Imagina descobrir que um dos maiores escritores de todos os tempos detestava o autor considerado o maior gênio do teatro ocidental. Pois é exatamente isso que aconteceu com Leon Tolstói e William Shakespeare, e a história por trás dessa rejeição é tão intrigante quanto qualquer enredo literário que você já leu.
A confissão que ninguém esperava
Leon Tolstói não era homem de meias palavras. O autor russo de obras monumentais como Guerra e Paz e Anna Kariênina foi direto ao ponto ao falar sobre William Shakespeare: “Eu esperava receber um grande prazer estético, mas ao lê-lo senti uma repulsa irresistível e tédio.” Para quem venera o cânone ocidental da literatura, a frase soa como uma heresia.
Tolstói não era jovem nem despreparado quando chegou a essa conclusão. Ele leu e releu as peças shakespearianas ao longo de décadas, tentando honestamente compreender o encantamento que elas provocavam em leitores e críticos ao redor do mundo. A cada leitura, porém, o sentimento era o mesmo: incompreensão diante da fama e desconforto com o estilo.

Quando a crítica literária vira manifesto
Em 1906, aos 78 anos, Tolstói foi além da opinião casual e publicou um ensaio extenso intitulado Shakespeare e o Drama. No texto, ele desmonta sistematicamente a reputação do dramaturgo inglês, argumentando que as peças tinham personagens artificiais, diálogos inverossímeis e nenhuma coerência moral real. Para Tolstói, a obra de Shakespeare era uma espécie de prestígio cultural fabricado, mantido mais pela tradição do que pelo mérito literário genuíno.
A crítica literária ficou atordoada. Afinal, estavam falando de Leon Tolstói, uma figura praticamente incontestável no universo das letras. O ensaio gerou reações acaloradas em toda a Europa e abriu um debate que vai muito além de gostos pessoais: o que faz uma obra literária ser considerada um clássico?
Os argumentos do conde russo contra o bardo inglês
Tolstói não se limitou a dizer que Shakespeare era chato. Ele elaborou uma crítica estruturada, ponto por ponto. Veja os principais argumentos que ele levantou no ensaio:
- Personagens sem coerência: para Tolstói, as figuras das peças shakespearianas não falavam como pessoas reais. Elas mudavam de tom e intenção de forma arbitrária, sem justificativa psicológica convincente.
- Ausência de moralidade clara: o escritor russo valorizava profundamente a dimensão ética da literatura. Ele via em Shakespeare um vazio de propósito moral, o que considerava um defeito fundamental em qualquer obra de arte.
- Linguagem excessivamente ornamental: os famosos solilóquios e a riqueza poética das peças, para Tolstói, soavam artificiais demais, longe da expressão humana autêntica que ele buscava na boa literatura.
- Prestígio fabricado: ele acreditava que a fama de Shakespeare era sustentada por uma espécie de “hipnose coletiva”, em que geração após geração repetia a admiração sem questioná-la de verdade.
- Indiferença ao sofrimento humano real: Tolstói entendia que a grande literatura deveria tocar o coração das pessoas comuns. Para ele, Shakespeare era um escritor de elites, distante do cotidiano e das dores universais da humanidade.
O que isso diz sobre gosto, cânone e liberdade de opinião
A polêmica entre Tolstói e Shakespeare tem uma lição preciosa para qualquer leitor: até os maiores gênios discordam sobre o que é uma grande obra literária. O cânone ocidental, esse conjunto de livros e peças considerados indispensáveis pela tradição cultural, não é uma lista objetiva. É um consenso construído historicamente, e consensos sempre têm dissidentes, especialmente os mais brilhantes.
Para o leitor comum, isso é quase uma permissão. Se Leon Tolstói pôde detestar Shakespeare sem que ninguém duvidasse da profundidade de seu amor pela literatura, você também pode não gostar de um clássico sem se sentir culpado. Gosto estético é parte da sua identidade como leitor, não uma prova de inteligência ou cultura.

Gênio contra gênio: um duelo que atravessou séculos
O escritor inglês George Orwell respondeu ao ensaio de Tolstói com um texto próprio, argumentando que a crítica revelava mais sobre o russo do que sobre Shakespeare. Para Orwell, Tolstói via no bardo inglês tudo o que ele próprio temia ser: um artista que encanta sem necessariamente iluminar. Seja qual for o veredicto, o embate entre esses dois colossos da literatura mundial permanece um dos debates mais fascinantes da crítica literária de todos os tempos.
No fim das contas, a história de Leon Tolstói e sua aversão declarada a William Shakespeare lembra que a literatura é um território vivo, onde até as certezas mais estabelecidas podem ser questionadas pelo olhar honesto de quem lê com atenção e coragem para dizer o que pensa.
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