- 1 em 1 milhão: O flare “Superman” é tão extremo que os cientistas criaram uma categoria à parte para ele. Apenas 1 em cada 10.000 núcleos galácticos ativos apresenta alguma atividade de flare, mas este é único em um milhão.
- Luz do passado distante: O flare aconteceu há 10 bilhões de anos, quando o universo era jovem. A luz que os astrônomos capturaram hoje é, na prática, uma “foto” de um evento ocorrido antes mesmo da formação da Terra.
- Estrela sendo devorada: Os pesquisadores concluíram que o buraco negro provavelmente está destruindo uma estrela com pelo menos 30 vezes a massa do Sol. O processo ainda está em curso, como um peixe no meio da garganta de uma baleia.
Imagine uma luz tão poderosa que ofusca 10 trilhões de estrelas ao mesmo tempo. Parece ficção científica, mas foi exatamente isso que um grupo de astrônomos observou ao detectar o maior flare de buraco negro já registrado na história da astronomia. Apelidado de “Superman”, esse fenômeno extraordinário ocorreu a 10 bilhões de anos-luz da Terra e está transformando o que a ciência sabe sobre buracos negros supermassivos e o comportamento do universo em seus momentos mais extremos.
O que a ciência descobriu sobre o flare do buraco negro
A origem do flare “Superman” é um núcleo galáctico ativo (AGN), uma região extremamente compacta e brilhante no centro de uma galáxia distante. Esse tipo de estrutura é alimentado por um buraco negro supermassivo que está em plena atividade, engolindo gás, poeira e, ao que tudo indica, estrelas inteiras. O buraco negro em questão, identificado como J2245+3743, tem uma massa estimada em 500 milhões de vezes a do Sol.
Quando a matéria cai em direção ao buraco negro, ela forma um disco giratório ao redor dele. Esse material gira cada vez mais rápido, aquece a temperaturas absurdas e libera radiação intensa. Foi durante esse processo que o flare Superman surgiu, em novembro de 2018, detectado pelo Observatório Palomar, na Califórnia. O evento brilhou 30 vezes mais do que qualquer outro flare de AGN já registrado antes.
Como isso funciona na prática
Pense assim: um buraco negro supermassivo no centro de uma galáxia é como um redemoinho gigantesco no fundo do oceano. Tudo que chega perto demais começa a ser puxado em espiral. Quando uma estrela se aproxima muito, a força gravitacional do buraco negro a estica e despedaça em um processo chamado evento de disrupção tidal. Os fragmentos da estrela caem em órbita, aquecem e liberam quantidades colossais de energia, produzindo o que vemos como um flare.
O fascinante é que tudo isso aconteceu há 10 bilhões de anos, mas a luz só chegou aos nossos telescópios agora. Observar o flare Superman é como receber uma carta de um evento que ocorreu antes mesmo da formação do nosso Sistema Solar. Isso é possível porque a velocidade da luz, embora enorme, leva tempo para percorrer distâncias cósmicas, e os astrônomos exploram esse fenômeno para estudar o universo jovem.

Evento de disrupção tidal: o que mais os pesquisadores encontraram
A equipe liderada por Matthew Graham, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), analisou várias hipóteses para explicar a intensidade do flare. Uma delas era a explosão de uma estrela massiva dentro do disco de acreção do buraco negro. Mas a conclusão mais robusta aponta para o evento de disrupção tidal: a destruição de uma estrela com pelo menos 30 vezes a massa do Sol, que se aproximou demais do buraco negro e foi despedaçada por sua gravidade.
O detalhe mais impressionante? O evento ainda está acontecendo. O buraco negro continua ativamente consumindo os restos da estrela. Graham comparou a situação a “um peixe que chegou até a metade da garganta de uma baleia”. A estrela não foi devorada de uma vez, mas está sendo consumida aos poucos, o que explica por que o brilho do flare persiste até hoje, anos depois de sua detecção inicial.
O flare “Superman” é 30 vezes mais poderoso que qualquer outro flare de núcleo galáctico ativo já registrado, brilhando com a intensidade de 10 trilhões de sóis no pico.
A causa mais provável é a disrupção tidal de uma estrela com mais de 30 massas solares. O buraco negro ainda está consumindo os restos dessa estrela, e o processo continua ativo.
Detectado pelo Observatório Palomar em 2018 e publicado na Nature Astronomy em 2025, o evento é tão raro que os pesquisadores criaram uma categoria exclusiva para classificá-lo.
Os detalhes completos da pesquisa foram publicados na revista Nature Astronomy pela equipe do Caltech e podem ser consultados neste estudo científico, que apresenta toda a metodologia, os dados coletados e as análises que levaram os astrônomos a classificar o Superman como um evento sem precedentes na astronomia moderna.
Por que essa descoberta importa para você
À primeira vista, um buraco negro a 10 bilhões de anos-luz pode parecer algo completamente distante da nossa realidade. Mas o flare Superman abre portas para entender como galáxias se formam e evoluem, incluindo a nossa própria Via Láctea, que também abriga um buraco negro supermassivo em seu centro. Estudar eventos extremos como esse ajuda os cientistas a mapear as regras que governam o cosmos, e essas regras valem também para o pedaço do universo em que vivemos.
Além disso, a descoberta sugere que nas regiões centrais de grandes galáxias existem populações desconhecidas de estrelas gigantes convivendo com buracos negros supermassivos. Compreender essa relação pode revelar mecanismos fundamentais sobre como matéria, energia e gravidade interagem em escalas que desafiam a imaginação.
O que mais a ciência está investigando sobre buracos negros supermassivos
O flare Superman foi detectado graças ao Zwicky Transient Facility (ZTF), um sistema de varredura do céu noturno capaz de monitorar alterações de brilho em objetos astronômicos ao longo do tempo. Os pesquisadores acreditam que o próximo telescópio Vera Rubin Observatory, atualmente em implantação no Chile, poderá encontrar eventos de disrupção tidal ainda mais massivos. A corrida para mapear os extremos do universo acaba de ganhar um novo ponto de partida, e o Superman é apenas o começo.
O universo ainda guarda segredos inimagináveis, e cada nova observação nos aproxima um pouco mais de entender o palco em que toda a história cósmica se desenrola. Se um buraco negro a 10 bilhões de anos-luz pode nos surpreender tanto, imagine o que ainda está por ser descoberto.




