Fogo ancestral: Evidências em Gesher Benot Ya’aqov revelam o controle do fogo há cerca de 780 mil anos.
Estratégia prática: Os hominídeos utilizavam madeira acumulada nas margens do lago como combustível acessível.
Preparo de alimentos: Concentrações de carvão junto a dentes de carpas comprovam o cozimento de peixes no período.
A descoberta de fragmentos raros de carvão vegetal às margens de um antigo lago está trazendo novas respostas sobre como os primeiros ancestrais da humanidade controlavam o fogo. No sítio arqueológico de Gesher Benot Ya’aqov, localizado no norte de Israel, pesquisadores encontraram evidências de fogueiras estruturadas que queimaram há quase 800 mil anos. Esses vestígios revelam uma impressionante capacidade de organização e compreensão ambiental por parte das comunidades pré-históricas.
Como era o ambiente onde as primeiras fogueiras da humanidade foram acesas?
Há cerca de 780 mil anos, a região do atual norte de Israel apresentava um cenário completamente diferente do que conhecemos hoje. O sítio arqueológico ficava posicionado na margem do antigo Lago Hula, um ecossistema de água doce cercado por pântanos, florestas densas e uma fauna extremamente abundante. Para os grupos de caçadores e coletores do Paleolítico Inferior, essa área representava um refúgio ideal que concentrava recursos essenciais para a sobrevivência diária.
As escavações indicam que os hominídeos acheulianos retornaram repetidamente a esse mesmo ponto ao longo de milhares de anos, acumulando mais de vinte camadas de ocupação. Os cientistas conseguiram identificar diversos elementos preservados que ajudam a reconstruir a rotina dessas populações antigas, os quais incluem as seguintes descobertas:
- Ferramentas de pedra lascada utilizadas no cotidiano.
- Restos de plantas, sementes e frutos consumidos pelos habitantes.
- Ossos de grandes animais e resíduos de peixes que serviam de alimento.

O que os fragmentos de carvão revelam sobre a vegetação antiga?
Embora os ossos de grandes mamíferos costumem atrair mais atenção nas pesquisas, pequenos pedaços de carvão vegetal preservados forneceram informações valiosas sobre o ecossistema do passado. Como a madeira queimada reflete diretamente a flora disponível ao redor, a análise microscópica de mais de duzentas peças permitiu mapear as plantas locais. Esse estudo identificou uma impressionante variedade de espécies arbóreas que floresciam nas proximidades do corpo d’água.
A pesquisa internacional revelou uma diversidade botânica surpreendente que superou a quantidade de vestígios de sementes e frutos encontrados anteriormente no local. Os cientistas conseguiram catalogar a presença de vegetações variadas na área, destacando-se as seguintes variedades de plantas:
- Árvores como salgueiro, freixo, carvalho e oliveira.
- Plantas frutíferas incluindo pistache e videiras de uva.
- A evidência mais antiga de romãzeiras registrada na região do Levante.
De onde vinha a lenha utilizada para manter o fogo aceso?
Ao contrário do que se poderia imaginar, os antigos habitantes da região não realizavam uma seleção cuidadosa ou o corte planejado de espécies específicas de árvores para abastecer suas fogueiras. As evidências científicas apontam para uma estratégia de coleta muito mais simples e altamente prática. A maior parte do combustível utilizado nos acampamentos vinha diretamente de pedaços de madeira acumulada naturalmente pelas águas.
Galhos e troncos carregados pelas correntes se depositavam na margem do lago, criando um estoque constante e acessível de lenha que demandava pouquíssimo esforço físico para ser recolhido. Essa disponibilidade permanente de combustível facilitava a manutenção das fogueiras e reduzia consideravelmente o gasto de energia do grupo, transformando a localidade em um ponto estratégico para assentamentos duradouros.
Como o controle do fogo influenciou a alimentação desses hominídeos?
Os vestígios deixados nos acampamentos pré-históricos revelam que o uso do fogo ia muito além de garantir o aquecimento noturno e a proteção contra predadores. Os pesquisadores identificaram uma forte ligação espacial entre as maiores concentrações de restos de carvão e resíduos alimentares específicos. Essa sobreposição indica que o desenvolvimento tecnológico estava intimamente ligado ao processamento e preparo dos alimentos coletados na natureza.
A análise detalhada dos resíduos demonstrou que as fogueiras eram utilizadas regularmente para fins culinários de maneira bastante organizada pelas famílias. Os arqueólogos encontraram indícios claros dessa prática ao mapear os restos que estavam misturados ao carvão queimado, detalhados a seguir:
- Grande quantidade de dentes de carpas de tamanho expressivo.
- Sinais claros de cozimento de pescados capturados no lago vizinho.
- Padrões de atividades repetitivas voltadas para a preparação da alimentação.

Quais capacidades cognitivas foram demonstradas por esses ancestrais?
A habilidade de gerenciar o fogo de forma contínua e integrá-lo às tarefas de subsistência comprova que os habitantes de Gesher Benot Ya’aqov possuíam habilidades mentais complexas. Manter fogueiras estruturadas, planejar o uso de recursos e coordenar atividades coletivas ao redor das chamas exigia uma linha de raciocínio avançada. Essas ações demonstram que as populações humanas do período já apresentavam um comportamento social altamente sofisticado.
Embora tarefas como a caça de grandes animais e a produção de ferramentas de pedra exigissem um planejamento rigoroso, a coleta de lenha se consolidou como uma atividade adaptativa focada na eficiência prática. Esse equilíbrio entre a alta organização social e o aproveitamento inteligente dos recursos naturais disponíveis ilustra o sucesso evolutivo desses hominídeos primitivos em seu ambiente.
Referências: “Paleoenvironmental and behavioral insights into firewood selection by early Middle Pleistocene hominins”, dos autores Ethel Allué, Naama Goren-Inbar, Yoel Melamed, Brigitte Urban e Nira Alperson-Afil, publicado na revista/portal Quaternary Science Reviews.

