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Mauro Vieira discute crise dos fertilizantes na China

Chanceler busca garantir abastecimento ao Brasil após alta dos preços causada pela guerra no Irã e pelo fechamento do Estreito de Ormuz

Trabalhador agrícola carrega trator com fertilizante, perto de Brasília (DF) (Foto: Adriano Machado / Reuters)
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247 - A importação de fertilizantes passou a ocupar posição central na agenda do chanceler Mauro Vieira durante sua visita a Pequim, no início desta semana, após o fechamento do Estreito de Ormuz em meio à guerra no Irã pressionar os preços internacionais dos insumos e ampliar a preocupação de agricultores brasileiros com o plantio da safra de verão, relata a Folha de São Paulo.

O tema ganhou peso nas reuniões de Vieira com autoridades chinesas, em um momento em que o governo brasileiro tenta reduzir a exposição do país à dependência de poucos fornecedores externos. A busca por alternativas já havia marcado a passagem do ministro pelo Uzbequistão e pelo Cazaquistão em maio, quando a compra de fertilizantes também esteve entre os principais assuntos tratados.

Na China, o objetivo do governo brasileiro é tentar assegurar o abastecimento antes do início da principal safra agrícola do país e evitar que uma nova escalada dos preços pressione ainda mais os custos de produção. A pauta esteve entre os principais temas discutidos nos encontros com Han Zheng e com o chanceler chinês, Wang Yi.

A viagem de Mauro Vieira teve como destino oficial a capital chinesa para a 5ª edição do Diálogo Estratégico Global Brasil-China, mecanismo de consulta política entre os chanceleres dos dois países que ocorre desde 2014. Embora o encontro tenha uma agenda ampla de cooperação bilateral, a instabilidade no mercado de fertilizantes levou o assunto ao centro das conversas.

Dados do Banco Mundial apontam que o preço dos fertilizantes subiu 12% no primeiro trimestre de 2026. Em abril, os valores chegaram ao maior patamar desde 2022. A projeção da instituição é de uma alta de 30% ao longo deste ano, em um cenário marcado por tensões geopolíticas, aumento de custos logísticos e pressão sobre insumos estratégicos para a agricultura.

O Brasil depende fortemente do mercado externo para abastecer sua produção agrícola. Segundo dados do governo compilados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, os fertilizantes importados responderam por 93% do total utilizado no país em 2025. A elevada dependência torna o setor agropecuário vulnerável a choques internacionais, especialmente quando há interrupções em rotas estratégicas ou restrições de oferta por grandes fornecedores.

Entre os produtos mais afetados pela crise está a ureia, fertilizante nitrogenado cuja produção depende do gás natural. Como esse insumo também registrou alta, o impacto se espalha por culturas relevantes para o Brasil, como milho e cana-de-açúcar, além de atingir pastagens e, por consequência, preocupar o setor pecuário.

A China ocupou em 2025 a posição de principal fornecedora de fertilizantes ao mercado brasileiro, com 26% do total importado. Em seguida aparece a Rússia, responsável por 25% das compras externas. A concentração em poucos países reforça a estratégia do governo de ampliar a diversificação de fornecedores, reduzindo riscos associados a crises políticas, guerras, barreiras comerciais ou restrições internas de exportação.

A dependência da China, no entanto, também envolve desafios. O país já recorreu a medidas de controle sobre exportações de fertilizantes em momentos de instabilidade, como forma de proteger sua própria segurança alimentar e equilibrar oferta e demanda no mercado doméstico. Em 2021, diante da alta de preços, Pequim orientou grandes fabricantes a reforçar o abastecimento interno, movimento que levou empresas a sinalizarem suspensão de vendas ao exterior.

No mesmo ano, o governo chinês passou a exigir certificados de inspeção para o envio de fertilizantes e produtos relacionados, medida que criou entraves às exportações e foi interpretada por agentes do mercado como uma forma indireta de restringir vendas para outros países.

O cenário voltou a gerar preocupação após a escalada da guerra no Irã. De acordo com relatos de fontes anônimas do setor às agências Reuters e Bloomberg, a China teria limitado exportações de alguns fertilizantes e ampliado inspeções alfandegárias. Essas medidas aumentam a incerteza sobre a capacidade de fornecimento em um período sensível para a agricultura brasileira.

Documento da CNA afirma que os custos provocados por conflitos internacionais já chegam ao produtor rural e reforça a necessidade de o Brasil antecipar riscos. A entidade defende a diversificação de fornecedores e o fortalecimento de alternativas produtivas e tecnológicas para reduzir a vulnerabilidade do país diante de choques externos no mercado de fertilizantes.

A preocupação do governo brasileiro é evitar que a combinação entre guerra, fechamento de rotas estratégicas, alta do gás natural e eventuais restrições comerciais comprometa o abastecimento de fertilizantes em um momento decisivo para a próxima safra. Nesse contexto, a agenda diplomática de Mauro Vieira na Ásia Central e na China passou a funcionar também como parte de uma estratégia de segurança para o agronegócio brasileiro.

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