrado desde 1877, com anomalias de temperatura oceânica que podem ultrapassar os +4,5°C acima do normal.
- Efeito no Brasil: Eventos intensos de El Niño historicamente trazem chuvas acima do normal no Sul do Brasil e seca severa no Norte e Nordeste, impactando diretamente safras agrícolas e o abastecimento de água.
- Onda de calor oceânica: O motor por trás desse fenômeno é uma gigantesca onda de Kelvin subaquática, que empurra massas de água quente do Pacífico ocidental em direção à América do Sul, aquecendo o oceano antes mesmo do pico do evento.
Imagine que o termostato do planeta inteiro fosse girado para o máximo, de repente, e que esse calor extra transbordasse dos oceanos para a atmosfera, bagunçando o tempo em todos os cantos do mundo. É mais ou menos isso que os cientistas estão prevendo para os próximos meses: um El Niño de intensidade histórica pode estar se formando no Oceano Pacífico, e os modelos climáticos mais avançados do planeta apontam para números que não eram vistos há pelo menos 150 anos. A notícia vem de institutos como o ECMWF, a NOAA e o australiano BOM, e está fazendo os meteorologistas do mundo todo prestarem muita atenção.
O que a ciência descobriu sobre o El Niño de 2026
O El Niño é um fenômeno climático natural que ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico tropical aquecem mais do que o normal, alterando os padrões de vento e precipitação em escala global. O que deixa os pesquisadores de cabelo em pé agora é a intensidade do que está sendo observado. Uma gigantesca onda oceânica subaquática, chamada de onda de Kelvin, está transportando enormes massas de água quente do Pacífico ocidental em direção ao leste. Em maio de 2026, as anomalias de temperatura já atingiram valores comparáveis aos registrados durante os supereventos de 1997 e 2015, que foram alguns dos mais devastadores da história moderna.
O instituto europeu ECMWF projeta que a anomalia de temperatura na região central do Pacífico pode facilmente superar os +2°C, o limiar oficial para classificar um evento como “super El Niño”, e possivelmente cruzar a marca dos +3°C, entrando em território extremo. Há projeções ainda mais alarmantes: algumas simulações apontam para uma anomalia de +4,5°C no pico do evento, previsto para o outono e inverno do hemisfério norte. Se isso se confirmar, estaríamos diante do El Niño mais intenso desde que os registros científicos sistemáticos começaram, em meados do século XIX.

Como isso funciona na prática e por que afeta o Brasil
Sabe quando você vê notícias de seca histórica no Nordeste ou de enchentes no Sul do Brasil? O El Niño tem um papel importante nesses extremos climáticos. Quando o fenômeno é intenso, ele reorganiza os ventos e as correntes de ar em escala continental, e o Brasil sente isso de formas opostas dependendo da região. O Sul tende a receber chuvas acima da média, com risco de inundações, enquanto o Norte e o Nordeste enfrentam períodos de seca severa, afetando a agricultura, o abastecimento de água e até a geração de energia hidrelétrica.
Para o mundo em geral, um El Niño dessa magnitude significa ondas de calor mais intensas na Europa, secas prolongadas na Austrália e no sudeste asiático, e temporadas de furacões com trajetórias alteradas no Atlântico e no Pacífico. Os cientistas alertam que, combinado com o aquecimento global já acumulado, de quase 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, o efeito desse El Niño pode ser amplificado de forma significativa. Em outras palavras, eventos que já seriam sérios isoladamente se tornam ainda mais intensos quando se somam às mudanças climáticas em curso.
A onda de Kelvin: o motor invisível por trás do fenômeno
Um detalhe fascinante que os meteorologistas estão monitorando de perto é o comportamento da chamada onda de Kelvin oceânica. Diferente das ondas que vemos na praia, essa onda se move por baixo da superfície do oceano, carregando água mais quente do oeste para o leste do Pacífico equatorial. O mais intrigante é que, no início de maio de 2026, essa onda ainda não havia atingido sua força máxima, o que sugere que o sistema pode continuar se intensificando nos próximos meses. Cada nova rodada de simulações climáticas tem apresentado previsões mais alarmantes do que a anterior, um sinal de que o fenômeno está evoluindo de forma acelerada.
