Cuba abre economia a residentes no exterior
Medidas permitem participação em empresas privadas e ampliam acesso aos setores financeiro e agrícola
247 - Cuba anunciou um conjunto de medidas que ampliam a participação de cidadãos residentes no exterior na economia nacional, permitindo que invistam diretamente em empresas privadas e estabeleçam parcerias com agentes econômicos locais. As mudanças fazem parte de um pacote de reformas voltadas à atualização do modelo econômico e ao fortalecimento das atividades produtivas no país.De acordo com informações divulgadas pelo jornal Granma, as novas regras eliminam a restrição que limitava esse tipo de investimento apenas a residentes permanentes no território cubano, marcando uma das alterações mais relevantes na legislação econômica recente.
Abertura para novos investimentos e parcerias
As medidas autorizam cubanos que vivem fora do país a investir em negócios privados e formar associações com empresas nacionais, nos termos da Lei de Investimento Estrangeiro. Antes, esse tipo de parceria era permitido apenas com entidades estatais.
O vice-primeiro-ministro e ministro do Comércio Exterior e Investimento Estrangeiro, Oscar Pérez-Oliva Fraga, destacou que a iniciativa responde ao diálogo com a comunidade cubana no exterior e ao interesse em fortalecer vínculos econômicos. Segundo ele, as decisões "visam fundamentalmente buscar uma maior descentralização da economia, incentivando uma maior participação do capital estrangeiro em nosso desenvolvimento econômico e social, bem como diversificando a participação do setor privado em diferentes áreas da economia".
Além disso, cubanos residentes no exterior poderão participar de empreendimentos por meio de empresas estabelecidas em outros países, ampliando o alcance das alianças econômicas. “Isso abre um espaço diferente para a participação dessa comunidade no desenvolvimento econômico e social do país”, afirmou o dirigente.
Setor financeiro e contas em moeda estrangeira
As mudanças também incluem a abertura do sistema financeiro à diáspora. Os residentes no exterior passam a poder criar instituições financeiras não bancárias, bancos de investimento e outras entidades previstas na legislação cubana, mediante autorização do Banco Central.
Segundo Pérez-Oliva Fraga, a participação poderá se estender ainda ao segmento de ativos virtuais, ampliando as possibilidades de atuação no mercado financeiro nacional.
Outro ponto relevante é a autorização para que esses investidores operem contas bancárias em moeda estrangeira em Cuba, nas mesmas condições que residentes no país, facilitando a movimentação de capital e a gestão dos negócios.
Criação de fundos e incentivo à cooperação
O pacote inclui ainda a criação de fundos de cooperação e investimento voltados à participação da comunidade cubana no exterior. A iniciativa busca organizar e potencializar contribuições destinadas a projetos econômicos e sociais.
O ministro ressaltou que a medida também responde ao aumento das ações solidárias da diáspora, especialmente diante do endurecimento das sanções impostas pelos Estados Unidos. “Com base nisso, foi tomada a decisão de criar fundos para consolidar a cooperação, sempre respeitando os desejos do doador”, explicou.
Agricultura como prioridade estratégica
Um dos focos das novas políticas é a produção de alimentos. O governo cubano pretende incentivar a participação de residentes no exterior em projetos agrícolas, inclusive por meio da concessão de direitos de usufruto sobre a terra.
Pérez-Oliva Fraga citou experiências internacionais como referência e afirmou que modelos semelhantes podem ser aplicados em Cuba. “Modelos semelhantes poderiam ser desenvolvidos com a comunidade cubana que vive no exterior, na qual lhes são concedidos direitos de usufruto sobre a terra para produzir alimentos”, disse.
A iniciativa está alinhada à estratégia de fortalecimento da produção local e ao papel dos municípios na economia.
Impacto do bloqueio e desafios econômicos
Ao comentar o contexto das reformas, o vice-primeiro-ministro apontou o bloqueio dos Estados Unidos como o principal obstáculo ao desenvolvimento econômico do país. “O bloqueio é o principal obstáculo ao desenvolvimento de todas as transformações que nosso país está implementando na esfera econômica”, afirmou.
Ele destacou que as restrições dificultam o acesso a financiamento, mercados e capital, além de gerar impactos diretos na população, como limitações em serviços de saúde, produção de alimentos e abastecimento de água.
Apesar disso, reiterou que Cuba mantém disposição para o comércio com empresas norte-americanas, embora reconheça as limitações impostas pela legislação dos Estados Unidos.
Ajustes administrativos e estratégia de desenvolvimento
Paralelamente à abertura econômica, o governo cubano informou que está aprimorando os mecanismos internos para agilizar processos e atender às novas demandas de investimento, incluindo melhorias no portfólio de oportunidades e na tramitação de projetos.
Pérez-Oliva Fraga reforçou que o país busca ampliar a participação da diáspora em setores estratégicos. “Reiteramos em diversas ocasiões que as portas de Cuba estão abertas para investimentos da comunidade cubana residente no exterior, e quando dizemos isso, não nos referimos apenas a pequenos empreendimentos, mas também à possibilidade de participação em setores-chave para o nosso desenvolvimento”, declarou.
As medidas representam uma nova etapa na estratégia econômica cubana, ao integrar de forma mais ampla os cidadãos que vivem fora do país ao desenvolvimento nacional.