Outro aspecto que chama atenção dos especialistas é que as temperaturas do Pacífico ocidental em 2026 já estão mais altas do que estavam durante os supereventos de 1997 e 2015 no mesmo estágio de desenvolvimento. Isso significa que a onda de Kelvin está partindo de uma base de aquecimento ainda maior, o que pode potencializar ainda mais o pico do El Niño quando ele ocorrer, previsto para o período entre setembro e dezembro de 2026, com efeitos que podem se estender até o inverno de 2027.
Os modelos do ECMWF e da NOAA indicam que a temperatura do Oceano Pacífico pode superar +3°C acima do normal, com pico previsto para o outono de 2026, o maior em 150 anos de registros científicos.
Eventos intensos de El Niño provocam chuvas excessivas no Sul e seca severa no Norte e Nordeste do Brasil, afetando agricultura, recursos hídricos e geração de energia elétrica.
Um padrão preocupante chama atenção: cada nova rodada de simulações climáticas apresenta números maiores do que a anterior, indicando que o fenômeno está se intensificando mais rápido do que o esperado.
Para quem quiser se aprofundar na ciência por trás das previsões de El Niño, o estudo publicado no periódico Scientific Reports, da editora Nature, detalha como modelos de inteligência artificial e dados oceânicos históricos são usados para prever eventos de grande intensidade no ENSO com meses de antecedência. Esses mesmos princípios científicos embasam as projeções atuais dos institutos climáticos globais.
Por que essa descoberta importa para você
Um El Niño de magnitude histórica não é apenas um assunto para meteorologistas: ele tem consequências práticas e imediatas para o dia a dia de milhões de pessoas. A produção de alimentos é uma das áreas mais sensíveis. Safras de soja, milho e café no Brasil podem ser gravemente afetadas por períodos de seca ou por chuvas fora de época. Isso impacta os preços nos supermercados, o abastecimento interno e as exportações do país. Além disso, a geração de energia hidrelétrica, que responde por uma parte significativa da matriz energética brasileira, é diretamente dependente dos volumes de chuva nos reservatórios.
A saúde pública também entra na equação. Secas prolongadas favorecem a proliferação de doenças como dengue e leptospirose em regiões urbanas, enquanto enchentes aumentam o risco de surtos de doenças de veiculação hídrica. O monitoramento climático atento e as políticas de adaptação, como sistemas de alerta precoce e reservas estratégicas de água, se tornam ainda mais urgentes diante de um cenário como o que os cientistas estão projetando para os próximos meses.
O que mais a ciência está investigando sobre o El Niño e as mudanças climáticas
Uma das questões mais debatidas entre os pesquisadores é até que ponto o aquecimento global está tornando os eventos de El Niño mais frequentes e mais intensos. Há evidências crescentes de que o aumento das temperaturas dos oceanos, provocado pelas emissões de gases de efeito estufa, cria condições de base mais favoráveis para o surgimento de supereventos climáticos. Entender melhor essa interação entre o ENSO e as mudanças climáticas é uma das prioridades da meteorologia e da climatologia nos próximos anos, especialmente porque os modelos precisam ser continuamente refinados para dar respostas cada vez mais precisas à sociedade.
A ciência do clima raramente traz certezas absolutas, mas quando os maiores institutos de meteorologia do mundo convergem para o mesmo alerta, vale a pena ouvir com atenção. O que o Oceano Pacífico está mostrando agora é uma história que vai muito além das previsões do tempo para o fim de semana, e entender essa história pode fazer toda a diferença na forma como nos preparamos para o futuro.




